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sábado, 16 de maio de 2020

bolachas de limonete








naquele local, naquele ângulo, com aquela incidência, meticulosamente alinhado com o local onde me encontro, e o espero, posso dizer-vos que hoje nasceu só para mim, anunciando-se com as cores com as quais me visto e me cubro sempre que preciso de acalmia e protecção, e enchendo a minha alma de luz primordial, da sua própria essência.

assim como naquele dia enquanto ele mergulhava no horizonte, pedi às águas do mar que levassem tudo o que me atropelava na estrada da vida, hoje peço-lhe a visão do caminho que me escapa, peço-lhe que eu seja farol de mim mesma, e, quando me distrair do que sou, que a sua luz me impeça de dormir para me acordar para a vida, para as diversas formas de ser dia, e que com o aconchego do calor do abraço que ele me dá, possa eu também acalentar a vida dos outros e voltar a fazer bolachas de limonete.










sábado, 6 de julho de 2019

valeu a pena







- perguntam-me
conta-me o rapaz
- porque é que chego sempre a rir, quando vou trabalhar. digo-lhes que para mim isto é estar de férias, e ainda por cima me pagam
- então valeu a pena
digo-lhe
- então valeu a pena
fica a ecoar dentro de mim
- pois valeu
responde-me ele
- valeu a pena
ainda ecoa dentro de mim
tanto recomeçar, tanto caminho errado
- então valeu a pena
tanto dedo apontado, tanta crítica, tanta dúvida, tanta permissividade
como se o meu anjo da guarda e o anjo da guarda dele me tivessem oferecido aquelas palavras
- então valeu a pena
para que eu encontrasse forças para continuar a fazer com que valha a pena seguir o que sinto








sexta-feira, 14 de junho de 2019

a mulher






eu olho para a mulher que ergue o sobrolho enquanto procura no computador o que eu suponho que sejam detalhes da minha vida
- eu percebo que não entenda
vou-lhe dizendo
- eu mesma, quando faço as contas, não percebo como é possível. digo muitas vezes que a minha vida é feita de milagres
ela, que vive com os números nas mãos e a lógica no pensamento, desiste de analisar o que o ecrã lhe mostra, e olha para mim
- eu acredito que as mulheres sejam capazes de fazer milagres
diz-me, com semblante sério
- mas era preciso, sabe, colocar aqui valores que pudessem ser aceitáveis
então, eu tento sorrir enquanto a voz se me comove, e começo a debitar parcelas

a vida é assim, se lhe dermos oportunidade. muitas vezes o caos vem de braço dado com um anjo, um milagre, uma mensagem, um caminho, se o soubermos ver
a mulher ainda não sabe, mas há-de saber, que um anjo vestiu-se dela








segunda-feira, 3 de junho de 2019

conto-vos eu que assisti









a mulher que parecia feliz, tinha feito um longo caminho na aprendizagem do sentir. era notória, para quem usava os sentidos que não constam da cartilha da escola, a sua incapacidade, trazendo todas as emoções encouraçadas, as intuições enjauladas, os arrepios anestesiados e as borboletas na barriga domesticadas.
fez então a mulher aquele penoso percurso de deixar cair defesas, colocar os pés em terrenos baldios, arriscar a vertigem dos declives, ajustar-se à ondulação, e permitir-se ser corpo que sente e pele que se arrepia.
para isso, teve a mulher que dar asas ao coração. e deu. não só lhe deu asas, como deu autoridade para avaliar, para acreditar, para decidir, para escolher. e era feliz, da felicidade das crianças que confiam.

no entanto, na falta de entendimento para compreender o desnorteio daquele, que dizendo que a amava, penava com ciúmes e insegurança, resolveu ser ele por dentro e pensar com a cabeça dele. para isso, silenciou o seu coração.

quando a cabeça tomou o lugar do coração, a mulher escureceu toda ela. na verdade, havia razões lógicas para a insegurança e descrença, e o modo de pensar que agora tinha, enumerava-as e demonstrava-as sem dificuldade. e a mulher escurecia mais. e o coração calado, amordaçado, emudecido, imobilizado. 

