quarta-feira, 29 de março de 2017

cabelo







vejo a imagem dela reflectida no espelho enquanto olha para mim por cima dos óculos. tem a tesoura na mão e pergunta - corto? - claro que sim, digo-lhe, sorrindo, para que não receie. a minha vontade é cortá-lo todo.
dizem que quando uma mulher corta o cabelo é porque quer mudar na vida. 
enquanto a tesoura vai libertando pedaços do meu cabelo e a dona julia se aproxima e afasta, olha-me através do espelho ou então roda-me de frente para ela, penso que já não me reconhecerás, e isso dá-me gozo. quero lá saber do cabelo ou da cor com que ela tenta disfarçar alguns fios brancos.
comecei a perder-te muito antes de começar a perder-te. tu nunca saberás como o tempo, o espaço e as normas convivem dentro de mim. olha, desfaço-me desses conceitos da mesma forma com que deixo que o meu cabelo caia, madeixa a madeixa no chão do cabeleireiro. levanto-me, sacudo e piso pedacinhosdemim. 






terça-feira, 28 de março de 2017

o meu corpo quase nu







o meu corpo quase nu está coberto por um vestido comprido e largo que me acaricia e deixa passear pela pele o vento quase morno da manhã. está feliz, o corpo.
quando entro na peixaria, o homem desconhecido oferece-se para me declamar um poema de sua autoria. ouço e agradeço. a minha alma ficou feliz.
ao entrar no café, as funcionárias dizem que tiveram saudades minhas por não ter estado lá ontem.
no lidl, o homem que está na fila para pagar as compras, repara que no meio dos morangos que compro, está um podre. abandona o seu lugar, pega no morango podre e vai à secção da fruta para trocá-lo por um bom.
a minha mãe está bem disposta.
acho que o dia começou bem.
o título do post é para enganar.












segunda-feira, 27 de março de 2017

vou ter que arranjar uma etiqueta






















perdi-o. perdi-o dentro de mim. durante dois dias andei sem ele e o corpo nauseou, as noites foram um lugar escuro onde me perdi acordada, o mar não me coube nos olhos, as mãos ficaram cheias de um nada maior do que o nada com que as enchia antes de o perder. nunca o tive mas perdi a maneira de não o ter. mas a saudade é como um adesivo largo sobre uma ferida em carne viva numa qualquer zona pilosa do corpo, acho que já to disse. se a deixar ficar apodrece-me, se a arrancar, dói e leva pedaços de mim com ela. e foi o que aconteceu. bastaram dois dias, arranquei o que tinha dele em mim. primeiro as imagens, depois deixei de ouvir as músicas, até a endemoinhada me causava arrepios, arrumei os livros, os recortes, a pontuação, deitei fora todos os pontos e virgulas dele, as palavras, aquelas que eu sem me aperceber já dizia e que não eram minhas antes dele, pintei os azuis de prateado e entornei o perfume todo pelo lavatório.
dois dias bastaram e lentamente despi a tristeza e a saudade. aí, fiquei solta, leve e liberta. foi então que de novo o encontrei e continuei a tê-lo não o tendo.









domingo, 26 de março de 2017

recorrências









'mas quando chega aos índios norte-americanos que também têm os seus mandalas, os seus desenhos nos tambores, o corpo é uma mandala. então tu olhas e está lá tudo: os rios, o vento, o mar, as nervuras, as árvores. há tudo no nosso corpo e quanto mais nós compreendemos isso, mais vivenciamos isso, mais abrimos o canal entre o consciente e o eu básico, ou aquilo que alguns chamam de subconsciente'

andré louro de almeida


quanto mais mergulho dentro de mim, mais percebo que é na ligação à terra e aos elementos, que posso encontrar o caminho da aceitação de mim mesma e dos outros. falta-me no entanto, e essa é uma grade dificuldade para mim, conviver com o meu lado sombra, reconhecê-lo, dialogar com ele, aliar-me a ele. dizem-me os mestres que enquanto isso não acontecer, continuarei a ser recorrentemente desrespeitada pelos outros. 

'E então veio-lhe ao espírito uma recordação de Avalon, algo em que já não pensava havia uns dez anos: um dos Druidas, ao dar instruções sobre a sabedoria secreta às jovens sacerdotisas, dissera: «Se quiserem saber qual é a mensagem dos Deuses sobre o que dirige a vossa vida, reparem naquilo que se repete vezes sem conta; porque essa é a mensagem que os Deuses vos enviam, a lição cármica que têm que aprender para esta encarnação. Virá uma, e outra vez, e outra ainda, até que tenham feito dela parte da vossa alma e do vosso espírito corajoso.»
O que é que me aconteceu por mais de uma vez?....'

(Marion Zimmer Bradley - As Brumas de Avalon, O Rei Veado)










a espátula











foi ontem, ao pegar numa espátula de pintura, que encontrei uma hipótese de serenidade, assim de repente, como num momento mágico. o metal fino e brilhante que eu segurava nas mãos, segurava-me a mim também. dizia-me que pintasse, que a tristeza pode esvair-se pelos dedos em forma de cores, palavras, ou aquele objecto de barro que há muito me foi dito para modelar.

