segunda-feira, 17 de junho de 2019

pouco mais do que um quarto de lua


















ele reduziu-me a pouco mais do que um quarto de lua. a distância e a bebedeira fez com que se esquecesse que eu trago em mim todas as fases do astro. a plenitude da lua cheia, o desapego do quarto minguante, a hora dos feitiços da lua nova e a promessa de prosperidade do quarto crescente. as estrelas servem apenas para o entreter na insónia das noites, quando esquece a magia e se rende em lágrimas e ranho às ramelosas que lhe povoam os dias, com os rostos cobertos de tintas e os pés equilibrados em sapatos com tacões de agulha, tão longe do solo pulsante da terra. tomara que caiam.
que assim seja. eu trago em mim todos os elementos. trago comigo todos os orixás. atravesso todos os planos, visíveis e invisíveis. ele é carne.
eu nunca ando só.











sexta-feira, 14 de junho de 2019

a mulher






eu olho para a mulher que ergue o sobrolho enquanto procura no computador o que eu suponho que sejam detalhes da minha vida
- eu percebo que não entenda
vou-lhe dizendo
- eu mesma, quando faço as contas, não percebo como é possível. digo muitas vezes que a minha vida é feita de milagres
ela, que vive com os números nas mãos e a lógica no pensamento, desiste de analisar o que o ecrã lhe mostra, e olha para mim
- eu acredito que as mulheres sejam capazes de fazer milagres
diz-me, com semblante sério
- mas era preciso, sabe, colocar aqui valores que pudessem ser aceitáveis
então, eu tento sorrir enquanto a voz se me comove, e começo a debitar parcelas

a vida é assim, se lhe dermos oportunidade. muitas vezes o caos vem de braço dado com um anjo, um milagre, uma mensagem, um caminho, se o soubermos ver
a mulher ainda não sabe, mas há-de saber, que um anjo vestiu-se dela








quinta-feira, 13 de junho de 2019

manhã








enquanto passo o creme no rosto, naquele ritual único da manhã, reparo que tenho trazido vestida por dentro do corpo uma energia que não é minha, e que me esgota.
esta energia não é minha
murmuro enquanto percorro com os dedos os caminhos das curvas na face e resgato aquela que sou, a que se reconstrói todos os dias, carne, terra, fogo, ar e vento, a mulher mãe que gera e nutre












terça-feira, 11 de junho de 2019

o vento























a mulher com quem me cruzo caminha a favor do vento. eu rio-me para ela. caminho contra o vento norte, a muito custo. hoje o vento está matreiro, empurra, desequilibra, faz dos cabelos um reboliço. a mulher, de cabeça coberta pelo capuz, também ri para mim.
a minha vida é assim, a caminhar contra o vento. e agora que eu penso nisso, percebo que me fortalece e enche-me os pulmões de ar, do bom.
ele lá em cima não dorme
acabaram de me dizer ao telefone
e eu sinto o dedo dele, empurrando-me contra o vento, muito subtilmente, ajudando-me na caminhada, que parece impossível.













dos dias










o vento sopra de norte, como todos os dias.

os pardalinhos já saíram dos ninhos e a minha varanda tornou-se no jardim infantil da passarada.

a gaivota do sr. antónio pescador, saltita em cima dos carros estacionados em frente à peixaria, toda indignada com a ausência do seu amigo e rejeitando a comida que lhe vão deitando.

confirmo que Chalchiutlicue tresmalhou-se e deixou de rodar as águas. a maré está sempre cheia de manhã, negando-me a frescura do areal recém molhado.

as brechas tanto servem para entrar a luz, como para entrar o peçonhento.
















segunda-feira, 10 de junho de 2019

enterro







então a mulher explica que tencionava 'enterrar' o criaturo, e, por enterrar, ela queria dizer enterrar a fotografia na mata, da forma que a tal entidade lhe tinha dito.
- e ele esquecerá de ti para sempre
mas, naquela manhã do dia que tinha destinado para o tal enterro, mudou de ideias
- afinal não vou
quando lhe lembraram que tinha pedido para ser lembrada de o fazer
- mudei de ideias
- e porquê, se andas há tanto tempo a falar nisso?
- mudei de ideias
repetia
- mas eu queria perceber
insistia
- foi esta noite
contou
- já sei que não vai entender, mas já que quer saber
introduziu
- esse 'enterro', é um trabalho de manipulação de energia, para que a vontade dele de me perseguir, desaparecesse
explica
- então esta noite lembrei-me que poderia estar a interferir no processo dele, nalgum dos seus propósitos para esta vida
- não entendo
diz a outra
- eu sabia... mas já que quer saber, é assim, ele até pode ter sido muito pior para mim numa vida anterior. sei lá, até pode ter-me assassinado, e todo o mal que me faz agora, embora sendo mal, pode ser menos mal do que o que poderá ter-me feito noutra, o que é uma evolução no seu processo, e se eu o enterro, e se eu manipulo para que ele me esqueça, estarei a impedir que ele evolua, e eu também, claro. e isto veio-me à cabeça, assim de repente, esta noite. e como sabe que eu acredito que nada acontece por acaso, olhe, mudei de ideias
a outra mulher não interrompe e não reage, mergulha ainda mais a cabeça entre os ombros, e parece-me que ouço os seus pensamentos a ruminarem incompreensões







