sábado, 12 de janeiro de 2019

vela








uma vela acende-se sempre com uma intenção
disse-me ele, um dia
acende-a com um fósforo e não a apagues com o sopro
recordo de cada vez que, como agora, pego numa vela para acender
...
que eu saiba sempre ver os milagres, e que acredite neles, mesmo que não os veja
murmuro
...





sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

aqui










Está silêncio, aqui.
Escrevo-te
Está silêncio, aqui
Não tenho memória de quanto tempo passou desde que deixou de estar silêncio, aqui
Tu sabes, os miúdos (estes homens que serão sempre miúdos) sempre por aqui, ora um, ora outro, ora todos, ora as namoradas, também, e eu sem o meu silêncio, como de pão para a boca. Lembras-te quando te dizia
Preciso de silêncio como de pão para a boca…
E o que se passa é que tudo o que preciso, acaba por me faltar, tu sabes, naquelas ironias lá do criador, como quem diz
Ai precisas? Então dá cá
E eu sem o meu silêncio, assim como eu sem ti, que eu nunca precisei de ti como de pão para a boca, por isso ele lá de cima não precisava de te me tirar. Mas eu também não preciso de pão para a boca, isso é verdade, mas do silêncio, agora que o tenho, é que sinto a falta que me faz. 

Disse-me o homem-terra (e há que tempos que não te falava do homem-terra)
Tu não tens um tambor. Tu és o tambor
E deves imaginar, estas palavras ficaram a ecoar-me na cabeça, nas mãos, no corpo todo, e eu aqui, neste todo silêncio que está cá, a perceber o todo em mim, o eu no todo, tu em mim, o silêncio que me falta, e o tambor que me faz viajar por dentro, dentro do meu peito, pele feita da minha pele.
Está silêncio, aqui. Apenas tu, na ponta dos meus dedos, tamborilando palavras à toa.










quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

da memória









a palma da minha mão na sua mão, a palma da sua mão na minha mão; um dedo meu, um dedo seu, um dedo meu, um dedo seu, um dedo meu, um dedo seu, um dedo meu, um dedo seu, um dedo meu, um dedo seu; os meus passos ao lado dos seus passos, os seus passos ao lado dos meus passos; o meu compasso ao compasso do compasso dele, o seu compasso ao compasso do meu compasso; o caminho todo que se escoa debaixo dos nossos passos.











segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

trilhos








tu preenches todos os espaços
murmura o jardineiro de pessoas, sem deixar transparecer na voz, os dias passados com a morte rente à pele
a mulher que lavava o futuro nas margens do rio procura, com o olhar demorado no seu rosto manso, por entre os trilhos que a vida deixou na sua face, o caminho para o coração










quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

limo







o jardineiro de pessoas faz o percurso todo que o conduz à mulher que lavava o futuro nas margens do rio. a noite está fria e a mulher tenta, com os pés mergulhados no limo gelado e escorregadio, sulcar caminhos que se desfazem com a fluidez das águas ou com o absurdo dos dias, nem sabe, naquele trabalho inglório que veio tomar o lugar da modelação de um futuro ilusório.
agora estou bem
fala o jardineiro
quando tenho a minha mão na tua, volto a encontrar paz, volto aqui, à terra. quando não estou contigo, perco-me em mundos que desconheço
a mulher, onde o olhar se confunde com as águas do rio, não se sabe se de lágrimas, se de marés, conta-lhe da alegria do solo por receber o frio do inverno, do recolhimento e do pousio
tu és um elemento do universo como nunca pensei ser possível
murmura o jardineiro
é por isso que tudo vem ao teu encontro
...
é por isso que me diluo
murmura a mulher














terça-feira, 1 de janeiro de 2019

*

























naquele último dia do ano a mulher que lavava o futuro nas margens do rio, entrou no mar, bebeu da sua água, e lavou o rosto e o cabelo com o manto líquido.  agradeceu o caminho, ao criador, e o corpo que permite que o faça. agradeceu o vento e o sol, e agradeceu a pele. agradeceu o alimento e o abrigo e agradeceu a sobrevivência. 










sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

desejos








perante o meu
bom dia!
enérgico, pergunta-me o homem, semi-carrancudo
bom dia, porquê? onde vê um bom dia com este temporal todo?
levando com aquele mau
bom dia
como um sopapo no estômago, ainda respondi
ora...não me dói nada!
e fiquei só para mim com o que eu gosto da chuva e do vento e como é bom poder atravessar uma rua com passos seguros e o alívio que é não sentir dor nem vertigens nem tonturas e ter trabalho e poder fazê-lo e a perspectiva de um dia que se possa cumprir e não pensar muito mais além do hoje













quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

bife à portuguesa






na frigideira de confeccionar os bifes, onde esmaguei um dente de alho e coloquei uma folha de louro, com azeite, um pouco de manteiga e molho inglês, verto lentamente o moet chandon e deixo evaporar o álcool numa forma irónica de conseguir um molho à portuguesa, enquanto imagino todos os brindes a que ele estava destinado, quando me trouxe a garrafa dignamente embrulhada. 







terça-feira, 18 de dezembro de 2018

*








Foi então que percebeu que o amor e a alegria caminhavam lado a lado, e naquela tristeza profunda que sentia, a distância dele aumentava, por dentro. Não poderia aceitar ter menos do que o que já tivera - o riso solto, o abraço sem fim dos seus corpos enlaçados como se toda a vida tivessem caminhado para aquele reencontro, a pele que se prolongava nos dedos do outro, na respiração do outro, a luz no seu rosto quando fazia amor com ela, o tempo, o 'esperarei por ti' . Nunca poderia ter menos do que tudo aquilo que arriscou, toda a fragilidade que expôs. E agora exposta, a tristeza entra pela abertura no seu peito, pelo lago dos seus olhos.
E a tristeza definha, sempre o soube.









domingo, 16 de dezembro de 2018

soltas








trago da garagem os sacos rotos do costume, apenas com mais um ano de pó, tingindo as minhas mãos de castanho áspero enquanto retiro as partes da árvore de natal, com os enfeites pendurados há 13 anos. são três encaixes e está feita.
em 10 minutos tenho a casa decorada para a época natalícia. árvore, presépio, velas e o pai natal sentado no sítio habitual.
depois, sento-me, e fico a olhar as luzes a piscar.