sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Empadas e coisas assim










A mulher ao meu lado tem um dom natural para falar com malucos, costumo eu dizer, num tom carinhoso para todos os intervenientes nessas conversas.
[parece-me que já aqui falei dela]
É capaz de estar uma tarde inteira a ter conversas incoerentes, absurdas, sem se cansar e com o coração a transbordar de compaixão.
Ela está ao meu lado, e fala. Fala sem parar, encontrando assuntos e temas que eu mal ouço. Vou anuindo. Vou concordando.
E sei o que ela sente.
Ela tenta, num desespero manso, afastar o buraco negro, que, dentro de mim engole o que me faz alegre e me dá aquela capacidade de sentir que os dias valem a pena, com estas palavras, assim mesmo, simples e ingénuas.
A mulher fala para que eu me salve. Fala-me de empadas, de fornos inteligentes, de bolas de carne, de formas de pagamento e de queques de cenoura com cobertura de chocolate.
Pudesse eu salvá-la também quando se afoga na impotência da vida.








quinta-feira, 17 de outubro de 2019

prova










a plataforma a que procuro aceder por motivos de trabalho, aquele que faço com um anestesiado custo e um olhar ameaçador de esguelha no relógio, ameaçando-o a que não deixe as horas passar enquanto o meu desagrado continua, para mas deixar para um período de maior agrado, ora, essa mesma plataforma, talvez para que eu acorde do meu conformismo, desafia-me assim
prove your humanity
e eu fico assim sem como saber em que lado paira aquilo que pode provar a minha humanidade, se no sacrifício das horas em prol de quem já nem de mim deveria precisar, se nesta ânsia que ainda subsiste em mim de um dia me livrar de tudo o que não gosto.
prove your humanity
desafia-me a plataforma
10+5=
e, digo-vos, acertei no resultado. será esta a minha humanidade, afinal.








segunda-feira, 14 de outubro de 2019

desando












Não sei o que veio primeiro, se a falta de tempo, se a falta  de vontade de experimentar receitas novas. Também deixei de pôr música a tocar na cozinha e aquela alegria que me vinha assim de repente, digo-vos, agora que me observo do lado de fora, que talvez me viesse dele, daquele para quem eu enchia os olhos de azul e guardava o vento do mar debaixo do cabelo. 
As palavras também se foram, assim como aquele pensamento 'vou escrever sobre isto'.
E agora que escrevo, faço-o apenas com a ponta de um dedo no ecrã do telemóvel, em vez de deixar os dedos todos percorrerem o teclado à sua livre vontade.
Parece-me que o que me soltava os sentidos, agora deixa-me indiferente, como se deixasse de ter a vida à flor da pele, o arrepio, a vertigem. Ou então estará para acontecer algo maior, assim como quando o atleta recua para conseguir um salto mais longo. 
Ou ainda mais então, talvez tenha sido raptada por um extraterrestre e deixaram esta figura que parece ser eu, a fazer de conta.









domingo, 13 de outubro de 2019

do dia











...
chove
(finalmente)
eu tomo um banho quente, assim como se já fosse inverno, e a minha pela agradece o toque da água que escalda
...
a parede do corredor mostra sinais de infiltração de água de uma das casas-de-banho.
a vizinha de baixo queixou-se que escorre água na parede de casa dela. a base de chuveiro da outra casa-de-banho partiu, e, mais uma vez, lá vai parar, não sei se com espuma, ou não.
apareceu água junto à máquina da roupa e a máquina da louça também verteu.
...
se a mulher que trazia asas de fada tatuadas nas costas fosse viva, diria
água é emoções. tens que ver como estás a lidar com as emoções, pois está originar tudo isso
(e eu sei. sei que água é emoções)
...
ouço a mulher do homem-terra dizer-me
tu é que provocas isso tudo. é a tua energia.
...
enrosco-me no sofá e não faço nada.
nada.
...












