quarta-feira, 5 de outubro de 2022

do dia

 



hoje a minha espiritualidade é esta: 

uma fatia de bolo de chocolate húmido ainda morno, coberto com fondant de chocolate e frutos vermelhos, acompanhado por um bom espumante fresco, fresquíssimo. sozinha, como a prática impõe. e agradeço. agradeço a oportunidade de viver.

mais logo, quando me for deitar e perguntar se hoje melhorei o dia de alguém, poderei dizer que sim, o meu, no fim de contas.

e das bênçãos do dia, este tanto. muito obrigada senhor das tempestades. mas, por favor, manda mais aqui para o talhão nr 22.





quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Parabéns!





Parabéns a Ela, com quem crescemos pelas palavras que escreve, que acrescenta estrada aos nossos pés com os caminhos que trilha, que nos humaniza com a sua forma de ser, que nos alarga o horizonte com a amplitude do seu olhar.

Parabéns, CC, e muito obrigada por ter a porta aberta.




 

terça-feira, 20 de setembro de 2022

da praia

 





poder-se-ia dizer pela cor das pernas daquela mulher que não pisava um areal há muito. poder-se-ia também dizer, pela roupa que trazia, que não tinha previsto estar ali.

mas ninguém poderia dizer da sofreguidão da sua pele pela água do mar, ao caminhar. da água que se apresentava morna e mansa naquele fim de dia de sol pôr. ninguém poderia dizer que a cada passo se reconciliava com memórias longínquas, que cada salpico era uma diálogo consigo mesma.

também ninguém sabe do burburinho que trouxe no seu corpo, da mão que pousa no peito como quem pede que a recordação daquele sentir lá fique guardada, dos pedidos que fez enquanto o sol mergulhava em tons que só ela viu.

que a inveja faça com que eu me supere

que a falta de confiança faça com que eu me aperfeiçoe

que a dúvida faça com que eu me instrua

que o caminho me apareça e que eu o saiba ver, e vendo-o que o faça

e ninguém diria, ao se cruzar com ela, ao volante do automóvel, do sol que trazia no peito, da correnteza nas veias, da areia guardada nos pés.

mas eu sei








terça-feira, 13 de setembro de 2022

palavra

 




o homem pergunta-me

palavra?

eu respondo-lhe

gerundia... 

e ele queixa-se que não lhe ligo.

há lá algo melhor do que um gerúndio?






segunda-feira, 12 de setembro de 2022

sentido

 




não se trata, disse o forasteiro, de não sentires raiva, zanga, ciúme, revolta... trata-se de quanto tempo vais manter esse sentimento no coração, minando por dentro.






domingo, 7 de agosto de 2022

fora de tempo

 




assim como sebastião, surgiu a vontade de sonhar aqueles sonhos que nos fazem querer mais caminho, diferente caminho. surgiu assim meio enevoado, como quem desbrava largueza no peito e apontando um lugar mais à frente,  dando brilho aos dias, vida ao olhar e alinhando os passos a cada manhã. como se viver mais fosse importante. 

agora, é cuidar que esse lugar não se feche e encontrar algo que seja ainda maior para lá ganhar força. algo tão inesperado como a vontade, ela mesma, tão fora de tempo troçando de quem estabeleceu as idades e as razões e os limites.












segunda-feira, 1 de agosto de 2022

notícias de bordo

 




tantos meses passaram em que as palavras não foram escritas e parcamente faladas, segundo lamenta o timoneiro, agora.

de acordo com os registos de bordo, as missivas tornaram-se inúteis, por incompreendidas e, por isso mesmo, quero crer, sem resposta. o timoneiro foi fértil em mutismo, atitude que reverteu nem sei bem dizer quando nem porquê. 

a meu favor, por incrível que possa parecer, tenho o rum que ainda sobra e que é de fraca qualidade prejudicando gravemente a memória de curto, médio e longo prazo e enevoando a criatividade que se tornou inútil em dias de marés paradas em alto mar.

e quer o timoneiro que lhe fale de amor, como quem fala do destino, enquanto sulco a remo, por águas barrentas e lodos manhosos, um caminho que desconheço, sem mapa, sem traçado, desconfiando cá com os botões desta casaca puída que isso a que se chama corriqueiramente de amor é um sentimento matreiro, espada com dois bicos, subida com degraus falsos, máscaras em cima de máscaras, como uma cebola fora de época, bonita por fora, mas que fede nauseabundamente por dentro.

mas neste longo trajecto de nortadas que morrem antes de estrebucharem em águas estagnadas, à navegadora desta mono-barcaça foi-se lhe alargando o peito de espaço para sonhar, de permissão para acontecer, de se desviar do tempo, esse das cronologias que nos estabelece prazos de validade e nos encorrilha os dias. talvez seja um bom prenúncio. 

talvez seja

ou talvez não seja









sábado, 16 de julho de 2022

frio




Senti o frio naquele banco de jardim, ao cair da noite. O corpo arrepiado por baixo do vestido solto que me acompanhou nas horas do calor mais quente, e agora o frio, querendo eu que se demorasse, que me arrefecesse a carne e as veias, os pés ardentes. 

O vento, vindo do sul, frio, depois de dias nortenhos abafados pelo calor sufocante de latitudes quentes. O mundo ao contrário. 

Passaria o meu braço pelos teus ombros, se pudesse 

Disse o homem matreiro, sentado a meu lado

Eu aceitaria um braço sobre os meus ombros, se pudesse, mas não aquele. Um braço morno na pele fria, carne pulsante na minha equilibrando o frio da noite, e um ombro, onde descansar por momentos a insistência em não ser derrotada pelos atropelos dos dias.




quarta-feira, 13 de julho de 2022

Celebro





Sento-me, olho para fora do espaço, agradeço e celebro. Celebro-me e agradeço o amparo, o sussurro e a direcção.

Pensará, talvez, o forasteiro que é coisa pouca. E é, que se veja. Mas foram tantos os momentos de entrega, de confiança nos tortuosos aconteceres da vida perante tantas improbabilidades...

Por isso me celebro, e agradeço.




domingo, 3 de julho de 2022

simples

 




é simples, disse o homem que cura

sente amor, coloca intenção bem definida, confia que consegue e agradece. é simples