domingo, 1 de dezembro de 2019

ele










foi naquele homem curvado e de passos lentos que atravessava vagarosamente a rua, com uma grande mochila às costas e uma pesada máquina fotográfica na mão, que encontrei o que procurava, quando decidi, nesta manhã de sol de domingo, dirigir-me ao mar, naquela praia onde costumo encontrar-me com deus.
o lugar que procuras está dentro de ti
sussurrava-me ele aos ouvidos, enquanto eu teimava naquela fila grande de trânsito, chegar ao lugar onde consigo respirar, onde me consigo resgatar, onde o vento norte vem de oeste, onde vejo Iemanja se passear com Poseidon.
foi ao desistir do destino que encontrei a chegada, naquele homem, que apesar das limitações do corpo, levava pela mão o seu coração e o sonho.














sábado, 30 de novembro de 2019

Simples








Então concede-se o direito de entristecer. Afinal o sábado chegou ao fim e cumpriu todas as tarefas com um ar alegre, modos condescendentes e tentando agradar, adivinhando as vontades deles.
Agora que a chuva se faz ouvir e que a noite a obriga a parar, o burburinho da tristeza entra, denso, por todos os poros, e dói, dói por baixo da pele.
Afinal o que sinto?...
Pergunta-se
A verdade é que queria ser amada por ele, e percebê-lo.
É tão simples e tão redutor. Mas, talvez reconhecendo-o, a tristeza descole do corpo.








terça-feira, 26 de novembro de 2019

aves









"Às vezes penso quem seria eu agora se não me tivesse demitido naquele ano de 2012, em plena crise…", escreveu a mulher na rede social. e eu, que sou de fácil esquecimento, trago a frase a entoar na minha cabeça e no meu coração.
vais trocar o certo pelo incerto
dizem-me por outro lado, quando falo da minha vontade de liberdade
é pouco, mas é certo
reforçam, anestesiando a minha vontade

era, naquela altura - e já lá vão algumas vidas - com a melhor das intenções, que se cortavam as penas voadoras às aves, para que não voassem alto, para que andassem rasteiras ao chão, para contrariar a sua natureza. lembro que durante esse processo, muitas vezes sangravam.
que não dói, diziam do acto, enquanto a natureza chorava sangue, enquanto a vida desandava











domingo, 24 de novembro de 2019

Invisível










A mulher que espalha desejos de bons dias e esperanças para uma semana inteira, hoje saiu calada da piscina, vestiu-se, e saiu sem o habitual 'Bom domingo'. Os passos lentos e os ombros caídos mostravam uma tristeza consciente de que ninguém se importaria.
E não se importaram. E nem estranharam.
Fiquei a pensar que quando a mulher fala aqueles desejos de que a vida seja boa, é para ela mesma se ouvir.










sexta-feira, 22 de novembro de 2019

eu nela








com a mulher espelho sentada à minha frente, sinto que o que faço de melhor é o que mais me custa fazer. 
sentindo tanto o que ela sente, sinto que me dói mais a mim a vida dela, do que a ela. porque a revivo, porque a ressinto, porque a revejo.
é uma mudança
disfarço, dizendo-lhe
sabe que um corte pode ser um renascimento
digo-lhe, sabendo, e não lhe dizendo, que é dor profunda, sentindo o cansaço para recomeçar, cansada da repetição
não quero dizer que esteja a repetir o padrão
mas está
e apenas quando se amar a si mesma, respeitar os seus cansaços, os apelos da sua alma, a linguagem do seu corpo, poderá quebrar o padrão
mas não lho digo, tal me parece a banalidade, e de tão banal, que nem eu mesma sigo
















terça-feira, 19 de novembro de 2019









ao cumprimentá-la, as lágrimas daquela mulher desolada deslizaram lentamente pela minha cara. lágrimas emprestadas que eu nem soube se eram lágrimas da cuidadora, se as lágrimas da morta que jazia dentro daquele caixão no centro da capela fria, sem uma única flor.
sei que rolaram no meu rosto, mornas, molhando-me.
naquele templo onde há mais imagens de cristo crucificado do que pessoas, está o padre, a urna, o homem que veio de longe, a mulher que foi por impulso, e a que chora.
a morta viveu bem mais de 80 anos, estudou, foi professora, foi artista, e, ao que disse o padre era uma santa.
como é que se passa pela vida e se fica assim, tão só?
como?










jardim








eu acredito
conta o jardineiro de pessoas
que enquanto ela olhar por aquela janela e esboçar um pequeno sorriso por ver o jardim, tem que se fazer o possível para que continue viva. não concordo com a médica dos paliativos, que a quer deixar morrer. eu sei que ela disse que não quer que lhe prolonguem a vida, mas ela sorriu...












sábado, 16 de novembro de 2019

abutres









e a mulher morreu.
tanto alguns esperaram, vigiaram, espiaram, ansiaram, que a mulher morresse. rondaram a casa, leram nas entrelinhas, controlaram as rotinas, sondaram intenções.
tantos desejaram que a mulher morresse. a velha mulher, anos acamada, sem descendentes, apenas parentes afastados que farejavam-lhe o leito à espera do cheiro da morte, e a negra, a negra que dela cuidou, de tal forma, lamentavam, que ela resistiu muito mais do que seria suposto, porque uma mulher acamada não tem direito a ocupar os dias dos outros.
e agora a mulher morreu e não vai fazer falta a ninguém. os que lhe contaram os dias, irão vender até ao último botão, todos os bens, e todos os males de uma vida solitária. 
abutres








quinta-feira, 14 de novembro de 2019

eles







enquanto eles vêm para a mesa, acendo uma vela e pouso, a distância segura da chama, as minhas mãos, para que a intenção que nela coloco, se faça calor em mim.
já não me lembro em que ponto da conversa peguei, para que, aquilo que eu queria falar não parecesse forçado.
e falei-lhes. falei-lhes da responsabilidade da palavra falada, do peso da palavra proferida, da higiene do pensamento, das provas a que nos sujeitamos perante as nossas certezas, a responsabilidade pelos nossos ideais, a humildade nos reajustes.
e entre risos e perguntas e relatos de experiências, eles ouviram-me, e perceberam-me.