segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

pontuação









nesta nossa forma de comunicarmos, concluo, de repente, que o que mais me enerva é a pontuação. não as palavras cuidadosamente escolhidas, ou deixadas correr sem reflexão. não os temas nem o desenrolar disparatado do fio de um desejo de bom dia. não a ausência de voz, nem o limite da distância. não a impossibilidade de te enquadrar no que te rodeia, mas a pontuação. ter que utilizar um ponto de interrogação em vez de um arquear de sobrancelhas, o ponto de exclamação em vez do brilho no olhar, as reticências em vez de um suster de respiração, de uma ânsia de continuidade, as virgulas em vez de um toque na tua mão, o ponto final em vez de me virares as costas. e para este frio que nasce por dentro, ainda não encontrei pontuação que sirva.













2:28



















domingo, 19 de fevereiro de 2017

dança







descalça, rodopia. não sabe dançar, mas quando ouve os tambores e o ritmo daquela música, empresta as ancas, as coxas, os pés, os braços, o peito, entrega o corpo todo e bamboleia enquanto recita e canta, até à exaustão 'ando de cara pra o vento na chuva, e quero me molhar, o terço de Fátima e o cordão de Gandhi cruzam o meu peito. Sou como a haste fina, que qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta.' e nesses momentos esquece dele, tem os quatro elementos a correr nas veias, ar, água, fogo e terra.









enquanto dormes









chego a casa e tiro do bolso a carapaça ainda húmida de um ouriço do mar. com as mãos em concha inspiro fundo a maresia daquela manhã fria.
chego a casa de mão dada com o mar.










sábado, 18 de fevereiro de 2017

por dentro








a mulher entrou nos olhos dele sem que ele o soubesse. tão profunda e intensamente que ele sentiria onde quer que estivesse. e ficou ali. já que tinha tido a coragem de entrar, deixar-se-ia ficar, aninhada, apavorada com a possibilidade de tocar-lhe as vontades. 
ele partiria de qualquer forma pois tecera o amor para aconchegar outra mulher, delicada e calorosamente. 
pior do que não tê-lo, seria vê-lo partir. então eternizava palavras com que cobria o corpo e viajava sozinha por mundos só dela.
de manhã, a vida tornava a cair sobre os seus ombros. seria domingo. ela caminharia à beira-mar numa conversa muda com iemanjá para que a livrasse daquele querer. os pés pisariam as conchas partidas do areal para lhe lembrar que ela existe para além dele.












sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Zombielândia

















Acho que acordei, embora não tenha a certeza de viver neste plano. Reparo que a escuridão se deve a não ter aberto os olhos, deixei o descolador de pálpebras esquecido naquele sonho em que aportava no teu abraço. Quando vejo a minha imagem nua reflectida no espelho percebo que estou na zombielândia, e não me admiro, embora a noite trate melhor do meu cabelo do que o dia. Também a nudez me fica melhor ao amanhecer do que ao final do dia, com as carnes, além de envelhecidas, cansadas. Esfrego a pomada que me esqueci na véspera, nas nódoas negras que as varizes me tinham previamente anunciado. Simpático da parte delas avisarem que vão mapear as minhas pernas, num complot silencioso com as tuas sardas para, quando sobrepostas, formarem mapas de constelações. De boas intenções anda o mundo cheio, é o que é. Nada simpático é o meu sistema nervoso simpático, que não atina a fazer o que o medicamento lhe manda, e ser bonzinho com a minha bomba de sangue. No espelho de aumento verifico que o serum do lidl não me tirou as rugas que tinha ontem, conforme prometido, e visto a roupa da véspera e da ante-véspera e da ante-ante-véspera (alguém me ponha outra roupa na casa de banho se não não mudo). Quando pego nas meias elásticas para calçá-las, lembro da Sónia do talho, com elas na mão, o olhar a percorrê-las de cima abaixo, de seguida a examinar o seu corpo pequeno mas largo e a exclamar 'puta que pariu!, perante a dificuldade em se meter dentro delas. Já na rua, reparo que levo um bocado de gema de ovo na unha. Se pintasse as unhas nada disto se via e estava tudo bem. Percebo que a ninguém interessa o que fazem as milícias no kuwait, iémen, somália, etiópia e que é difícil ter uma conversa normal com alguém. É sexta-feira e apetece-me enlouquecer.










“The area dividing the brain and the soul 
Is affected in many ways by experience --
Some lose all mind and become soul:
insane.
Some lose all soul and become mind:
intellectual.
Some lose both and become:
accepted.”





quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

make love not walls































simplesmente bloggers



















hoje a CC, foi, ou ainda está a ser operada. leio-a já há alguns anos e lembro-me de, no inicio, pensar que me sinto em casa, no blogue dela. assim como se lhe conhecesse as divisões e os hábitos. acompanhei-lhe saudades, amores, partilhas, filhas a saírem de casa, amizades, trabalho, escola, férias, receios, a doença. 
é só uma blogger, no fundo. e esta coisa dos blogues tem isto com que eu não contava quando resolvi transbordar o que me ia cá dentro, de forma anónima, para uma página virtual, criar laços, amizade, preocupação por quem não conheço. dou comigo a perguntar-me o porquê da ausência deste ou daquele, a preocupar-me com um texto mais triste, ou a rir-me das fragilidades e inquietações de outro. chego até a incluir um ou outro nas minhas conversas com deus, a tentar protegê-los das formas que sei e acredito. no fundo pessoas que não conheço, que não vejo, mas pensando bem, talvez sejam mais as coisas invisíveis em que acredito, do que as visíveis.
a CC não imagina por onde tem andado nas minhas mãos, ou antes, no meu coração, e digo isto a sorrir, e ela me perdoará. 
enfim, pessoas que eu não conheço. simplesmente bloggers. 










terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

we will always have
























we will always have 400 kms, brinco, para que tu sintas que brinco e sorrias. 

pareço tonta a sorrir para o computador, mas eu sei que ele sente quando sorrio, ou quando estou triste, ou quando estou triste e finjo que sorrio, sejam lá quais forem as palavras que escrevo. assim como eu o sinto. 
agora, aqui no meu silêncio, reparo que sempre foram mais as proximidades que me incomodaram, do que as distâncias.