diz que foi enquanto subia a rampa da garagem que um anjo soprou-lhe no ouvido que pusesse a cabeça no seu lugar, e que deixasse o coração voltar a pensar e a decidir e a rir só porque sim, só porque sente, só porque acredita, só porque tem fé. então o peso da mulher aligeirou, e até o mar mudou para uma cor esmeralda quando ela lhe sorriu ao contar que tinha voltado a si.

serviu-lhe a experiência, contou-lhe o anjo, para se colocar no lugar do outro, e respeitar a sua angústia. e ela, respeitou o tormento de viver ao sabor de uma cabeça que pensa e com um coração reduzido a bombear sangue. pobre criatura.








quarta-feira, 13 de março de 2019

palavras









tudo tem o seu lado bom e lado mau
ouço-me dizer à mulher que me pergunta se estou triste com a mudança que se aproxima
o importante, é não mergulhar no lado mau
e enquanto falo, lembro a noite sem dormir, revendo tudo o que não consegui fazer, antecipando em círculos todos os piores cenários de um futuro provável, sem cessar, entoando mentalmente mantras inúteis para apagar as imagens que insistem em sobrepor-se ao sono, folheando todas as teorias que se aplicam tão naturalmente aos outros.

às vezes as situações aparecem-nos para que possamos ver, do lado de fora, a nossa vida, por dentro. assim como se fosse um espelho, e, as palavras que dirigimos aos outros, são, nessas alturas, aquelas que precisamos ouvir
diz a mulher que lava o futuro nas margens do rio ao jardineiro de pessoas.


acredito que os anjos nos colocam palavras na boca, para que as possamos ouvir, quando estamos perdidos














sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

lar








esvoaça, neste momento, uma pena branca no chão da varanda. toda a gente sabe que uma pena branca caída ao acaso, é sinal que os anjos enviam para que notemos a sua presença, assim como um perfume súbito e suave que nos invada inesperadamente. e o tilintar. claro que todos sabem que os anjos se anunciam assim, também - um leve tilintar que não percebemos de onde nos chega. 
quando assim é, agradeço, e regresso à minha essência, e regresso a casa. daí que, a minha casa,  meu lar, é onde voam penas brancas ao acaso e o tilintar suave me traz aromas quase imperceptíveis. 
encontrar-me-eis aí.







domingo, 8 de julho de 2018

a partir dali










     até podia ser, visto de fora, mas diz que não, que não se tratava do cansaço de recomeçar mais uma vez, daquela sensação  do seu corpo outra vez esgotado, do coração desgrenhado, de cada passo que dava voltar a ser uma conquista, da incessante oração ao anjo da guarda a ecoar-lhe no peito, da cor alegre no vestido para que lhe tinja a alma de azuis turquesas e corais de todas as tonalidades. não se tratava do cansaço de recomeçar, mas da oportunidade de o poder fazer mais uma vez, depois de se ter rompido de cima a baixo, ao conscientemente quebrar os seus limites. então, naquele domingo agradecia a deus por conseguir atravessar a rua para fazer compras no lidl, e por aquele momento em que despejava os plásticos no ecoponto, agradecia por lhe ter sido permitido quebrar a regra da fragilidade, e reconstruir-se dolorosamente, mais uma vez, tentando mentalmente retroceder no tempo aos dias antes da dor, e caminhar, a partir dali, como se tal fosse possível.









terça-feira, 21 de junho de 2016

números ao contrário


























embasbaco, e o resto já te contei. agora vou dar de comer aos pardais. sempre que começo a escrever, apetece-me ir dar de comer aos pardais.

mas quando faço contas à vida, e aqui contas, falo de dinheiro mesmo. ora bem, quando faço duas colunas e numa escrevo o que ganho e do outro lado as despesas que tenho, o saldo é sempre um milagre. mas falo a sério, um milagre. porque não é viável, não é possível que eu me desenrasque há tantos anos com números assim, números ao contrário. e tu dir-me-ás que não existem números ao contrário, mas existem e são os meus, mas não vêm nos livros de capa preta, medonhos. pois então as minhas contas são um milagre, e tu sabes como eu acredito na mão divina e em milagres. e pensando bem na minha vida, parece-me que me vão sendo concedidos uns prémios por bom comportamento e isso vê-se também aqui. olha, nas contas que me mostram que eu não posso, não tenho capacidade, e, quando penso no ano que vem, tão cheio de promessas de negridão financeira, eu concluo que não devo pensar, mas confiar num milagre, confiar que os milagres continuam, que os anjos me acompanham, como agora este, que me está a fazer sorrir enquanto eu embasbaco, aqui à janela, a contar pardais.

