quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

a chuva

 



o tempo alargou-se-me. 

a chuva apanhou-me inteira na horta. eu, os espinafres, as pencas, as lombardas e os amores-perfeitos completamente encharcados. muito obrigada, murmuro repetidamente com o rosto virado para as nuvens que mansamente vertem sobre nós. o meu corpo todo molhado com a água do céu.

o tempo alargou-se-me, reparo, sentindo as completudes que consigo numa jornada. ainda há pouco os dias desfaziam-se como açúcar na água quente e agora, vindo não sei de que merecimento ou promessa, este alargamento.

se lhe disser, forasteiro, a quantidade de feitos que me cabem num dia, não me acreditaria. eu acho que deus me agracia à medida que me encaminho ao encontro da minha alma, se me permite a presunção, forasteiro, e a minha alma talvez seja também essa chuva mansa e morna que se passeou em mim.









terça-feira, 30 de novembro de 2021

a mulher

 





no final do dia de trabalho, sempre a hora tardia, demasiado tardia, a mulher entra no carro, conduz alguns quilómetros até ao supermercado e compra um hamburguer, aquele haburguer que está lá, sempre quente, no expositor. regressa a casa, acende a lareira, abre duas cervejas meio-mornas, e senta-se a comer lentamente, olhando o fogo. 

estou aqui comigo, por mim. o desejo, neste hamburguer, o merecimento do tempo, da dedicação, para mim.

murmura

a roupa do dia meio desabotoada, as pernas cruzadas, as dores nas articulações, a paz.









segunda-feira, 29 de novembro de 2021

água

 





e enquanto aquela água quente escorria pelo meu corpo, no final de um dia de trabalho que me deixa cheiros colados à pele, eu percebi, de repente, que estou viva, que isto é vida, que tenho um corpo que sente e que me pode levar para a rua e sentir a chuva e o vento. ou o sol. estou viva e tudo pode acontecer. tenho um corpo vivo que vibra e se manifesta.

isto, forasteiro, pode-lhe parecer pouca coisa, mas acho que me pari naquele momento, com a graça de Óxum e do meu anjo da guarda, sabe-se lá, mas quer-me parecer que sim.











sexta-feira, 12 de novembro de 2021

imóvel

 




Forasteiro, por aqui o dia amanheceu imóvel. Até o candeeiro da rua está alinhado com aquela janela do outro lado do jardim que se ilumina todas as manhãs ao mesmo tempo que a minha. A cornucópia rodopiante dentro da qual tenho acordado, deu-me tréguas e, até o criador escolheu um degradé suave e monótono para pintar o céu da manhã em vez da loucura criativa dos últimos dias. Será que tudo vai voltar ao normal? Que conseguirei até caminhar com segurança... Será que o normal é bom... Dar-lhe-ei tréguas também a si, das minhas maleitas (assim espero), e dos meus devaneios, cheia de gratidão pela sua dedicação e pelo ser que é. Se também puder vos ser útil, diga, por favor.










quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Notícias do acordar

 




Pois então, forasteiro, esta é a minha correspondência para com o seu interesse vertido nos meus acordares.

Notícias do acordar: 
Hoje a centrifugação foi mais rápida em velocidade, mas mais curta em duração. 
Estou em crer que a minha alma esperneia de contrariedade ao ter que regressar à realidade terrena, como uma criança que faz birra num supermercado. 
Durante a tarde de ontem estive bem (pelo que lhe agradeço), embora não tenha conseguido tratar dos amores perfeitos e das Ervas aromáticas que dão cor e perfume à minha horta. As fadas e os gnomos devem estar danados. Quiçá serão eles que fazem isto à minha desorientação. Tem todo o aspecto disso. 
As cores no céu prometem ser o escândalo de ontem. Nem sei se é bálsamo se ironia do criador, se Ele feito menino ao amanhecer... 
Por esta altura já percebeu que apenas duas linhas destes relatos interessam ao caso, mas não invalida os sintomas nem o mal estar. 
Não me leve a mal nem desconsidere o que sinto, por favor. 
O forasteiro está bem? Muito obrigada pelo seu cuidado e empenho. 






terça-feira, 9 de novembro de 2021

Aos trambolhões




O que aqui lhe relato, forasteiro, é esta circunstância de a minha alma regressar ao meu corpo, todas as manhãs, aos trambolhões. 

