sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

sou contra a aprovação dessa lei cujo nome nem gosto de escrever









quando, contrariando a vontade da mãe, a filha levou-a para os cuidados paliativos, previamente acordado com a médica, o jardineiro de pessoas comentou
num dia ou dois morrerá
e morreu
se sou a favor da eutanásia?
questionava-se ele
ela existe e sempre existiu de forma velada, de forma conveniente. encharcam os doentes de morfina e outros fármacos, tornam-nos inconscientes, entram em insuficiência respiratória e morrem em pouco tempo. sabes, enquanto posso, enquanto percebo um brilho no olhar, uma possibilidade de vida, penso assim 'ainda não chegou a tua hora' e mudo-lhes a medicação. é frequente no dia seguinte a enfermeira dizer-me 'doutor, o doente melhorou!...'. nem que seja mais um dia apenas...
















terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

teia










aconteceu de mansinho e qualquer ruído que possa ter feito parecia brisa na folhagem fresca da primavera. tudo o que ia lentamente acontecendo era macio. amaciava, amaciava o caminho, as rotinas, o sono. até o sonho. até se atrevera a sonhar, essa prática tão comum nos outros e tão esquecida nela. além de sonhar, a acreditar que os sonhos podem ser possíveis. pelo menos aqueles.
foi assim que as horas dos dias e aquelas horas que só cabem na esperança de que possa haver esperança, começaram a ser tecidas em torno de uma possibilidade. era como finos fios colocados meticulosamente por uma laboriosa aranha. daquelas teias perfeitas, brilhantes, simétricas.
deve ser assim que tudo acontece, e se a gente se descuida, fica com a teia colada aos cabelos, com uma sensação de arrepiar, e queremos livrar-nos daqueles fios e parece que estão por todo o lado, colados à pele
e agora começam a faltar-me as palavras, porque escrever às vezes dói, mas se não escrever, pode acontecer que me esqueça de mim. e às vezes parece que me esqueço, que me esqueci.












quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Praia







Os atletas tinham que participar obrigatoriamente da prova de 1500 livres em que deveriam gerir o esforço de forma a que cumprissem o desafio dentro do tempo limite. Muitas vezes acontecia desistirem de nadar a poucos metros de cumprirem os 1500. Chamavam-lhe alguns, 'morrer na praia'.

















domingo, 9 de fevereiro de 2020

As mulheres e os homens






Garanto-vos que vi.
Quatorze mulheres pariram outra mulher. Uma mulher que passados tantos anos ainda não tinha nascido. E deram-lhe colo, e embalaram-na, e cantaram para ela, e ela resistiu, e ela chorou, e ela aceitou, e ela, nasceu, com a energia da gazela, conta quem sentiu.
E os seis homens embalaram as mulheres que embalavam a que nascera, com o choro do abandono.












domingo, 2 de fevereiro de 2020

passos






pergunto à mulher que está há tanto tempo ausente, como se sente
mais desiludida, mais livre e menos alegre. e espantada, comigo mesma
conta-me ela, ela que é de poucas palavras
é espantoso como a liberdade pode nos tornar mais tristes. será que a alegria para ser alegre, tem que ser partilhada?
eu tento defender que não, que a liberdade é leveza, que a leveza é alegre
os meus passos, os passos que se cruzam com os meus passos, os desvios que obrigam os meus passos a dar, todos os sulcos no terreno dos dias, têm me conduzido a uma eu mais livre, mais desapegada, mais despida de medos, e no entanto, o que me despe de peso, torna-me pesada, densa, como se faltasse o brilho de outro olhar, no meu, para que eu brilhe, também
conta-me, como se falasse sozinha










segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

serviço








o homem estende-me a mão
pode cumprimentar, estão limpas e tratadas
o senhor antónio tem as mãos largas e todo ele se move como se cortejasse a vida, com o cuidado de um amante, que, amando, esteve tempo demais distante da sua amada
eu deixo a minha mão ser abraçada pela dele, enquanto lhe desejo que o dia seja bom
passei meses a fio no barco. comia e dormia no convés arranjando redes. só eu sabia da arte e as minhas mãos, com o frio e a água salgada, gelavam e secavam que eu nem conseguia dobrar os dedos. eu sei dar valor à vida, sabe? e às mulheres. respeito muito as mulheres porque vivi muitos meses sem ver uma. as mulheres são um ser maravilhoso, feitas para nos servir e dar conforto...
enquanto o pescador fala, eu tento ver as imagens que vestiram aquelas palavras, eu, que por muito que me revolva as entranhas, também sou uma servidora de homens


















sábado, 25 de janeiro de 2020

(anciã, mãe e irmã de alma)










Mantém o teu corpo limpo e perfumado com o aroma suave das flores
Sê por fora aquilo que és por dentro. Espelha o teu interior na tua forma de ser, de estar e de vestir
Mantém a tua casa simples, confortável e acolhedora
Tem sempre um chá de tília, mel e bolachas para as visitas
Cuida das tuas plantas e das ervas sagradas. Faz os teus incensos
Se compassiva e generosa com a diversidade e com a diferença. Aceita
Honra os teus ancestrais e aprende com as gerações novas
Pisa o chão com os teus pés nus e respeita o solo sagrado da casa que te dá abrigo
Respira












quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

*









frágil
lembro-me do médico, há tanto tempo atrás, com o sorriso cheio de generosidade e compaixão, dizendo-me
diga-lhes que é frágil
e tantos anos já passaram, e só agora eu percebo que a quem eu tinha que dizer que
é frágil
era a mim mesma
e aceitar












quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

a mim, que tenho tudo








o homem-terra, aquele que me via por dentro, sem que o espaço e o tempo afectasse a nitidez da visão, deixou de me sentir, deixou-se invadir por uma sensação de medo da rejeição que o acompanha há tantas vidas que ele nem sabe quantas, e essa energia adensa e torna opaco o ar que nos rodeia.
e tu ana, o que vens aqui fazer, tu que tens tudo, trabalho, amor e saúde...?
pergunta-me, resumindo àqueles três pontos, os motivos para as inquietações de uma vida
vens para manutenção?
venho pelo convívio
e sorrio, deixando que os olhares de cobiça pousem em mim, sem saberem o que cobiçam, sem saberem o que me falta, sem saberem aquilo em que abundo














segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

do dia






pronto já percebi
diz-me a minha amiga, rindo, do outro lado do telefone
hoje é dia de cortares os pulsos
e eu a pensar que nem se notava