segunda-feira, 11 de maio de 2020
o meu primeiro café em dois meses não é apenas um café
foi o meu primeiro café em dois meses. daqueles cafés que se tomam fora de casa, e, que só por isso, já têm outro efeito, e, também talvez por isso, outro sabor.
mas foi hoje, tomando esse café em copo de papel reciclado, dentro do carro, que eu percebi que o café faz com que o espaço que separa o nosso lado lógico, da nossa alma, se dilate. e é nesse espaço todo que cabe também a nossa imaginação. então, parece-me que um café tomado fora de casa, nem que seja dentro do meu carro, em copo de papel reciclado, e até fazendo com que a língua fique escaldada, faz com que a criatividade aumente, porque essa manifestação de deus menino precisa de espaço.
isto dito assim pode parecer muito redutor, mas eu senti mesmo a imensidão de toda essa amplitude, deixando de lado toda a lógica e distanciando-se do estado puro e divino da minha alma, para que aí, tudo possa ser possível, toda a imaginação, toda a criatividade, toda a infância.
sábado, 12 de novembro de 2016
eu também vou ao café
mas hoje, e o tempo já vai para inverno, a manuela, naquela pressa toda dela que bem disfarça os diabetes que a limitam, resolve deixar a porta bem aberta nas minhas costas, fazendo o frio entrar pela roupa que ainda tem os descuidos do verão.
- cruzes, manuela, queres matar-me de frio?
- carago, as mulheres não têm sangue nas veias. não está frio nenhum! ainda só tive calor.
e lá vai ela, por entre as mesas, t-shirt e leggings ou jeggings, que nunca sei qual é qual, a praguejar pelo frio que sinto, naquela forma de falar que enche a boca de sílabas sonoras e depois solta-as de rompante com gargalhadas e impropérios à mistura.
- ninguém nos trata tão bem como tu, ninguém, em lado nenhum.
digo-lhe eu todos os dias.
- está bem, está bem, até amanhã.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021
Pide (corona - temporada 2 - dia 28 - caramba, 28 dias...)
até parece o tempo da Pide...
diz-me, entregando-me uma caixa por cima do balcão, a mulher que não tem idade para saber como era no tempo da Pide. mas eu tenho, embora na altura não tivesse consciência da razão para as pessoas falarem em segredo das ideias que defendiam e se reunissem para ouvir a BBC.
com a caixa no colo, conduzo até um lugar escolhido pela mulher que me acompanha, depois de cruzarmos com vários carros da polícia.
dentro da caixa estavam duas bolas de berlim e dois copos, que, quando destapados exalaram o aroma de um café quente e espesso, desejado há tantos dias.
foi o segundo melhor café da minha vida e fez-me suspeitar, algum tempo depois, que estivesse a acontecer um pequeno sismo. e estava, mas dentro de mim, pois nada mais tremia a não ser eu, que estou proibida de tomar café, agora por todos lados.
sábado, 3 de março de 2018
voluntariado
do outro lado do telefone dizem-me
vais fazer voluntariado
ora, a mim parece-me, inicialmente, um voluntariado forçado
vais enviar os disparates que publicas todos os dias no facebook para as pessoas que eu te disser
voluntariam-me
eu, fico assim sem saber se aquilo abona, ou não, a meu favor. é pelo disparate que vou chegar a pessoas de idade avançada, fazê-las rir, dar-lhes motivo para fazerem rir os amigos e as amigas, pelo telefone, ou à mesa do café. será um tele-voluntariado imposto, presumo.
faz-me lembrar aquele homem, que se dirigiu a mim no café, estava eu a pensar em como te dizer que o céu estava a querer ficar azul, e então vem aquele e diz-me
eu conheço-a do facebook
e eu
ups...deve ter um óptima ideia de mim...
domingo, 30 de julho de 2017
#pareçoasvelhotasesecalharsou
lembro-me de, em tempos longínquos, um condutor ter batido na parte traseira do meu carro, e eu, assustada, mostrar-me pronta para assumir a culpa. só mais tarde percebi que a responsabilidade era do outro condutor. acho que foi a primeira vez em que disse para mim mesma
- que burra! partes sempre do principio que a culpa é tua.
mas não foi por ter consciência disso que mudei o que além desse adjectivo asneo, acrescento também casmurra.
hoje ele enviou-me uma mensagem às nove horas
- olá, bom dia
- bom dia. beijo
(eu a tentar despachar)
- que fazes?
- encomendas
- na rua?
- não, em casa
- estou à tua porta
telefonei-lhe e realmente estava à minha porta. tinha vindo de longe. eu, trabalhava, desgrenhada como sempre, ramelosa, preguiçosa, com a casa saída de um ataque terrorista, como de costume, e com trabalho que tinha aceitado porque preciso.
o homem apareceu de surpresa e eu enfureci daquela fúria silenciosa que mina por dentro. troquei tudo o que estava a fazer, confundi alheira com vitela, frango com cogumelos, ofereci-lhe um café sem açúcar, e fui seca. mais seca do que o costume. fico como um animal enjaulado quando sinto que sou invadida. só falta espumar pelos olhos.
mas quando ele saiu, senti-me culpada. irreflectidamente culpada. por ele ter vindo em vão, por ter rejeitado o que me trazia, por ter-lhe dado um café sem açúcar, por ter feito sentir que não era desejado.