quarta-feira, 9 de outubro de 2019

reset







sei que foi pela última lua cheia, e, como ela está em quarto crescente, deve ter sido quase há um mês. desde então as palavras da mulher de voz rouca não me saem da cabeça
e faz-se um reset, sabe? um reset
[e a palavra reset não me sai da cabeça]
você senta, inspira profundamente, todos os pensamentos que vierem você deixa ir sem resistência, sem apego, sem culpa, e volta à respiração. naquele momento em que não vierem pensamentos, e, olhe, pode ser apenas um segundo, nesse momento dá-se um reset, e tudo fica bem
então eu sento-me, respiro profundamente umas três vezes, e os pensamentos vêm, e vão, e vêm, e vão, e eu fico à espera do reset
ansiosamente






quarta-feira, 2 de outubro de 2019

ausência










Já entramos em outubro e no outono. os dias vão começar a acinzentar-se e a tornar-se mais pequenos, preparando-nos para o recolhimento e introspecção que o inverno nos proporciona.
O outono é a minha estação e sempre preferi o inverno ao verão. Agora, com o passar da idade, começo a sentir saudades da claridade do dia e de caminhar na companhia visível do mar. Os meus olhos pedem cor e os meus passos visibilidade.
Sinto uma saudade estranha daquilo de que nunca tive saudade, assim como se fosse uma pena por não ter sentido tudo o que desvalorizei como se fosse indigno de ter sido notado.
A minha vida foi básica e simples. Viajei alguma coisa, e nessa altura fui feliz e alegre. Batalhei muito, e batalho, e nessas alturas fui feliz e cansada. Revoltei-me muito e nessas alturas esqueci que era feliz. Amei e isso trouxe-me medos que nunca tinha tido. O meu corpo mostrou-me que é frágil e isso lembrou-me que sou feliz e que vivo e que me amparam.
Esta manhã comecei a escrever este texto para uma amiga que se quis fazer ausente e distante. A ausência quando aliada à distância, tem destas coisas, distancia, e a amizade fica assim, cheia de receios de invasão, cheia de afastamento, cheia de não se saber uns dos outros, uma da outra. 




















terça-feira, 1 de outubro de 2019

o que foi











Foi um súbito anoitecer trazido pelas nuvens que cobriram o céu à hora de ser dia.
E fez-se silêncio sob os pés que calcorreavam aquela avenida que acaba no mar. No silêncio, o estridente tinito que povoa continuamente aquele espaço sem espaço de quem caminha, fez-se ignorado, o ronco dos carros na pressa do regresso a casa, fez-se calma.
E foi um silêncio muito maior do que a ausência de ruído, foi o aquietar de toda a perturbação, foi a carícia do tempo sem nome, foi o encontro com o lar distante. 










sábado, 28 de setembro de 2019

tão simples












Observando-me estirada naquela longa pedra, percebo que aquilo que me parece ser a minha alma plana por cima de uma estátua coberta de pequenos azulejos azuis e lilases, que sou eu também.
Uma estátua…
Murmuro…
No que me tornei...
Quando os homenzinhos pequenos começam a delapidar a base que sustenta o meu corpo inerte, começo a planar saindo do alinhamento da minha alma.
Ajuda-me
Peço eu a Viriato, o amigo silencioso que me acompanha e que é a minha armadura invisível
Então Viriato, com um golpe preciso, atravessa com um cajado os meus chakras cardíacos, da alma e da estátua, unindo-os.
Sem o teu lado espiritual, perdes-te de ti. Dedica-te a ti mesma.
Ecoa dentro de mim, tão esquecida de tudo.











quinta-feira, 26 de setembro de 2019

tempo







a mulher adormece a agradecer o dia e a noite e acorda a pensar que vai ter calma
vou ter calma, vou andar com calma, tudo se há-de fazer
acredita que a calma faz dilatar o tempo, assim como o relaxamento amacia as rugas. também sabe que a ansiedade, o nervosismo, as batalhas, contraem, o coração, o rosto e o tempo.
aceita o tempo com o coração de uma criança
dissera-lhe uma vez o Senhor do Tempo
a criança está toda por inteiro no momento, como se não houvesse depois, como se não tivesse havido antes. o tempo é agora, é aqui, é no centro do peito. tu verás
e a mulher sabe, as condições reunir-se-ão a seu favor, se não oferecer resistência.










quinta-feira, 19 de setembro de 2019

a voz








Então a voz que ouvia do seu lado esquerdo, abriu caminho através dos seus lábios
Se me enganares, faço - te um bruxedo que nunca mais te endireitas
A mulher nem queria acreditar que aquelas palavras tinham o som da sua voz. Tantas vezes as pensara mas nunca lhes tinha dado corpo. Como se fosse outra que não ela que as trazia amordaçadas nas vísceras
O homem riu.
Não subestimes as minhas capacidades...
Murmurou-lhe ela com um olhar límpido e calmo, enquanto pensava que nem precisaria de fazer nada, a intenção estava lançada, intensa.