domingo, 21 de outubro de 2018

estranha forma de vida






num final de dia de calor fora de época, a mesa ao lado da minha é ocupada por dois casais. enquanto o sol desce lentamente de encontro à linha do horizonte, cada um dos quatro personagens está inclinado sobre os telemóveis. a 10 minutos do ocaso, levantam o rosto, levantam os aparelhos e fotografam o momento. de seguida, regressam à mesma posição. presumo que tenham publicado no instagram para que o mundo saiba que passaram o final de dia de sábado à beira-mar.
o outro homem que chegou e ocupou a mesa junto ao areal, colocou a sua cadeira de frente para o mar e também se curvou em respeito às telecomunicações. o ocupante da outra, reverencia também o momento em que está ligado ao resto do mundo.
ninguém repara que tenho as sapatilhas perdidas debaixo da mesa, um corpo que não teve tempo de tomar banho, uma roupa que não devia ter saído de casa, e uma urgência de sentir na pele, o sol.







quinta-feira, 18 de outubro de 2018

apaixonado





eu estou perdidamente apaixonado por ela
conta-me o homem
e quero tanto que isto passe... 
desabafa, mesmo não se dando o caso de estar a ser rejeitado pela mulher
é que este sentimento não me dá descanso. esta ansiedade de estar sempre perto dela, de querer redefinir a todo o instante a cor dos seus olhos, os traços do seu rosto...
e ele quer que o sentimento passe, e eu a querer que o sentimento chegue








quarta-feira, 10 de outubro de 2018

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o #metoo dela dormia com ela todas as noites há muitos anos. todos os dias chegava a casa a praguejar por encontrar brinquedos espalhados no chão e exigia silêncio à mesa para ouvir o noticiário. o #metoo dela diminui-a, desvalorizava-a, fazia-a sentir-se dependente, amarrada, encurralada. o #metoo dela ameaçava e manipulava. dizia que era amor, o #metoo dela, que era tudo por amor. o #metoo dela exigia sexo diário, porque não custava nada, porque a uma mulher bastava abrir as pernas para que o homem despejasse as entranhas dele para dentro das entranhas dela. o #metoo dela era silencioso, abrigava-se entre quatro paredes e as telhas de uma casa e de vez em quando marcava os seus dedos nos braços dela para demonstrar que a expulsaria, se tivesse vontade. o #metoo dela era inteligente, apresentava-se bem e era sedutor.
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segunda-feira, 8 de outubro de 2018

pergunta






















a mulher calou a pergunta que trazia para aquela roda de partilha
- e para onde vou a seguir, se um dia chegar a ser feliz? qual a razão para viver se um dia nada me faltar? como faço o caminho se não procuro?














quinta-feira, 4 de outubro de 2018

sala de espera








na sala de espera as mulheres comentam que se ela foi com ele para um quarto de hotel, sabia perfeitamente para o que ia, por isso, perguntavam-se elas em tom indignado, o que é que ela queria agora? de que se queixa ela? as mulheres, sempre as mulheres a acusarem mulheres.
é na sala de espera que eu tenho tido conhecimento, de há umas 2 semanas para cá, do que se passa pelo mundo e pela nação. sinto os meus horizontes a alargarem dia a dia, naqueles 10 minutos em que ali estou. sei das azáfamas dos mares, dos contornos das tempestades, dos salários mínimos, das reivindicações dos funcionários públicos que se eles soubessem o que é a vida de um pescador davam mas é graças a deus e ficavam quietinhos, sei de solidões de quem vive ali a única aproximação humana e toque no seu corpo, sei dos resultados da bola, e, fiquei a saber que se uma mulher aceita entrar num quarto de hotel com um homem, não tem direito a dizer que não, que afinal não quer. e se por lá continuar, virei a saber certamente, que tipos de provas é que se tem, ao final de nem sei quantos anos, para provar a tal de violação.








