sábado, 21 de janeiro de 2017

resolvi continuar a alimentar pardais



















resolvi continuar a alimentar pardais e abrir mão do ginásio. não vou correr para a marginal, mas irei apanhar conchas na praia sempre que puder. com elas farei um colar ou uma touca com cheiro a mar e quando estiver completamente louca, cobrirei a minha cabeça com conchas e quando chover as pingas soarão a acordes musicais, e eu vou dançar ao som de uma música que só eu ouvirei.
tu continuarás na pasta das impossibilidades, onde tudo é possível, com a vantagem de não ocupares espaço e de não ter que cozinhar para ti, podendo continuar a comer no sofá, com o computador no colo e uma bota calçada e a outra descalça. farei uma placa com 1/(1-x)^2, e será o bastante para me lembrar de ti, enquanto não deixar que as memórias desapareçam num bueiro num dia de chuva qualquer.
no entanto. o meu peito continuará com um coração que de vez em quando implode para criar um espaço que eu preencho de papeis amarrotados, daqueles que vêm dentro dos sapatos novos. preenche-lo com coisas que me façam bem, é tão, mas tão mais trabalhoso e arriscado.
a minha mão direita continuará a ser tocada pela esquerda, a perna direita roçará a outra e os braços que me abraçam, serão os meus. é claro que é uma economia de pele e de creme hidratante do lidl.
entretanto s dias passarão, a vida passará, até à pergunta ' o que fizeste tu do teu tempo?' e eu não sei se 'alimentar pardais' vai ser uma resposta boa.












pardalada e ginásio





















- que quantidade de aveia deitas aos pardais, por dia?
pergunta-me a minha mãe, que adora ver os pássaros a saltitarem e a sujarem tudo o que não seja na casa dela.
- sei lá, um pacote, mais ou menos. sabe que agora com o frio precisam de mais calorias
a minha mãe diz que sou chalada, lorpa, por assim dizer, mas adora sentar-se aqui no sofá, de frente para a varanda, e ver a algazarra toda que fazem os pequeninos, mais indisciplinados.

entretanto, fico a congeminar na alimentação da pardalada, e concluo, que dava para me pagar o ginásio ou as aulas de yoga que tanto preciso e não frequento por não ter verba para tal.

ora, deixo de alimentar pardais para ir para o ginásio?










sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

ainda não contei do passarinho com peito cor de laranja





























está aqui um silêncio tão amplo que eu nem me mexo, para que os meus movimentos não rompam este tempo estático. de repente o universo criou uma clareira para eu estar em paz, por uns momentos.

(toca o telefone)
(estremeço)











quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

sede
























comento com os rapazes que a mulher pergunta-me de dois em dois dias se o sentimento de fulano por ela está a mudar para amor, e pergunto se eles acham possível que isso aconteça assim, uma vez que eles praticamente não se conhecem e só conversam pontualmente pelo facebook. irrita-me a pergunta 'se está a mudar para amor', como se estivesse a mudar a camisola para uma t-shirt.
um diz que o amor é algo muito forte e muito sério para que aconteça assim.
o outro diz-me que a probabilidade de isso acontecer é como andar no deserto desesperado de sede, virar-se para o lado e encontrar alguém como uma garrafa de água na mão.
mas fica-me a dúvida, e o peso na consciência por fazer de conta que nem vi a pergunta. 














quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

devia ter deixado as minhas mãos nas tuas e não no teclado











- preleric
(ouço o messenger e adivinho o que se passa)
- o teu texto sobre os palestinianos está muito faccioso
(acertei)
- ui...sorry....posso enviar as fontes
(finjo estar inocente)
(já antes me tinha 'enterrado' na mesma matéria, lembraram-me do lado de lá. mas eu e os pequeninos...devia limitar-me aos pardais, digo eu. ou antes, escrevo eu. ou seja, penso.)
- além do mais vai completamente contra as minhas convicções
(diz o do messenger)

(estou feita...)

o que é que me escapou aqui?...









todos os dias









todos os dias vejo o dia a nascer, enquanto trabalho. o céu vai mudando de cor, o laranja desperta o azul que não demora muito a tornar-se pálido, uniforme, monótono. por volta das seis e meia, as gaivotas parecem sombras chinesas e os pardais só aparecem quando o sol bate na varanda.

todos os dias, como tanta gente, desejo iniciativa, força, criatividade, audácia, para mudar a minha rotina, apesar da geada negra que quer tomar conta de mim. todos os dias me sobra menos tempo. 





Ver levantarse y acostarse el día es para mí, ahora, el más importante de los acontecimientos. Contados son los amaneceres que me quedan: qué podria compensar la perdida de uno de ellos?

c. maillard









terça-feira, 17 de janeiro de 2017

geada negra










primeiro tornou-se-me insuportável a televisão, depois pus os livros de lado, também me irrita a música e não tenho vontade de me encontrar com pessoas. começo a ficar contrariada com antecedência, quando a senhora da limpeza vem trabalhar, e qualquer tentativa de agendamento desnorteia-me. 

é do frio.

de vez em quando, pego no telemóvel e percorro todas as imagens que fotografei do mar, e aí sim, tenho vontade, talvez a única, de respirar aquele ar frio de inverno, de passear na areia e sentir as cascas dos mexilhões partirem-se debaixo dos meus pés.














segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

ver-te rir























fixo nos meus olhos o mar de azul perfeito. o frio faz-me sono, então cubro-me de sol e enterro os meus pés na areia. procuro conchas e só encontro lapas e mexilhões, com sorte algum ouriço do mar atirado ao areal. encho os bolsos com tudo o que encontro e faço colares com que me enfeito. com os dedos dos pés ainda cheios de areia, as roupas largas no corpo solto, o pescoço coberto de conchas, o vento colado ao cabelo, os meus olhos verterão o mar, até que tu me tomes nos braços e me ensines o repouso e o abrigo, no teu riso.



porque são para ti todos os azuis.













madrugada

























sentada na cama, nua, embrulhada numa manta, olho para o tecto do quarto e peço, 'senhor, vai começar um novo dia, por favor ajuda a que eu faça com que o dia de alguém seja melhor, que eu faça o meu dia, melhor, também".


mas na parede do quarto estava reflectida essa imagem, aí...













domingo, 15 de janeiro de 2017

viagem






















as estradas saiam do peito, e, os longos, desertos e sinuosos caminhos, era ao peito que regressavam. tanto a estrada feita de terra, como a feita de noite. partiam e regressavam, a luz e a escuridão, ao mesmo lugar. daí, que o local a ser cuidado seria aquele, de onde tudo parte e aonde tudo chega. ela.


(a lua, neste momento, aqui, no cimo da capela)












motor























foi depois da sensação de que o peito lhe implodia, enquanto tomava o pequeno almoço, que pensa ter engolido um motor desafinado que ficou a burburinhar dentro dela. deve tê-lo ingerido nalguma colherada. 
todo o santo dia, e já é noite preta, aquilo se espalhou pelas entranhas, fazendo com que o corpo vibrasse, todo, todinho, provocando que alguns órgãos desalinhassem, e mesmo na pele, lhe cresce um formigueiro, como se a percorresse uma escova de arame fininho.