- culpada porque o mundo é redondo.
dizia uma mulher falando de outra, reconhecendo mais tarde que falava de si mesma também.
sim, culpada porque o mundo é redondo. gerações e gerações atribuindo a culpa às mulheres. pela sensualidade, pela maternidade, pela educação dos filhos, pela harmonia familiar, pelo asseio do lar, pelo não sustento da casa, se trabalhando, pelo abandono da família. talvez coubesse aqui o hashtag da susana #parecesasvelhotas.
dizia a outra mulher, também naquela roda onde só se sentam mulheres, aquela mulher que eu gosto tanto de ouvir, pois quando fala traz o coração sangrando nas mãos e o brilho da lua no olhar, pois dizia ela
- o respeito pelo meu corpo, acho que tudo vem daí, do respeito pelo meu corpo. culpo-me por não o respeitar.
então eu ouvia-a e concordava com ela, pensando
- o respeito por mim, ou antes, a falta de respeito por mim. culpo-me por não me respeitar, o corpo, a alma. lembro-me de oferecer o meu corpo sem desejar, de abrir mão da minha alma sem a respeitar.
não era isto que eu queria escrever, mas saiu-me. eu ia mesmo escrever é que realmente uso muitas ou muitos, não sei se são meninas ou meninos, hashtags. acho imensa piada clicar ali e ver o que aparece. então são: #vegan, #shiitake, #superalimentinhas, #corposfelizes, #vegetariano, e mais algumas.
quinta-feira, 6 de julho de 2017
o homem
quinta-feira, 7 de dezembro de 2017
devias arranjar alguém
- agora sim, posso dizer que tenho alguém que gosta de mim...
ela fala do namorado que trabalha em itália e vem passar dezembro com ela
- estou ansiosa por aquele abraço...
e enquanto fala, abraça o peito com os seus próprios braços, e trinca o guardanapo de papel, fechando os olhos
naquele momento, ela é ela e é ele, o amor dos dois num só corpo. eu diria que o amor, todo ele
- é que faz falta, sabes? faz falta alguém que nos abrace, que nos dê aquele carinho, aquele apoio... devias arranjar alguém, ana, sabes? devias...faz falta...
e ela fala assim como se fosse fácil, sentir os dois num só, quebrar a distância, como os dois fazem. ela, trabalha no café e nas horas livres trabalha aos dias numa doutora, ele, instala aparelhos de ar condicionado por essa europa fora.
sábado, 10 de abril de 2021
do dia
sempre me fez mais saudades o futuro do que o passado. não sou mulher de lamentar a juventude ida, a infância passada, as crianças crianças. sempre tive mais pena dos sonhos perdidos, das desaparecidas vontades de palminhar caminhos. fui mais abundante a perder sonhos do que a agarrar-me a amores.
mas agora, não. apraz-me o presente, o café que saboreio, a caminhada que consigo fazer, o sol na minha pele, o feijão a romper a terra, a alegria da minha mãe e a satisfação dos meus filhos. a minha gratidão às vezes é tanta, que escapando-me das mãos, faz efervescer a minha alma. como hoje, naquela mesa de café, em que não consegui evitar um sorriso e os olhos cerrados em prece de agradecimento para aqueles que só eu via e que com amor me olhavam.
terça-feira, 20 de março de 2018
acessórios
diz a mais nova à mulher madura que conta das fantasias que realiza com o amante
- ah...mas eu queria daquelas algemas de ferro, para ele me prender à cama, mas custavam 30 euros! não comprei, mas comprei uma venda e fui esquecer-me dela em casa...só me lembrei já estava eu no avião...mas isso foi fácil de remediar.
conta, com o peito pousado na máquina registadora
- ora! já não tem idade para essas coisas! valha-me Deus...
criticava a jovem Rita de vinte e poucos anos, olhando para Angélica com os seus 47 anos.
- que pensas? a partir dos 40 é que é bom! ora diga lá...
desafia-me a Angélica do café, a partilhar com ela as recordações da inquietação da carne.