sábado, 8 de junho de 2019

o quadro







o meu problema, é que não sinto o que tenho que pintar
explica o rapaz desabafando
a figura humana foi fácil, porque faz-me sentido a mulher que pintei. agora o resto... aquela mesa, o chão... eu não consigo sentir...e não sentindo, não consigo pintar. não consigo...
eu sinto cada pedra no caminho de que o rapaz me fala, como se os pés que as pisam fossem os meus, descalços. também a pele que me reveste, emprestou pele à pele que reveste o rapaz, e o que ele não sente, não me faz sentido a mim. mas são as normas, a formatação, a cadeia de montagem, o sentido obrigatório.
dentro da matéria que tens que pintar, representa aquilo que sentes
sugiro-lhe
distorce, simboliza o oposto, a contradição, dá-lhe alma, fogo
o rapaz entende a nossa linguagem que vai muito além das palavras, muito além do audível, e a obra cresce







quinta-feira, 6 de junho de 2019

pipocas





- oh...amor, não tem pipocas!....
- a sério, mãe? não tem pipocas?
- acho que não...
- oh...
suspira a rapariga
- e o que se faz no cinema sem pipocas?
pergunta-me
- vê-se o filme...
- oh... sem pipocas?
- sim... eu nunca compro pipocas quando vou ao cinema. enerva-me o som do trrriccc crrrraccc qrriiicccc
- oh.... mas é mesmo isso que eu gosto! 
- vai ao lidl, pode ser que esteja aberto e comprem lá as pipocas
- não estás a perceber, mãe. nós vamos ao arrábida só por causa das pipocas. são as melhores.
- também vou ao arrábida, e, às vezes o joão pergunta-me se quero pipocas e eu nunca deixo comprar pipocas.
- não deixa? como é possível?.... coitado...







quarta-feira, 5 de junho de 2019

a surda







ao que parece, é maria, a empregada doméstica, que sustem os alicerces daquela família, conservadora, estruturada, de classe social elevada, com todos os membros bem colocados na vida, bem formados e com carreiras profissionais irrepreensíveis.

maria, pobre mulher sem instrução, é surda. a deficiência tem permitido que não ouça os impropérios da patroa, conservando-se há mais de trinta anos na casa. para lá foi adolescente, e por lá cresceu-lhe o corpo, porque instrução não recebeu nenhuma. quem não tem saber para si, não tem saber para ensinar. e a patroa não tem. nunca precisou, nunca se esforçou, nunca trabalhou. são insuficiências de luxo numa vida cheia de vazio.

é pois maria que segura o laço frouxo que mantém aquela, digamos que, família. ampara a loucura da patroa, o desânimo do dono da casa, o cada vez maior afastamento dos filhos, a arrogância e prepotência da nora.

se fosse possível maria recuperar a audição, a família desmoronaria, a sociedade pasmaria e teria tema de conversa para muito tempo. quem conseguisse suportar o escândalo,  talvez pudesse vir até, um dia, a ser feliz.






segunda-feira, 3 de junho de 2019

conto-vos eu que assisti









a mulher que parecia feliz, tinha feito um longo caminho na aprendizagem do sentir. era notória, para quem usava os sentidos que não constam da cartilha da escola, a sua incapacidade, trazendo todas as emoções encouraçadas, as intuições enjauladas, os arrepios anestesiados e as borboletas na barriga domesticadas.
fez então a mulher aquele penoso percurso de deixar cair defesas, colocar os pés em terrenos baldios, arriscar a vertigem dos declives, ajustar-se à ondulação, e permitir-se ser corpo que sente e pele que se arrepia.
para isso, teve a mulher que dar asas ao coração. e deu. não só lhe deu asas, como deu autoridade para avaliar, para acreditar, para decidir, para escolher. e era feliz, da felicidade das crianças que confiam.

no entanto, na falta de entendimento para compreender o desnorteio daquele, que dizendo que a amava, penava com ciúmes e insegurança, resolveu ser ele por dentro e pensar com a cabeça dele. para isso, silenciou o seu coração.

quando a cabeça tomou o lugar do coração, a mulher escureceu toda ela. na verdade, havia razões lógicas para a insegurança e descrença, e o modo de pensar que agora tinha, enumerava-as e demonstrava-as sem dificuldade. e a mulher escurecia mais. e o coração calado, amordaçado, emudecido, imobilizado. 

diz que foi enquanto subia a rampa da garagem que um anjo soprou-lhe no ouvido que pusesse a cabeça no seu lugar, e que deixasse o coração voltar a pensar e a decidir e a rir só porque sim, só porque sente, só porque acredita, só porque tem fé. então o peso da mulher aligeirou, e até o mar mudou para uma cor esmeralda quando ela lhe sorriu ao contar que tinha voltado a si.

serviu-lhe a experiência, contou-lhe o anjo, para se colocar no lugar do outro, e respeitar a sua angústia. e ela, respeitou o tormento de viver ao sabor de uma cabeça que pensa e com um coração reduzido a bombear sangue. pobre criatura.