quinta-feira, 11 de junho de 2026

as botas












A mulher cobre os ombros com o fino xaile branco feito de malha que, de tanto usado, conhecia de cor as formas do seu corpo e a abraçava como faria uma anciã, sábia dos seus segredos.

Senta-se na cama. A almofada acompanha a curva das costas e dá-lhe algum descanso. É hora de rever o dia que passou - a conversa com as amigas no café, a tarde toda encostada ao balcão da cozinha a fazer, sabe Deus como, o que tem de ser feito, os relatos da mãe conhecedora da vida de todos os vizinhos, os desabafos cansados da amiga, o sorriso, que apesar da sua determinação, tinha desaparecido vezes demais dos seus lábios.

Mas naquele momento sorri. Não lhe sai da cabeça o homem das botas desiguais. O pé esquerdo exibia uma texana, o direito calçava como um militar. Seria o homem um sonhador? Andaria com um pé numa realidade e o outro vivendo outras experiências, saltando da liberdade das pradarias para o rigor e obediência de um soldado? Isso poderia justificar o seu olhar azul infinito nos dias de sol, e verde-musgo quando invernava, a elegância poética com que a saudava, se a via naquelas horas em que o criador resolve pintar o céu de cores que enchem o olhar, e o ar sisudo das horas de obrigações que o afasta da cor da sua alma.

Boa estratégia, pensa a mulher. A ser verdade, bastaria iniciar o passo com a bota adequada para entrar numa realidade ou noutra, sem que mais ninguém se aperceba. A não ser ela, que traz também o mundo de uma cor por dentro, e, de outra por fora, que se refugia na maré vaza de um fim de dia de verão, enquanto as mãos enrolam empadas e pasteis de carne na cozinha.









terça-feira, 9 de junho de 2026

As voltas

 




O casal aproximou-se da máquina e tirou um ticket. Ele e ela sentaram-se ao meu lado.

- só tens de esperar que chamem o teu número e mais nada! - disse ela rispidamente, perante a intenção dele de se dirigir à recepção.

Eu observo o casal de esguelha, e inevitavelmente atento aos modos. Qual dos dois estaria doente, não percebi, embora ele parecesse mais frágil, com metade do volume dela.

Mas fiquei ali a pensar, até porque não tinha mais nada para fazer, nas voltas que os dias têm de dar para se transformar o entusiasmo de um enamoramento, naquela maneira de se mostrar, de se parecer, de se ser um com o outro. E mesmo assim permanecerem juntos, aturarem-se, cruzarem os olhares, um no do outro, sem se envergonharem.






quinta-feira, 4 de junho de 2026

azul

 





o mar tem-se excedido em azul. 

percorro a marginal, como de costume todas as manhãs, e a cor daquela água fria riscada de branco leva-me sempre de volta à recordação de um tempo longínquo, em que nos meus olhos guardava todos os azuis do mar para lhe contar dos meus dias, na esperança de o fazer sentir a maresia, a nortada, as gaivotas.

às vezes fazemo-nos poemas para nunca serem lidos, fazemo-nos personagens desviadas pelo vento. e a vida passa, como uma mandala tibetana, desfeita num sopro.





quinta-feira, 21 de maio de 2026

Pão

 




Coloco a sertã anti-aderente pulverizada com azeite a aquecer. Numa bacia misturo cerca de 170 grs de farinha com fermento com um iogurte natural e um pouco de sal dos Himalaias. Li algures que é um bom sal, para usar como fino, e é cor-de-rosa, a cor do amor, disse quem o viu.

Amasso até despegar e faço 4 pãezinhos que vão a cozer 4 a 5 minutos de cada lado na sertã quente, e se possível tapada.

O pão está feito e saboreio-o com manteiga que derrete imediatamente.

O sol que entra pela porta da varanda alaga o meu rosto. A mulher que fala no telemóvel diz que no momento em que dizemos que não somos capazes, as forças involutivas ganham força e aproximam-se. A ciência não o comprova, eu sei, forasteiro, mas também não tem como provar o contrário.

Talvez tenha comido mais do que devia, mas saboreei cada bocadinho com o corpo todo, agradecendo a capacidade e a consciência.




quinta-feira, 7 de maio de 2026

concha

 



o casal que eu via da minha mesa estava sentado, frente a frente, a mão direita dela formando uma concha com a concavidade virada para cima, e a dele, também em concha, encaixava na dela. ela tomava o café segurando a chávena com a mão esquerda, ele, levava a dele aos lábios com a direita. e as mãos em concha, uma na outra, como se guardassem naquele espaço a força que ampara e resguarda a vida de todo o mal. lar, amor e fortaleza naquelas duas mãos.






domingo, 26 de abril de 2026

o que todos gostamos mesmo

 





enquanto a minha amiga luta ferozmente pela sobrevivência num hospital longínquo, o homem que rega o talhão ao lado do meu na horta comunitária pousa o regador, levanta a camisola, e mostra-me a barriga. parece um balão, grande, vergando-se sobre zona púbica.