- sem dúvida, a partir dos 40 é que é bom...
colaborei eu, sem mentir, mas fazendo passar a falsa impressão de que seria cúmplice em jogos sexuais, vendada e com algemas, como a entusiasmada Angélica que acredita que assim terá amante até ser velhinha, saltando de fantasia em fantasia, em performances que eu não consigo imaginar, pois até as acrobacias correm o risco de se tornar rotina, e a obrigação de ser original, extenuante.
saio do café a pensar que a mim me bastaria o corpo e toda a alma, se o tivesse aqui comigo. corpo e alma despidos, sem acessórios.
terça-feira, 1 de março de 2016
unha
numa mesa à minha frente, no café, sim, que eu também vou ao café de vez em quando tomar um carioca do mesmo, já que o médico me proibiu daquilo que eu gostava, e gosto, tanto. mas enfim, uma mesa em frente, sentavam-se três raparigas, sendo que eram todas bem rechonchudinhas e curiosas, curiosas porque espreitavam para os telemóveis umas das outras. do aparelho de uma delas vinha, repetidamente, aquele som de quando se recebe uma mensagem pelo messenger. então, a proprietária do dito, suspirava alto e a bom som, ao que as outras mergulhavam a cabeça para perceberem o porquê daquela respiração forte. a feliz contemplada, com unhas que suponho serem de gel, três pretas, uma com um xadrez perfeito, preto e branco, e outra sem cor, que deve ter ficado nalgum prato de arroz basmati, digo eu... bem, a visada, com aquele fenómeno de unhas, que dizem que dura um mês, um mês, quando as minhas tenho que as cortar todas as semanas, bem, então a afortunada fotografava o cartão de cidadão e enviava, sempre entre suspiros, perante a admiração das outras.
eu, que com um olho observava a cena, e com o outro e com os meus dedos com unhas desgeladas recomendava, por mail, passeios ao ar livre, ora eu, fiquei a olhar para a extremidade das minhas mãos, lavadas, sem nenhum encanto.
já em casa, uma beterraba faz-me uma declaração de amor, quando cortada ao meio exibe um coração vermelho. digo eu que foi o fruto, mas vocês sabem que foi ele.
ora, isto é o que escreve quem não tem nada para escrever.
sábado, 17 de junho de 2017
temperatura
sábado, 25 de março de 2017
vazio
quarta-feira, 5 de julho de 2017
e tu ana, como passas os teus dias?
ontem ainda consegui ir a uma sardinhada, mas há qualquer coisa na minha vida que não está bem e eu não consigo perceber o quê.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2019
no café
eram quatro sentados naquela mesa do café. a menina de cerca de três anos fala, fingindo que lê o livro que tem aberto nas mãos. pelo que percebo, pelas ilustrações adivinha o conto, e levanta o livro para que os pais e o irmão vejam o desenho, colocando-o em frente a cada um, que mantêm a cabeça inclinada sobre os ecrãs pousados na mesa, de tal maneira absortos que nem levantam os olhos.
sexta-feira, 25 de agosto de 2023
linhas tortas
que ninguém diga que não precisa de ninguém
ouço a mulher com um braço engessado dizer na mesa do café, acompanhada por um homem mais novo e uma mulher mais velha.
uma pedra solta na calçada do passeio e a vida toda de pernas para o ar, conta, substituindo o café cheio por um carioca de limão. naquele segundo, todo o passado, o presente e a incerteza do futuro, de repente numa vertigem, que ficou.
eu, que todos os dias peço autonomia, fico a pensar nos porquês desta vida, de como deus por linhas tão tortas nos torna tão frágeis.
quarta-feira, 5 de julho de 2017
o que me falta
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
soltas do dia
o homem que caminha comigo à beira-rio conta-me das suas propriedades, pega na minha mão para verificar se está fria, faz-me ver que o meu futuro não será, de todo, risonho e convida-me para visitar o seu escritório. quiçá, tomar um café com ele.
todos os dias eu penso que tem que haver algo, nestas 24 horas, sobre o qual valha a pena escrever, e hoje, fica-me a esperança de que o príncipe herdeiro da arábia saudita traga melhores dias ao médio oriente.
estou a secar, parece-me.
quarta-feira, 18 de julho de 2018
manhã
bom dia, marta! está boa?
e a marta, com a carapinha resguardada num lenço vermelho, os olhos sábios de quem já viu muita vida e escapou a muita miséria, o rosto de pele preta com as marcas do grupo étnico a que pertencia em terras do quénia, reparte a atenção entre mim e as folhas que junta
bom dia! está cansada, mulher?
ora... é um bocado cedo para já estar cansada, não é marta?
ó mulher... parece que carrega o mundo às costas...
despeço-me da marta e entro no café onde um homem grande feito pequenino, me aguarda preso num sorriso que pensa que trago, e que não sabe que carrego o mundo às costas
sexta-feira, 10 de abril de 2020
Do dia (corona 26)
Faz-se pão, toma-se café solúvel na varanda, prolongam-se as refeições com conversas e esquecemos as horas.
sexta-feira, 15 de outubro de 2021
o homem
o homem pára na montra do café que exibe os obituários da vila. quem morreu tem ali a fotografia escarrapachada para quem quiser ver. e são muitos. e o homem, de mala na mão, óculos com design da última tendência destoando do seu ar conservador, observa os mortos que lhe garantem que de facto, está vivo, apesar de domesticado. depois segue, com o rosto coberto por uma máscara, o passo apressado de quem é preciso e precisa de ser preciso. o homem, que tendo a vida dos outros nas mãos, tem a sua, nas mãos dos outros.

