domingo, 26 de abril de 2026

o que todos gostamos mesmo

 





enquanto a minha amiga luta ferozmente pela sobrevivência num hospital longínquo, o homem que rega o talhão ao lado do meu na horta comunitária pousa o regador, levanta a camisola, e mostra-me a barriga. parece um balão, grande, vergando-se sobre zona púbica.

- está a ver? e é dura... preciso de a perder, mas nem sei o que fazer... é  que eu gosto muito de comer e de beber a minha pinguinha...

comentou ele como se aquele 'gostar de comer e de beber a pinguinha' fosse algo inegociável, algo imperativo. 

eu aqui, forasteiro, cansada de assistir a tanto sofrimento, tanta dor, de lá de longe, com o meu corpo a vibrar num misto de lamento e impotência, tentando receber alento da mãe terra, onde mergulho os dedos e destruo as unhas, suspiro, coloco os espinafres no saco e a mochila nas costas e digo-lhe

- sabe o que é que todos gostamos mesmo... sabe?

- não - respondeu enquanto regava os pimentos

- o que todos gostamos mesmo, é de ter saúde, e nem o sabemos. por isso, veja o que come e pense se vale a pena.

o sol já começa a moer-me a moleirinha, o corpo pede por água, e eu quero o abrigo da minha casa. 






domingo, 19 de abril de 2026

soltas

 





os tremoceiros competiram em altura com as couves galegas e o vento fez a habilidade de os tombar desordenadamente pela horta. encontro o pequeno espaço onde compito com os caracóis todo desgrenhado. a terra está dura para ceder às estacas que tento enterrar para trazer alguma ordem àquilo, enquanto o rapaz sua as estopinhas para arrancar da terra as couves vergadas pelo peso das sementes. foi arrastado à força, quase, para aquela tarefa, o rapaz que vive para a arte, habituado a telas, pincéis e canetas micron.

a mim, cai-me um desânimo trazido talvez pelo nevoeiro frio que se faz sentir nos ossos. têm sido tempos estranhos, estes, em que o passado entra aos rebolões e o presente escarnece da ideia de futuro. 

os caracóis ganharam terreno e nem os pequenos feijoeiros pouparam. presenteei-os com um granulado biológico como aperitivo para a próxima investida nas minhas poucas culturas.









quinta-feira, 26 de março de 2026

peito

 




naquele sítio onde se vê os interiores de quem por lá passa, a assistente pergunta com delicadeza:

toma alguma medicação?

olhe, tomo prás tensões, colestrol, pró estômago e prá cabeça... a funcionária sorri enquanto fecha a porta do vestiário por onde a mulher desaparece,.

eu, espero há mais de uma hora pelo homem que me fez apaixonar pelo meu coração enquanto o apontava naquele visor e ele, pequeno, em tons de vermelho e azul, trabalhava sem descanso para que eu continue viva. 

sorridente, pede desculpa, e, com a sua mão morna e macia, segura a minha, assegurando-me que se não esforço mais o meu corpo, não será por falta de competência do amor que guardo no peito.






sábado, 28 de fevereiro de 2026

Manhã

 




Quando levanto os olhos do telemóvel vejo que o dia nasce à minha frente, o altar espera que uma vela lhe seja acesa, e os jarros murchos pedem que, com alguma dignidade, sejam encaminhados par a compostagem.
 
O dia está silencioso e quieto. As casas do outro lado da rua parecem sombras chinesas. As gaivotas guincham ao longe, talvez acompanhando uma traineira que se aproxima com a garantia de alimento.

Algo dentro de mim ainda quer agarrar os sonhos que se esvanecem com o passar do tempo. E renovar-se.













domingo, 22 de fevereiro de 2026

hortelã-baunilha

 




a terra está pesada, ou eu estarei fraca de braços...

vou eu falando comigo mesma enquanto agarrada à enxada numa tentativa de fazer um buraco grande para enterrar o entulho. mas não é fácil. o peso da chuva ainda se faz sentir na terra compacta coberta de ervas que se dizem daninhas.

salva-me o senhor jeremias que se aproxima apoiado na sua bengala. só não precisa dela para trabalhar na horta. aí não lhe falha a perna. assim como eu, que chego lá toda escalhambada e logo logo fico boa. [o bem que isto me faz.... comento sempre nem que seja com as couves espigadas].

com os seus dois dentes e voz arranhada diz que viu o meu carro e foi visitar-me. oferece-me salsa e hortelã-baunilha para plantar. digo-lhe só, forasteiro, que aroma, que maravilha! 