é nisso que eu tenho que pensar, em vez de pensar em impossibilidades. afinal de contas todos os anos me safo, sem ficar a dever nada a ninguém, nem a nada, é só mais um.


(lembra-me, se eu me esquecer. sim?)

















quinta-feira, 3 de setembro de 2015

três de setembro
































a mulher olha para o calendário no cantinho inferior direito do computador. é dia três de setembro, o tal mês. ainda vai no início e parece que já passaram, pelo menos seis meses. é uma montanha russa. a vida tem-lhe dado e tirado nestes dias com uma rapidez estonteante. o desapontamento alterna com a esperança à velocidade daqueles carroceis em que ela não entra nunca, de que tem pavor. os dias têm sido murros no estômago logo seguidos por cataplasmas e massagens revitalizantes. ela nem percebe que circunstância vive, que perspectivas tem, quais riscos deve prevenir. então, escolheu olhar só para um lado, em vez de ganhar um torcicolo como quem assiste a um jogo de pingue pongue. resolveu valorizar o que recebe, e então vê bênçãos, saúde, melodias, poemas, o coração que se abre, os dias que se ajeitam, exemplos que se cruzam, conhecimentos que se oferecem, a maresia por todo o lado, as suas cada vez menores necessidades, Ele que lhe dá a mão, que não se cansa de colocar os anjos pelo seu caminho, a capacidade de ver, os passos que se sucedem uns atrás dos outros, esta gratidão toda no peito, o lugar comum 'o que não me mata, fortalece-me'. 

















segunda-feira, 31 de agosto de 2015

estômago































ela diz-lhe que começa na zona do estômago, no plexo, e que depois sobe, cardíaco, laríngeo e frontal. chega mesmo ao coronário, não devia, mas chega. e aquela coisa que parece que tem um corpo pegajoso, toma conta dela e limita-a. 

o homem ralha com ela, com aquela paciência infinita, mas ralha. que ela está a voltar ao padrão antigo, que está a deixar o medo tomar conta dela. que não pode deixar que isso aconteça, que não pode andar para trás, que essa energia permite que outras coisas aconteçam, que a vida sai dos carris.

mas ela, que nunca teve a vida encarreirada, tenta explicar àquele homem que não é fácil, que há alturas na vida da gente que as circunstâncias assustam, que quando a nossa vida está entrelaçada na de outros pode sentir-se medo sim, sim, de que tudo caia como peças de dominó. ele insiste que não, que ela tem que abrir o peito à possibilidade e ao direito de merecer que tudo corra bem, que a prosperidade entre na sua vida.

ela sabe, ela sabe que está a falhar. antes de entrar para o banho pede ajuda à água, para que a limpe, da cabine do chuveiro relê os princípios colados na parede 'não te preocupes, confia'. é tudo tão fácil quando tudo corre bem... vem a vida e obriga-a a provar que é capaz de viver aquilo que diz que acredita. e pronto, vai tudo ao charco.

do outro lado nem sabe de onde, ele fala do que ela sente como se lhe corresse dentro das veias.













(obrigada)













quarta-feira, 22 de julho de 2015

hoje



























'para hoje, dai-me senhor, rectidão, lucidez e bom-senso. dai-me, dai-me, senhor. para hoje'.  a mulher pede, de pé, braços esticados ao longo do corpo, olhos fechados. 'por favor, senhor. as minhas costas não são tão largas como pensam, e a minha vida está cansada. ajuda-me'. respira fundo, mete-se debaixo do chuveiro, relê por entre a névoa do vapor de água os cinco principios de reiki 'só por hoje, faço o meu trabalho honestamente', ai... ela que anda a sabotar-se no trabalho, adiando, adiando... deixa a água correr sobre o rosto e pede 'anjo da guarda, minha companhia...'. 'eles' lá de cima, observam aquele ritual matinal, e comentam uns com os outros 'puto de cenário! é lerdinha de todo, nunca nos deixa em paz...', então reúnem-se, fazem uma escala de serviço, e descem à terra, onde a amparam e protegem o tempo todo.