é domingo e está um dia perfeito. chove, o céu está ora plúmbeo, ora azul, o sol reflecte-se de vez em quando no vaso de cyclamens que vejo na varanda. 

a vida tem-me trazido, em catadupas, coincidências, tem feito com que linhas paralelas se cruzem, e barra-me os caminhos com espelhos que me fazem ver nos outros o percurso que sigo. é doloroso, cria-me vácuos, buracos negros por onde me parece que vou desaparecer, desintegrar-me, mas de seguida envia-me uma espátula, dá-me a mão, e lentamente vislumbro uma alma que pareço ser eu, novamente. e sou grata por tudo isso, muito grata.

quando me pergunto porque escrevo aqui neste espaço, concluo sempre que é porque me procuro e porque me transbordo, e, de cada vez que penso em deixar de o fazer, surge algo que não cabe dentro do meu peito e volto. mas a cada parágrafo penso que será o último.










sábado, 25 de março de 2017

vazio








diz-me:
a minha vida era mais bonita porque ele estava nela. em tudo. passo a passo. ele estava em todo o lado. estava ao acordar, no nascer do dia, no sol, na chuva, num prato de salada, num café 'tipo' café, num poema, numa prosa, numa música, num sufoco, na pele, na pele, na pele, numa alegria, ah, numa alegria eu corria para contar-lhe, no íntimo, no riso, no humor, no mar, em todos tons de azul e nos prateados também, no mar, todas as marés eu enviava-lhe, nos sonhos a dormir e nos sonhos acordados, na ausência, na presença sempre presente, no corpo, na minha alma.
um dia, por um simples acaso. sim, um mero acaso... 
olhe, a minha vida era mais bonita por causa dele, em vez de ser por causa de mim, e agora tenho que deixar crescer a minha pele na ferida da minha vida.
não sei se entende...
ah, não. fui eu, os acasos gritaram tão alto...
saudade? dói-me tudo. o corpo, o tempo, os espaços vazios dentro de mim. o que é do mar se não lho mostrar? vê esta fotografia que tirei hoje? aqui está. para quê?
voltar? não. o caminho agora traz-me para mim. mais uma vez para dentro de mim.









sexta-feira, 24 de março de 2017

esta é uma história verdadeira










era um casal feliz. ela cuidava dele e ele deixava que ela cuidasse dele. em nome da harmonia ele tomava todos os medicamentos homeopatas que ela lhe comprava, apesar de não acreditar no seu efeito. pelo seu lado ela cozinhava-lhe mão de vaca com grão de bico e cabeça de vitela. carinhosamente ele chamava-lhe 'bebé', assim como chamava a todas as amantes, não trocando os nomes, nem nos momentos em que o esgar de prazer fazia com que fechasse os olhos.









diálogo











- fui aumentada no trabalho.
- que bom! e subiram muito o ordenado?
- não, só o trabalho.
(verdade)









contando estrelas





















Ilmatecuhtli estica o corpo num cansaço estremecido. toda a noite passou a contar as estrelas no céu. é que os dias amanhecem escuros, pois o sol não tem como carregar o brilho enquanto dorme. andam a roubar as estrelas, mesmo aquelas que tinha bem escondidas nas pregas do largo vestido feito de velas desfraldadas dos navios perdidos. então toda a noite contou, reagrupou, posicionou, guardou a mais bonita para pôr no peito do deus das tempestadas que anda perdido por entre furacões invisíveis, e umas mais pequeninas, trouxe-as nos bolsos. servirão para a guiar nos dias em que escurece por dentro, e muitos virão, disse-lhe uma ondina, quando distraída, foi encher os olhos com a água do mar, para ele que já não estava. partiu, não suportou a leveza de Ilmatecuhtli, não percebeu que só assim ela podia tratar das estrelas sem sair da terra. mas agora sem o poder marear, dos olhos jorrava-lhe água salgada que ela colhia numa taça para nos momentos de tristeza mergulhar as estrelinhas do céu e transformá-las em estrelas do mar. 









quinta-feira, 23 de março de 2017

do dia








como que anunciando o dia, primeiro veio o frio, depois o coração descompassado, depois disse 'sou boa nisso, a desistir', de seguida o puzzle que não conseguia montar, caiu, colocando, ao embater no chão, as peças todas no seu devido lugar. e desistiu sem ninguém perceber. colocou a travessa de lentilhas na mesa, o arroz carolino, como eles gostam, as empadas, e sorriu ao reparar que eles preferiam as lentilhas, pródigas, como as baptizara. a vida continuaria igual, com sorte, mais leve. despe-se, demora-se no corpo que pede todas as formas de repouso, lê as folhas que tem coladas na parede da casa de banho - os cinco principios de reiki, a oração indiana, e os quatro compromissos - e debaixo da água do duche agradece tudo o que o dia lhe trouxe, e tudo aquilo que lhe tirou. é tão mais fácil e rápido destruir do que construir, que aprendeu a lentidão de estar, o ritmo de ser. no fundo há muito ansiava por aquele momento, todos os passos conduziam para a leveza, a liberdade, a solitudine.










je n'en veux pas













(diz o rapaz que esta música tem muito barulho, e tem, mas também tem muitas palavras)












arrefecimento








porque não me avisaste do frio, deste bater descompassado do coração?