domingo, 24 de maio de 2020

Pouca terra Pouca terra






Enquanto o alfa percorre o caminho ferroviário que o traz do Oriente para Campanhã, dona Fernanda dedilha calmamente as respostas da prima Bernarda que eu tinha guardado num lampejo premonitório.
- Todas me serviriam
Murmura ela como se falasse sozinha
- Mas não há nenhuma que diga que a grande vida dele é pequena demais para mim, que eu fui feita para outras larguezas, outras aragens










sábado, 23 de maio de 2020

Deste lugar








Lá fora a chama da vela tremeluze, ao lado do almofariz untado com óleo de alfazema, conforme o mestre me indicou para fazer na transição da lua nova para quarto crescente.
É tanta a paz aqui neste lugar sagrado onde apenas estou eu, e percebo, que o espaço que ele me dedicou, é tão pequeno para o tamanho do que eu quero ser, e sou.
E respiro de alívio e gratidão para com o tempo, a distância, a visão, a lucidez e a oportunidade.








terça-feira, 19 de maio de 2020

tu









sabes aquele bocadinho que desce pela clavícula, contorna a axila e termina no peito? assim, coberto pelo teu pullover morno com o calor do teu corpo e exalando o aroma da tua pele, aí, eu descansaria o meu cansaço, aí como quem confia, aí em ti.

















segunda-feira, 18 de maio de 2020

da magia e do amante










eu acho que afinal foi quando apareceu aquela possibilidade de amor na minha vida que a magia se foi afastando. devia ter sido ao contrário, o sentimento a trazer o brilho de uma realidade mágica, mas não foi. comigo não foi.
há uns tempos, atribuí esse buraco negro à batedeira que veio substituir as minhas mãos na confecção das massas para os cozinhados que, trabalhosamente, ajudam no sustento da minha tribo. e tem a sua parte de responsabilidade, sei que tem, mas foi aquela entrega à novidade do amor inesperado e tardio que me fez distrair de todos os gestos ondulantes com que acarinhava, conscientemente, os dias, e reconhecia as suas bênçãos.
agora, regresso à magia, como um amante que sacia a sua libido regressa ao seu matrimónio. e ela aceita-me, assim como o cônjuge traído aceita o consorte que em azar o traiu, e ela também me aceita ouvindo as minhas juras levianas de que nunca mais a deixarei, e, acreditando em mim, tal como nos enlaces legais perante os olhos postos na rotina de uma vida inteira.
então, deixei a batedeira só para casos de aflição, tal como deixaria o amante para momentos de consolo furtuito, voltei a colocar a música que fala na língua que os demónios entendem e os afasta, e com os meus pés nus e descalços, voltei a sentir a vida nas pontas dos dedos.
para remissão da minha falta, acolhi um choro aprisionado dentro do peito, num turbilhão em busca da redenção. quem se chegar a mim, pode ouvi-lo em protesto rouco e exausto à procura de descanso.







sábado, 16 de maio de 2020

bolachas de limonete








naquele local, naquele ângulo, com aquela incidência, meticulosamente alinhado com o local onde me encontro, e o espero, posso dizer-vos que hoje nasceu só para mim, anunciando-se com as cores com as quais me visto e me cubro sempre que preciso de acalmia e protecção, e enchendo a minha alma de luz primordial, da sua própria essência.

assim como naquele dia enquanto ele mergulhava no horizonte, pedi às águas do mar que levassem tudo o que me atropelava na estrada da vida, hoje peço-lhe a visão do caminho que me escapa, peço-lhe que eu seja farol de mim mesma, e, quando me distrair do que sou, que a sua luz me impeça de dormir para me acordar para a vida, para as diversas formas de ser dia, e que com o aconchego do calor do abraço que ele me dá, possa eu também acalentar a vida dos outros e voltar a fazer bolachas de limonete.