jeremias e sua amiga bengala vão-se embora, devagar, pelo caminho estreito que divide os talhões da horta comunitária e eu derreto-me sempre com a ternura que vejo que sinto.




sábado, 21 de fevereiro de 2026

pijamas

 




enquanto vagarosamente dobro os pijamas que acabei de tirar da máquina de secar, penso que se me tivessem dito há uns meses que iria estar nesta situação, não teria acreditado. pergunto-me quanto amor conseguirei colocar naquela tarefa que me causa repulsa, para alguém com quem nem consigo falar. 

ensaio.

foco-me no meu coração. deixo que ele comande os gestos. pouso as mãos em cima do monte de roupa e envolvo tudo na intenção de cura. talvez aqueles pijamas lhe devolvam autonomia, lhe sarem as feridas.

[o que tenho eu a aprender com isto... penso repetidamente, nesta mania de que tudo tem uma razão, de que tudo tem a ver comigo, também...]









domingo, 15 de fevereiro de 2026

 





"O entendimento da natureza desta Mulher Selvagem não é uma religião mas sim uma prática. É uma psicologia no seu sentido mais verdadeiro: psukhélpsych, alma; ology ou logos, conhecimento da alma. Sem ela as mulheres ficam sem ouvidos para escutar as conversas da alma ou sequer registar o soar dos seus próprios ritmos internos . Sem ela, os olhos internos da mulher são fechados por uma sombria mão, e partes consideráveis dos seus dias são passadas num marasmo paralisante ou em pensamentos ilusórios. Sem ela, as mulheres perdem a firmeza do equilíbrio espiritual. (...) A Mulher Selvagem é o regulador das mulheres, o seu coração emotivo, à semelhança do coração humano, regulador do corpo físico."

Clarissa Pinkola Estés
Mulheres que Correm com os Lobos





sábado, 17 de janeiro de 2026

frio

 




chego a casa. 

está frio lá fora. 

acendo a lareira em tempo record. 

ponho o meu jantar na mesa, frio, acabado de sair do frigorífico. tenho fome e cansaço. 

encho uma taça de espumante para acompanhar o strogonoff com chucrute. 

tenho muito para celebrar... todos os acordares da mulher mais velha, as palavras que correram da minha boca para fora, a saúde, o fogo, os sonhos que insistem em saltar do meu peito, a gratidão que mesmo assim não me larga num mundo comandado por loucos, os pés frescos e as costas quentes durante o sono, não ter de me levantar durante a noite, os rapazes nas vidas deles.

de tanto brindar fico atordoada.

a minha alma sorri...







quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

outra vez

 





a cabeça da mulher estava povoada de demónios. sussurravam-lhe ao ouvido, primeiramente durante a noite, e depois acompanhavam-na pelo dia fora. a dita acordava cabisbaixa, a noite era entrecortada com súbitos despertares aflitos, respiração acelerada, o corpo a tremer. seriam os espíritos que não regressaram lá para o canto deles das férias de natal, seriam os seus mafarricos passando-lhe rasteiras, seria uma qualquer prova de aferição, daquelas em que estava sempre a tropeçar. a mulher não sabia. apenas observava e sentia e pensava.

caramba tantos medos. não posso sentir medo pois o medo atrai situações das quais tenho medo... dizia  com medo de sentir medo com os pensamentos medrosos que lhe vinham à cabeça sem os conseguir controlar.

então trauteava aquela música que lhe tinha sido dada noutra realidade para qualquer aflição, entoava mantras embora desconfiando daquelas palavras em sânscrito que não entendia, fazia para ela mesma lengalengas que repetia sempre que estava só. garantia que o que sentia não era dela, e, a coisa começava a despegar-se-lhe, embora deixando côdeas, crostas, coladas na aura dela.

até uma próxima, em que a apanhem distraída, outra vez.








segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

dos dias livres

 






está um frio do carago... diz-me a dona Edith enquanto o vento corta-nos as bochechas entramelando-nos a língua no meio da conversa, ela toda empinada e eu apoiada na sachola. 

é o seu marido lá ao fundo? estranho eu pois o homem não costuma ter genica para aquelas vidas.

é, pois. veio trazer um saco de estrume de galinha para botar no compostor, anui com a cabeça que exibe um corte de cabelo novo. 

novo visual, dona Edith! reparo sorrindo. fica-lhe bem, fica mais fresca!

é, pois. envaidece-se determinada. tem que ser...

enquanto aproveito o embalo do vento cortante para sair dali, o meu pensamento cobiça aquele saco de estrume. caramba... o jeito que me dava para as minhas pencas raquíticas e brócolos enfezados.