Diário de um corpo dentro de uma máquina da roupa:
Hoje colocaram-me num programa para lãs, mais suave e mais lento. Mesmo assim demorou 15 minutos a libertar-me. Quando coloco os pés no chão sinto-me um marinheiro que passou largos meses no mar e desequilibra-se em terra firme.
Tratar da horta também é um problema. A cabeça parece embarcar nas nuvens em vez de ancorar os pés na terra e os caracóis tomam posse das pencas e dos corações, sobretudo do meu. 
Perante isto tudo o criador continua a brincar com as cores, como se nada se passasse, nem em mim, nem no mundo. Vai uma foto do momento para comprovar... 
É isto.
Muito obrigada pela sua atenção. 














segunda-feira, 1 de novembro de 2021

*

 





acordo. olho devagar para as portas do roupeiro. estão paradas, as linhas paralelas ao tecto e perpendiculares ao chão. então, repito, desta vez com os cortinados. está tudo estáctico. respiro fundo e agradeço a deus por mais um dia, uma nova oportunidade de fazer diferente, mesmo repetindo todos os dias as mesmas rotinas. obrigada, senhor, pela tua infinita paciência, obrigada. e levanto-me, já o dia está nascido, já a mesma janela do outro lado da rua está iluminada. acendo as velas, tomo o pequeno-almoço e começo a alquimia. senhor, que permites que transformemos o que tocamos, que transformemos com o que sentimos. senhor, que nos dás o benefício da autoria, que nos fazes artesãos, de mãos e de coração, obrigada.







sábado, 30 de outubro de 2021

cannabis

 





a mulher à minha frente exibe um sorriso aberto. respondendo-me diz que nunca esteve melhor. a doença levou-lhe vinte e tal quilos, mas não lhe levou os ouvidos da alma.

sabes, agora sei o que tenho e sei que estou a fazer o que posso para me curar. a médica explicou-me tudo o que está a acontecer com o meu corpo, como a doença quer destruí-lo e como podemos combater isso. entretanto vou tirar a tiroide e não me perguntes como, pois não quero saber. depois vou tirar o útero e de seguida os tumores no fígado.

a mulher à minha frente fala com entusiasmo mas o meu coração está apertadinho. ela diz que tem que se manter positiva e afastar pensamentos maus e fala das suas maleitas como sendo coisa pouca. grave, dizia ela, era quando não sabia o que tinha, agora é só tratar.

quando os pensamentos maus chegam, ponho-me logo a pensar noutra coisa, arranjo o que fazer, sei lá... olha, quando fui à consulta o médico mandou-me tomar cannabis do cbweedporto (e ri-se com o corpo todo), disse que tem um caso de um doente com os dias contados e que agora os exames não encontram nada de mal e foi com cannabis. acreditas? até o meu pai está a tomar e baixou-lhe o colesterol e os diabetes. mas ele não sabe que é cannabis... ai... (e ri-se). 

e a mulher à minha frente fala de cozinhados e de filhos e de pais e de marido e de compras e de supermercados e disto e daquilo.

eu ouço e, caramba, nem sei... fica aqui isto, forasteiro. é que há forças e palavras que só podem vir dos anjos, digo eu que embrulho tudo em redomas de azul turquesa brilhante.





sexta-feira, 29 de outubro de 2021

dos dias

 




dos dias tenho pouco a dizer, mas venho aqui revelar-lhe, forasteiro, que o tempo cresce quando planto amores-perfeitos, que a mágoa dá lugar à liberdade, que o coração vence em amor sobre a rejeição alcatroada, que de repente olho em volta e vejo as cores de Miguel por todo o lado, que respiro o sol que me envolve naquela manhã onde não era suposto, que todos os bocadinhos, forasteiro, toda a vida, todo o corpo, toda eu, todo este viver, me diz que cada um tem o seu lugar, o seu espaço, a sua lição, deixe-me dizer, forasteiro, o seu trono, a sua alegria.






sábado, 16 de outubro de 2021

cringe

 




mas ouvem-me enquanto lhes recito um poema de eugénio ao pequeno-almoço

Não se aprende grande coisa com a idade.
Talvez a ser mais simples,
a escrever com menos adjectivos.

...

vou-lhes lendo, enquanto tomam o café e, aproveitando o espanto, esse espaço que pode dar entrada ao encantamento, continuo com agualusa.
e este...

Podes dizer ao mundo inteiro
que estas letras são tuas.
Assim como os desenhos que fiz,
os espaços que deixei.
Podes dizer a toda a gente que um dia
te amei e que foste tu quem me fez poeta.


continuo, sem que me interrompam, caneca a meio caminho dos lábios, olhos fixos em mim

Podes contar à galáxia e aos seus
sobreviventes que, meu eterno desconhecido,
um dia me fizeste rainha.

já viram, que lindo - meu eterno desconhecido, um dia me fizeste rainha. não acham lindo?
lindo? cringe! ... 
e acabamos, com tentativas de explicação do tal termo que eu nem sabia escrever e, eu, de repente invadida por uma alegria que me vinha da poesia falada, em voz alta, das palavras que se leem com o corpo todo