- está a ver? e é dura... preciso de a perder, mas nem sei o que fazer... é  que eu gosto muito de comer e de beber a minha pinguinha...

comentou ele como se aquele 'gostar de comer e de beber a pinguinha' fosse algo inegociável, algo imperativo. 

eu aqui, forasteiro, cansada de assistir a tanto sofrimento, tanta dor, de lá de longe, com o meu corpo a vibrar num misto de lamento e impotência, tentando receber alento da mãe terra, onde mergulho os dedos e destruo as unhas, suspiro, coloco os espinafres no saco e a mochila nas costas e digo-lhe

- sabe o que é que todos gostamos mesmo... sabe?

- não - respondeu enquanto regava os pimentos

- o que todos gostamos mesmo, é de ter saúde, e nem o sabemos. por isso, veja o que come e pense se vale a pena.

o sol já começa a moer-me a moleirinha, o corpo pede por água, e eu quero o abrigo da minha casa. 






domingo, 19 de abril de 2026

soltas

 





os tremoceiros competiram em altura com as couves galegas e o vento fez a habilidade de os tombar desordenadamente pela horta. encontro o pequeno espaço onde compito com os caracóis todo desgrenhado. a terra está dura para ceder às estacas que tento enterrar para trazer alguma ordem àquilo, enquanto o rapaz sua as estopinhas para arrancar da terra as couves vergadas pelo peso das sementes. foi arrastado à força, quase, para aquela tarefa, o rapaz que vive para a arte, habituado a telas, pincéis e canetas micron.

a mim, cai-me um desânimo trazido talvez pelo nevoeiro frio que se faz sentir nos ossos. têm sido tempos estranhos, estes, em que o passado entra aos rebolões e o presente escarnece da ideia de futuro. 

os caracóis ganharam terreno e nem os pequenos feijoeiros pouparam. presenteei-os com um granulado biológico como aperitivo para a próxima investida nas minhas poucas culturas.









quinta-feira, 26 de março de 2026

peito

 




naquele sítio onde se vê os interiores de quem por lá passa, a assistente pergunta com delicadeza:

toma alguma medicação?

olhe, tomo prás tensões, colestrol, pró estômago e prá cabeça... a funcionária sorri enquanto fecha a porta do vestiário por onde a mulher desaparece,.

eu, espero há mais de uma hora pelo homem que me fez apaixonar pelo meu coração enquanto o apontava naquele visor e ele, pequeno, em tons de vermelho e azul, trabalhava sem descanso para que eu continue viva. 

sorridente, pede desculpa, e, com a sua mão morna e macia, segura a minha, assegurando-me que se não esforço mais o meu corpo, não será por falta de competência do amor que guardo no peito.






sábado, 28 de fevereiro de 2026

Manhã

 




Quando levanto os olhos do telemóvel vejo que o dia nasce à minha frente, o altar espera que uma vela lhe seja acesa, e os jarros murchos pedem que, com alguma dignidade, sejam encaminhados par a compostagem.
 
O dia está silencioso e quieto. As casas do outro lado da rua parecem sombras chinesas. As gaivotas guincham ao longe, talvez acompanhando uma traineira que se aproxima com a garantia de alimento.

Algo dentro de mim ainda quer agarrar os sonhos que se esvanecem com o passar do tempo. E renovar-se.













domingo, 22 de fevereiro de 2026

hortelã-baunilha

 




a terra está pesada, ou eu estarei fraca de braços...

vou eu falando comigo mesma enquanto agarrada à enxada numa tentativa de fazer um buraco grande para enterrar o entulho. mas não é fácil. o peso da chuva ainda se faz sentir na terra compacta coberta de ervas que se dizem daninhas.

salva-me o senhor jeremias que se aproxima apoiado na sua bengala. só não precisa dela para trabalhar na horta. aí não lhe falha a perna. assim como eu, que chego lá toda escalhambada e logo logo fico boa. [o bem que isto me faz.... comento sempre nem que seja com as couves espigadas].

com os seus dois dentes e voz arranhada diz que viu o meu carro e foi visitar-me. oferece-me salsa e hortelã-baunilha para plantar. digo-lhe só, forasteiro, que aroma, que maravilha! 

jeremias e sua amiga bengala vão-se embora, devagar, pelo caminho estreito que divide os talhões da horta comunitária e eu derreto-me sempre com a ternura que vejo que sinto.