terça-feira, 2 de outubro de 2018

o jardineiro






o jardineiro de pessoas começou a criar, mais do que um hábito, uma necessidade, de todos os dias respirar um pouco do ar que rodeia a mulher que já quase lavou todo o futuro nas margens do rio. basta olhar para os dois, tão diferentes na forma de parecer, para se perceber que as suas almas se passeiam por mundos diferentes. na verdade, o jardineiro manifesta descrença na existência da alma, enquanto a mulher afirma que o corpo é apenas um veículo de expressão.
naquela noite o jardineiro falava do homem, que tendo um conhecimento extenso e uma biblioteca com mais de um milhar de livros, o procurara em colapso existencial, o corpo a ceder de vida vazia de afecto.
sabe, a doença acontece quando há uma falta de amor. quando há amor não se adoece, não há espaço para isso, o amor ocupa o lugar todo.
a mulher ouve o homem que não acredita em almas, falando com a alma nos lábios.







segunda-feira, 1 de outubro de 2018

mon emouvant amour










[conta a história do amor de um homem por uma mulher surda-muda]










sexta-feira, 28 de setembro de 2018

identidade







dona fernanda está a mirrar. quem passa por ela quase não a reconhece, falta-lhe o brilho, a aura evola-se, os suspiros emudeceram, as inquietações amainaram. dir-se-ia que era aquele querer desencontrado que lhe trazia ânimo à vida, aquele esperançar absurdo.
quando a vejo, penso sempre que ela era tudo o que ela não tinha, que era esse vazio, essa ausência, que lhe dava identidade. agora dona fernanda tem apenas o que tem, é a realidade que a apaga. dona fernanda era resultado de um sonho impossível de ser vivido. dona fernanda não era. mas agora que dona fernanda é, está a deixar de ser.








terça-feira, 25 de setembro de 2018

natural









a coisa mais natural no mundo é morrer, e bem mais certo do que nascer, que nascer podes, sim ou não, mas morrer é certo e sabido. mesmo assim, a vontade de pousar a cabeça em cima da mesa e deixar-me ficar, é imensa, e de verdade chorar, sem mesmo aproveitar a ajuda do monte de cebolas descascadas que se avoluma em cima da banca. eu, que sou tão tu cá, tu lá, com estas coisas de vidas e mortes e encarnações para a frente e para trás, desta vez doeu-me, desta vez zanguei-me, desta vez senti que foi roubado tempo de vida que devia ser vivido por uma qualquer negligência médica, esse lugar tão comum.
...
esbardalhei-me a caminho do velório. completamente esparramada no meio do chão, numa rasteira tão bem à moda do defunto, que havia de jurar que o vi rir mostrando os dentes brancos naquele rosto sempre moreno. corpo inteiro nas pedras da calçada, mãos, pernas, ombros, cara. tudo esmurrado. uma perfeição. entro na igreja a limpar-me com toalhetes húmidos.
se em vez de gastarem tanto dinheiro com flores, comprassem vinho e bebessem... sussurra-me o homem sem corpo.
pego na rosa branca que me entregam para deixar no cemitério, invento uma desculpa, e trago-a para casa. desapareço para dentro de mim enquanto o morto resiste em desaparecer para fora da vida.









segunda-feira, 24 de setembro de 2018

sábado







o homem, que tinha entrado para aquela sala de operações a contar anedotas e confiante que aquele órgão que lhe iriam substituir pela segunda vez, lhe traria mais anos de vida, não sobreviveu. foi uma rasteira da morte. apanhou-o desprevenido, apanhou-nos a todos desprevenidos, e levou-o. brincadeira parva de mau gosto.
aninhada no meu abraço a mulher soluça
ele não queria partir, ele está muito revoltado, ele anda perdido
apenas murmuro, com os lábios encostados ao seu cabelo 
eu sei, eu ajudo, eu ajudo, mas ele sabe o caminho...
com os olhos rasos de água a mulher sossega
tu sentes, ana, também sentes?
(sinto muito)
(sinto tanto)
...
somos cinco sentados ao almoço no dia do meu aniversário. peço ao rapaz que fez a refeição que ponha a tocar uma música de parabéns para que brindemos à vida, e, no telemóvel, encaixado por graça naquela caixa de lanson, ouço tocar nothing compares to you.