sexta-feira, 7 de agosto de 2020

arco-íris




acordo com um assomo de vontade de deixar os olhos fechados. tudo me pede mais dormir. digo-me que não vou pensar na urgência das horas que fogem, das tarefas que se acumulam, na insistência em arrancar força de mim para continuar por caminhos que não fazem o meu coração alegrar, porque tem que ser, porque afinal ainda não ficou tudo bem, como apregoaram em palavras coloridas por arco-íris desenhados por mãos ingénuas de crianças. 

a vida vai melhorar, vaticina a mulher que às 8 da manhã me bate à porta para levar empadas quentinhas para a viagem. 

a vida vai melhorar, murmura, macambúzio o fornecedor de ovos, que de repente se viu com milhares de galinhas poedeiras e com os clientes de portas fechadas.

dias melhores virão, comenta o taxista amigo, com um sentido de humor, também arrancado a ferros.´

estou desempregado, comenta o rapaz que tinha iniciado a carreira na abertura de mais um hotel de topo e não vê como regressar àquilo para que estudou.






domingo, 2 de agosto de 2020

dos dias









como consegues ser tão calma, ana? pareces um lago...
isso de parecer um lago é tão bonito...
murmuro à mulher que desconhece que superfícies calmas escondem, tantas vezes, correntes contrárias
...
o vento vem insistentemente de norte. sinto o cansaço da árvore grande constantemente empurrada para o rio. até as folhas estão cansadas, esperando, conformadas, a calmaria da noite
...
as pessoas trazem os corpos despidos e os rostos tapados, como cães açaimados








segunda-feira, 20 de julho de 2020

bolo inglês e o pai natal






ora, o bolo inglês conserva-se muito bem mantendo a humidade por muito tempo devido às frutas cristalizadas, se for bem acondicionado em folha de alumínio ou película aderente. pode ser congelado, e na altura do lanche, se passar pelo microondas, estará quentinho, ou morno, como se tivesse sido acabado de fazer.
é assim tipo o pai natal.





vento 2










a casa teimosamente quente destes dias de um calor absurdo insiste em não deixar que o frio desta manhã entre. lá fora o nevoeiro limita o horizonte e anula o azul persistente do céu e a margem verde do outro lado do rio. ouço daqui as gaivotas e o chilrear frenético dos pardais.
mesmo em frente ao sítio onde os meus dedos escrevem, o vento roça nas folhas das árvores que se sacodem como adolescentes que despontam perante os piropos dos rapazes. 
eu sei que a esta hora ele brinca, para, daqui a pouco, lá para o meio da manhã, se lançar numa limpeza de céus, colocando as cores no seu devido lugar, a espuma branca nas ondas do mar, as saias num reboliço, a maresia dentro do meu quarto, e a nortada, por favor, a nortada, dentro do meu peito, e o norte, na minha vida.













quinta-feira, 16 de julho de 2020

para ti










Eu, que tantas vezes te peço que me mostres o caminho, hoje digo, que se esta é a estrada que tenho que percorrer, então percorrerei, e se me queres só nesta viagem, assim irei.
Mas peço-te calma que eu estou cansada, o calor aperta e nem sempre te percebo. Traz-me por favor o entendimento e a lucidez. E a fé, se for possível.











terça-feira, 14 de julho de 2020

vento 1








gratidão gratidão gratidão pela nortada
murmuro, quando atravesso o pequeno caminho que me faz chegar ao mar
naquele momento, o vento e a visão do mar envolveram o meu dia em tons de azul e branco de espuma, num presente de cor e aroma a lábios salgados
há instantes que salvam dias e, há momentos que desmoronam dias. muitas vezes esses momentos são separados por pequenas porções de tempo, minutos, segundos, parcelas de segundos

agora, que as árvores lá fora recortam o brilho acobreado do céu, um burburinho toma conta do meu corpo, naquele timbre contido da vida que pesa, de tantos rumos escolhidos, sem destino, sem acolhimento, sem colo








domingo, 12 de julho de 2020

vento










paro para sentir o vento que chegou de repente. lá fora as árvores irrequietam-se e dão-lhe voz e corpo no seu corpo. 
esta liberdade de chegar inesperadamente, de falar a sua linguagem, de ninguém esperar. assim fico eu também, ventando por dentro.










quinta-feira, 9 de julho de 2020

o que estás a precisar hoje, ana?







meter a cabeça dentro de uma bacia de água fria






terça-feira, 7 de julho de 2020

dos dias










Colocam-me um revólver na mão e dizem-me
Tens de o matar.
Quando a velhice chegar tens de o matar
O cavalo já não servia para montar. Tinha perdido a capacidade para perceber as ordens e seria inútil, segundo eles, aqueles que eu não sabia quem eram, mas a quem teria que obedecer
Foi quando eu sentia o ferro frio da arma na mão, prestes a encosta-la à cabeça do animal, que acordei
Seria o tiro disparado de lado ou de frente da cabeça... 
Trazia eu no pensamento ao sair do sonho

Nanotecnologia...
Ocorreu me já do lado de cá, mas ainda com 50 por cento da consciência do lado de lá
Isto do vírus é nanotcnologia
Dizem as correntes dos conspiracionistas

Talvez aquele suposto vírus que me apanhou em Janeiro passado durante o mês todo fosse já o dito e esteja a fazer de mim um aparelho comandado à distância
E ocupa-me com isto o pensamento naquele espaço em que podia estar a dormir

Enquanto na esplanada o jardineiro de pessoas explica como se propaga o bicho, que afinal não é um bicho, eu vou pensando, por dentro do meu ar interessado, esboçando um leve sorriso na minha pele morena
Informática, nada mais... 

Lá longe, perto do rio, passa a mulher que lava futuros, com a sua saca de remendos onde habitualmente os carrega, praticamente vazia. 















sábado, 27 de junho de 2020

aluimento









pai...
pronuncia a mulher, sentada de madrugada em frente a um copo de café fraco. com o corpo mal sentado, inclinado sobre a mesa, aproveita o silêncio da manhã
pai... preciso de ajuda...
às vezes a vida foge-lhe. às vezes alui. às vezes tudo se conjuga e o seu coração recolhe, recriminando-se pelos tropeços de estar vivo
pai... estou envelhecida e cansada...
e lembra-se da mão morna e branda do pai, na sua, naqueles momentos de tanta fragilidade
perdoa-me, pai, por te perturbar com as minhas dores humanas, por não te deixar repousar...
sempre se espantou com o fenómeno do aluimento. sobre o que acontece ao que preenchia aquele espaço onde passou a haver um oco escuro de contornos esboroados, como o que acontecia naquele momento, em que ela mesma aluía porque transbordava