ele morreu-se-me.
nos dias atarefados que atravessam esta época a que chamam de Festas, o trabalho povoou-me as horas, as mãos, o cansaço.
este ano não fiz telefonema nenhum a desejar bom natal... comentei e pensei inúmeras vezes... mas a quem não liguei também não me ligou... constatava...
e faltou-me o telefonema daquele amor tão distante a dizer-me 'fizeste um bom trabalho'... 'és uma grande mulher'... 'tens muito valor'... e eu a rir-me do lado cá respondendo, respondendo sempre 'tenho é muita sorte...'
é assim. há amores que se desvanecem e ficam numa amizade tão boa, num aroma de frésias, numa brisa de vento sul num fim de tarde... raro, tão raro, mas tão mais verdadeiro do que o antes.
mas ele não me ligou e eu não lhe liguei e quando o fui procurar vi que ele se me tinha morrido, assim, sem aviso, assim depois do natal, assim como não devia ter sido, assim, do nada.
morreu-se-me e eu continuo como se nada fosse não poder mais ouvir aqueles disparates todos pelo menos duas vezes por ano e dizer-lhe 'só de saber que existes traz-me paz'.