hoje eu vou pensar em ti. vou deixar que os meus olhos se invadam pelo azul dos teus, que o meu corpo sinta o aconchego dos teus braços à minha volta, que os meus dedos recordem os vincos das tuas rugas, que eu tacteei para que te gravasse em mim, e gravei. a minha mão vai recordar a tua, entrelaçada, e o teu jeito tão teu de atirares o cabelo para o lado. é, hoje vou abrir esta comporta que me retém os impossíveis e vou tornar a ouvir-te dizer “tem calma miúda, se não resulta assim tenta o contrário”, e a paz que me trazias, e o peso que me aligeiravas, e nessa altura os dias eram todos de sol e o ar cheirava sempre a frésias, e as horas passadas ao telefone eram o descanso que eu precisava, e a vida era leve e eu ria e eu tinha tempo. hoje eu vou pensar em ti.
Quinta-feira, 15 de Março de 2012
Quarta-feira, 14 de Março de 2012
14 de março
hoje o meu pai faz 86 anos. nos seus passinhos pequeninos e mãos que procuram, tremendo, apoio, o meu pai está frágil. a colher já substitui quase sempre o garfo e é preciso lembrar-lhe incessantemente que coma. os dedos desenham palavras que o raciocínio tem dificuldade em encontrar, e, apesar de parecer ausente, está sempre à espera que cheguem os netos, que chegam, todas as noites, e se algum falta, aí sim, encontra palavras para perguntar o porquê. é o meu pai, que eu trato às vezes com voz dura, como quem empurra, como quem força a viver, a não parar, e depois me dá este aperto no peito. é o meu pai, por quem eu ficava com febre alta de cada vez que ele não estava, o meu pai a quem eu pegava no braço e punha por cima dos meus ombros, num aconchego que só eu sabia. é o meu pai, a quem eu roubava as camisolas mais velhas para ao vesti-las me sentir mais perto dele. é o meu pai que nunca me faltou com nada em todos os atropelos que a vida me tem feito.
é o meu pai agora ficando menino. o meu pai faz hoje 86 anos.
[venha mais um ano]
Terça-feira, 13 de Março de 2012
lê
a mulher lê. procura nas palavras dos outros sentido para o seu sentir, para o seu vazio. há muito que deixou de querer, que se deixa levar nos dias ao sabor do que tem que ser feito, e, isso cada vez mais lhe preenche o tempo. veste o corpo com o que de véspera ficou desarrumado no lavatório, olha o cabelo e passa-lhe água para acalmar algum caracol despropositado, vai para a cozinha e começa o dia, não pára até que de noite lê um poema que diz “porque eu quero tudo”, e de repente lembra que há tanto tempo que não deseja nada, deixou de querer.
Domingo, 11 de Março de 2012
Sábado, 10 de Março de 2012
adormece
adormece sentada, em frente a uma página em branco. acorda com o telemóvel que lhe faz chegar uma mensagem de desejos de bons sonhos... a mensagem do costume que diz que alguém pensa nela. ainda é cedo mas o corpo é caprichoso. nega-lhe o sono a meio da noite para a fazer vergar de cansaço, brinca com ela.
permite-se pensar nele [porque não?]
pousa a cabeça na mão e adormece mais um bocadinho ao som do zumbido do pc.
a cama ao lado, o quarto desarrumado, os papeis amontoados, a roupa caída, os porquês todos aos rodopios.
fecha os olhos outra vez.
o sono insiste, o corpo queixa-se. ela cede.
Sexta-feira, 9 de Março de 2012
ela
ela disfarça o embaraço que se instalou com comentários sobre o problema de tanto tempo sem chuva. aquela mulher ali, sentada ao lado dela, precisava de ajuda, de dinheiro. aquela mulher ali ao lado dela, sempre forte, sempre pronta a ajudar, sempre com soluções e apaziguamentos, com uma vida estruturada, precisava de ajuda, para que o marido não soubesse. e ela, que sempre foi a mais frágil, como quem tenta tirar-lhe o peso de cima, fala-lhe da seca e do pavor a catástrofes naturais, fala-lhe dos seus medos, para que façam companhia aos dela. entrega-lhe o dinheiro com uma dor no peito, pelos papeis que se invertem, e vem para casa com o espanto de como quem nada tem, pode valer a quem tem tudo.
em casa, baixa os braços, pesa-lhe o mundo.
Quarta-feira, 7 de Março de 2012
Sábado, 3 de Março de 2012
pedaço
esqueceu-o. não. aprendeu a viver sem ele. ele. aos poucos resgata-se daquilo. aquilo que não sabe que nome tem. aquele não sabe que pedaço dela que se diluiu na falta dele. aquela azia no peito, aquele buraco imenso de onde arrancou o melhor que a sua vida poderia ter sido com o que ela pensou que ele poderia ser.
aos poucos ela renasce de um amontoado de fraquezas, de fragilidades, pedaço de corpo esquecido.
Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012
duas mulheres
são duas mulheres. são cinco homens. elas, de 73 e 48 anos tratam deles. trabalham, ganham o sustento, como se diz lá na terra, cuidam, cozinham, limpam. a de 73 acha que tem que ser assim, afinal de contas o seu homem está dependente, dependente mas não agradecido. os outros? os outros vêm por acréscimo. a de 48 acha que tem que ajudar a mais velha. eles acomodam-se. há dias em que apetecia-lhes entornar-lhes a comida pela cabeça abaixo, deixar de lavar a roupa, cruzar os braços e descansar. como eles, perna cruzada em frente ao televisor. um fim-de-semana, para experimentar. mas a vida corre, os corpos cansam-se, gritam, e elas embrulham as suas queixas em risos.
Sábado, 18 de Fevereiro de 2012
flores
ela sai de casa como todas as manhãs. é sábado e são os filhos e o trabalho para entregar. sente-se frágil, sem chão. o futuro pesa-lhe enquanto uma voz lhe sussurra que é o aqui, o agora que importa, não consegue evitar aquele medo do futuro que a desequilibra. vai ao talho, ao supermercado, ao banco, à padaria. no fim compra flores, flores frescas, como se daquele ramo pudesse arrancar a energia, a alegria que já conheceu. a vida corre-lhe bem, nada mudou, é só aquele peso, aquela teia que a prende.
chega a casa, olha para a desarrumação que se apinha por todo o lado, larga os sacos no chão e arranja as flores.
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