sexta-feira, 15 de maio de 2020

ocaso







a mulher que lavava o futuro nas margens do rio, perde o olhar lá onde as andorinhas ensaiam a dança do recolher, naquele desejo antigo de voltar a ser ave, de voltar a planar, de voltar a ser leve e livre. 
e lá, onde os seres alados expressam toda a magia de voar, a mulher demora-se nas cores do pôr-do-sol, a nascente, ali, onde as cores do ocaso, se reflectem suavemente nas nuvens, colorindo o cinza azulado de coral.
e a mulher repousa. nunca o futuro esteve tão longe e o passado tão distante. naquele momento presente, o sol põe-se a nascente.















quarta-feira, 13 de maio de 2020

peregrinação









foi quando ela me respondeu
desencantada
que as lágrimas correram mansas pelo seu sorriso formando um abraço liquido por baixo do seu rosto
eu sei que para aquela mulher, perder o encanto, é desacreditar na magia que lhe torna possíveis os passos no terreno dos dias, que lhe dão o ânimo para colocar um pé a seguir ao outro e traçar o caminho por onde caminha, mas, talvez esse desencanto seja uma peregrinação para dentro de si, neste dia 13 de maio em que as peregrinações não se fazem com o corpo










terça-feira, 12 de maio de 2020

ἐνθουσιασμός









tenho uma tarantella dentro da cabeça
sussurrei esta noite como se ele me pudesse ouvir
e tinha
a minha alma trazia um vestido rodado e rodopiava, descalça numa estrada de terra batida provocando um redemoinho de vida, de corpo, de suor, de grito, de sagrado, à minha volta
enthusiasmos
ecoava dentro de mim. mais significado do que palavra. voz sem rosto nem língua.
tenho uma tarantella dentro de mim e um corpo que desconhece a idade e uma alma que não conhece distância, a meio da noite, enquanto tudo dorme




















segunda-feira, 11 de maio de 2020

o meu primeiro café em dois meses não é apenas um café






foi o meu primeiro café em dois meses. daqueles cafés que se tomam fora de casa, e, que só por isso, já têm outro efeito, e, também talvez por isso, outro sabor.
mas foi hoje, tomando esse café em copo de papel reciclado, dentro do carro, que eu percebi que o café faz com que o espaço que separa o nosso lado lógico, da nossa alma, se dilate. e é nesse espaço todo que cabe também a nossa imaginação. então, parece-me que um café tomado fora de casa, nem que seja dentro do meu carro, em copo de papel reciclado, e até fazendo com que a língua fique escaldada, faz com que a criatividade aumente, porque essa manifestação de deus menino precisa de espaço.
isto dito assim pode parecer muito redutor, mas eu senti mesmo a imensidão de toda essa amplitude, deixando de lado toda a lógica e distanciando-se do estado puro e divino da minha alma, para que aí, tudo possa ser possível, toda a imaginação, toda a criatividade, toda a infância.








sábado, 9 de maio de 2020

espera









vivia eu naquela insistência de não esperar do outro aquilo que eu daria, no seu lugar, como se o outro, em vez de ser diverso, pudesse ser igual a mim. 
digo-lhe que me custou muito chegar a esta espécie de serenidade. foram meses de avanços e recuos, de sofrer por aquilo que eu considerava ser rejeição, desconsideração, até. foram meses de dor, posso dizer assim. a cada vislumbre que tinha de alegria, sobrepunha-se-lhe uma desilusão. 
até que um dia chamei por mim mesma e fiz-me entender que o outro não sou eu. que a terra movediça onde eu caía era uma auto-estima fragilizada. 
então olhei-me bem nos olhos e pus os pontos nos is comigo mesma, para que eu percebesse que sou como sou e pronto. sou o melhor que sei ser. 
quanto ao outro, é apenas outro, com as suas dores, as suas limitações, a sua forma de sentir e o seu caminho. o outro não sou eu por isso não posso esperar que me corresponda na forma de agir. o outro não sou eu, e não vou deixar-me afundar numa energia que não é a minha nem que não depende de mim.
mas mesmo assim, há dias em que, caramba, queria tanto que fosse diferente, e caio à beira da tristeza. passo, então, todo o tempo a repetir para mim mesma 'esta energia não é minha. não a aceito. esta energia não é minha. não a aceito. esta energia não é minha. não a aceito. esta energia não é minha. não a aceito. esta energia não é minha. não a aceito'. 
e o que espero da vida, é nada esperar, e viver devagar.