terça-feira, 18 de dezembro de 2018

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Foi então que percebeu que o amor e a alegria caminhavam lado a lado, e naquela tristeza profunda que sentia, a distância dele aumentava, por dentro. Não poderia aceitar ter menos do que o que já tivera - o riso solto, o abraço sem fim dos seus corpos enlaçados como se toda a vida tivessem caminhado para aquele reencontro, a pele que se prolongava nos dedos do outro, na respiração do outro, a luz no seu rosto quando fazia amor com ela, o tempo, o 'esperarei por ti' . Nunca poderia ter menos do que tudo aquilo que arriscou, toda a fragilidade que expôs. E agora exposta, a tristeza entra pela abertura no seu peito, pelo lago dos seus olhos.
E a tristeza definha, sempre o soube.









domingo, 16 de dezembro de 2018

soltas








trago da garagem os sacos rotos do costume, apenas com mais um ano de pó, tingindo as minhas mãos de castanho áspero enquanto retiro as partes da árvore de natal, com os enfeites pendurados há 13 anos. são três encaixes e está feita.
em 10 minutos tenho a casa decorada para a época natalícia. árvore, presépio, velas e o pai natal sentado no sítio habitual.
depois, sento-me, e fico a olhar as luzes a piscar.








quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

epifania







foi quando abri o frigorífico e vi duas prateleiras atoladas de alheiras, tradicionais e vegetarianas, que percebi que o optimismo anda de mãos dadas com a inconsciência. 








sábado, 8 de dezembro de 2018

matemática










o jardineiro de pessoas percorre o longo caminho até chegar ao rio. aí, segura entre as suas, as mãos da mulher que lavava o futuro nas margens do rio. as mãos da mulher estão gastas e a alma cansada. a mulher tenta agora, habituando os pés ao piso escorregadio do limo da fragilidade dos dias, encontrar chão que sustente os seus passos, o seu caminhar, o seu corpo tão frágil do seu próprio abandono.
diz-lhe o jardineiro de pessoas, que só vê na mulher que lavava o futuro nas margens rio, leveza e liberdade
é quando estou consigo que percebo que um mais um podem não ser dois. nós juntos, somos tanto, e separados, incompleto-me









quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

ajudante





aqui tratam-se pessoas, não imagens
vai-me dizendo a mulher de cabelo vermelho, enquanto desliza o dedo pelo rato, percorrendo com o olhar o exame, no ecrã do monitor
pelo que aqui vejo, não seria possível ter melhorado. e os tratamentos que me diz que fez, nunca seriam suficientes para que não sentisse dores. mas como lhe disse, não são as imagens que eu trato...
enquanto fala, os meus olhos pousam nela, ajudante do construtor de almas, e confio. ao nascer, fui aparelhada, como diz o poeta, com muita confiança 




























quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

dos dias






...
é por volta das três da manhã que percebo a maravilha de poder respirar pela boca, quando o nariz não serve, nem para inspirar, nem para cheirar
...
agradecer a oportunidade de poder recomeçar todos os dias
...
sozinha, na garagem conto os passos que vou dando, recordando, mais uma vez, como me faz feliz a mais rudimentar forma de autonomia
...
alguma vez fomos amantes?
pergunto eu ao homem-terra, indignada perante uma espécie de cena de ciúmes
é aí que reparo, com ternura, que aquele homem que toma um tamanho maior do que a dimensão humana, é também menino, é também inseguro
...
as palavras não saem
murmuro-lhe
WD40
responde-me
...
as palavras não se soltam
...
de cada vez que o tempo era gasto em algo que fugia do grande propósito, escoava-se, 24 horas, resumiam-se em 10 minutos
...











terça-feira, 27 de novembro de 2018

आयल्लक










foi quando a mulher que lavava o futuro na beira do rio deixou voar o último verso e libertou a última melodia, que percebeu o vazio que fica depois de se diluir na corrente do rio, um futuro impossível.









segunda-feira, 26 de novembro de 2018

temos que nos ver























shiny shiny light









a fada estava danada
não queres saber de mim para nada e agora apareces, assim, só porque sim?
toda a gente sabe que as fadas são temperamentais, mas shiny shiny light não parava de esvoaçar, indignada com a minha presença
é só Faruch, Faruch, Faruch! só queres saber desse gnomo a cheirar a musgo! espalhas gnomo por todo o lado, e agora vens aqui porque queres saber com recuperar a magia na tua vida?
eu e shiny shiny light nunca tivemos um relacionamento pacífico. a fada empertigada, solta-me sempre impropérios e trata-me como uma incapaz por eu não estar constantemente em festa e alegre. que a vida é uma brincadeira, repete-me sempre que lá vou, que a vida é magia, é cor, é brilho, e, que só assim atraímos abundância e fazemos a vida maior. eu, dou-lhe um desconto pela irresponsabilidade, e, embora não o verbalize, ela acede aos meus pensamentos, e bombardeia-me com toda a espécie de paus e bolotas e avelãs e tudo o que tiver à mão
queres magia para a tua vida? então toma lá!
e despeja pela minha cabeça abaixo um saco de rede com tudo aquilo que já sei, com tudo aquilo que aprendi, conchas, mar, areia, flores, intenções, incenso, cartas, búzios, cristais, todas as fases da lua, cheiro a terra molhada, ervas aromáticas e plantas mágicas, sonhos, especiarias, missangas, velas, perfumes, orientação de olhar, pontos cardeais, animais, capacidade de sentir as pessoas certas nos caminhos, e muitos caminhos, muitos.
fico ali, sentada, com tudo o que sei espalhado ao meu redor, e ela ri, um riso de gozo e desprezo, gargalhadas sonoras, 
agora espalha o meu nome por todo o lado, como fazes com o Faruch! 

e aqui estou eu a dar conta da existência de shiny shiny light