sábado, 17 de outubro de 2020

dos futuros




nunca a mulher que lava futuros nas margens do rio foi tão procurada. nunca tanta gente teve que reescrever vida, teve que apagar dias por vir, teve que reinventar sonhos, teve que aprender presentes. 

a mulher, que conta as noites pelas luas e os dias pelas marés, traz no peito retalhos de amor com que remenda, conserta, amacia, os ocos deixados pelos futuros caídos. trata-se de preencher o vazio com o piso escorregadio das margens dos dias, um pé no agora, o outro no abismo.

à noite, que chega cada vez mais perto do ocaso e com uma mão a segurar uma ponta da alvorada, a mulher encaracola-se, como um bicho de conta, e recolhe-se, dentro do seu peito.






sexta-feira, 16 de outubro de 2020

malucos





quando o vejo a aproximar-se, coloco a barreira na cara. o homem, senta-se na mesa ao lado da minha, aproxima de mim a sua cadeira, tira a máscara, e fala, fala, fala, fala. enquanto o monologareiro não se cala, a mulher ao meu lado borrifa-me com álcool, como se fosse água benta durante a homilia. eu deixo-me estar nesse fogo cruzado, sem saber qual dos três está mais maluco.  





terça-feira, 13 de outubro de 2020

corpos




a mulher mas velha, incompatibilizada com os apelos do corpo entrelaçados com o desejo, ao ver o casal baralhando pernas, braços e bocas, abre a janela do carro e grita

comei-vos um ao outro! e depois cuspi os ossos! não têm casa para onde ir?

eu, rio-me, lembrando-me da queixa da outra, lida na esquadra da polícia

'estavam embrulhados no jardim, a lambuzarem-se um ao outro...'

e mais silenciosamente, recordo também a urgência de estar mais perto, quando perto, de querer, com o coração, abraçar o outro coração, de o olhar não bastar para mergulhar, um no outro.







sábado, 10 de outubro de 2020

Cansado

 




O corpo está cansado. Queixa-se nos ombros, nas omoplatas, nas costas, nas ancas, nas pernas, nos pés, na pele. 

Enquanto isso, nós, as mãos, cortamos finos pedaços de queijo de cabra com que cobrimos marinheiras, e, levamos-lhe à boca. 

O corpo mastiga vagarosamente e engole, junta-lhe golos de cerveja morna, essa estranha preferência que lhe ficou dos dias parados. A alma, ou algo que lhe concede o parco ânimo, agradece a possibilidade do sentir carnal. Abençoados sentidos, murmura, naquele silêncio de ser. 





sábado, 3 de outubro de 2020

pergunta





na verdade o oráculo sempre dera a resposta certa, sempre alertara do insucesso, sempre dissera que não. mas mesmo assim foi. foi na esperança de uma leitura errada - o que seria, por um lado uma bênção, por outro uma desventura -, de uma intuição atraiçoada. 

hoje, sabe que a resposta estava correcta. tantos dias passaram, tantos caminhos trilhados, e, se por um lado foram tantas as palavras trocadas, por outro, foram tantos os dedos que se entrelaçaram e amor sentido, sentido mesmo, e vivido. no entanto, o não ecoa por todo o lado qual gargalhada de um louco, apenas porque sim, ou porque não, neste caso.

hoje, sabe que a pergunta sempre esteve errada. 

devo seguir por aqui? isto é importante para o meu crescimento pessoal? o que é que tenho a aprender neste caminho?

tudo o resto é um insulto - sussurra o oráculo





quinta-feira, 1 de outubro de 2020

estranhos tempos

 





estranhos tempos estes em que o rapaz sai para as aulas, com uma garrafa de lambrusco na mochila, um cabo de 10 metros, para casa da namorada.

estranhos tempos estes em que não acho nada estranho.






terça-feira, 29 de setembro de 2020

salto

 





é um salto de um precipício

diz a mulher

ninguém pense que dá este passo porque é moda, porque vai ali por curiosidade e depois vê-se. não. quando resolvem iniciar este caminho pela espiritualidade, não têm regresso, têm que continuar. e ficam avisados, serão postos à prova. a cada passo que derem, a cada conclusão que cheguem, terão que a viver na pele, terão que a comprovar. e agora preparem-se, porque o vosso corpo vai começar a ajustar-se a uma energia nova

pensam que é luz e rosas? não. é porcaria a soltar-se de vós, com sorte, de todas as formas










sexta-feira, 25 de setembro de 2020

todo o mundo





dona rosa faz-se anunciar pelo som que faz o batimento dos chinelos nos seus calcanhares, seguido do arrastado lamento ao deslizar na tijoleira. é de gente de bem aquele caminhar pesaroso, de gente de responsabilidade, de família para cuidar. 

cabe no bolso do avental onde mergulha as duas mãos quando assoma à porta, a sabedoria de uma vida. não há quem a engane. tira-os a todos pela pinta. e assim vai etiquetando a vizinhança - a galdéria do 1º esquerdo, o psicopata da porta da frente, a submissa do rés-do-chão, a enchifrada do 4º andar, a 'esfomeada' do 3º direito.

pouca diferença faz lá dos intelectuais dos jornais e das televisões. dona rosa e o seu mundo, a sua casa, o seu governo, a sua maledicência, o seu bolso azul. 

conhecer a dona rosa, é conhecer todo o mundo.




quarta-feira, 23 de setembro de 2020

famílias









há famílias biológicas e famílias de alma, e, há famílias que são de alma e biológicas. creio, aqui para mim que as primeiras sobretudo fazem-nos crescer, são escolas com todos os níveis de ensino, as segundas amaciam-nos o caminho, são presenças que mesmo estando ausentes, trazêmo-las por perto, que em horas difíceis surgem na nossa mente, que nos dão a mão mesmo que não o saibam, e, estando presente, ajudam na nossa identificação.

a CC é assim, para mim, da alma. e ontem foi o seu aniversário, assim como o meu. já lho escrevi, mas deixo aqui o que desejo, para ela e para mim.

que estes tempos estranhos não estejam a deixar maselas por aí, que saúde seja muita e que a criatividade não falte, que os amigos estejam por perto e que amor permaneça por dentro, que a família seja calor e maciez nos caminhos, que mesmo que não os vendo, sinta os anjos nas suas diversas formas de se manifestarem, que a passagem do tempo a liberte do dispensável e que no caminhar da vida siga sempre mais livre, e que essa liberdade não seja solidão mas completude, que um companheiro seja companhia e cumplicidade, que o corpo encontre todas as formas de manifestar em todas idades.









sexta-feira, 18 de setembro de 2020

folgada

 




aqui ao lado:
não trazes nada por baixo desse vestido?
interroga a mulher, percorrendo com o olhar os retalhos floridos que cobrem, folgados, o corpo da outra, folgada, também, deve pensar a que pergunta
não. não me dou com os apertos, com os elásticos. foi coisa que me ficou da quarentena.
coitada da avó delfina. se ela lá de onde está ouvia...