sábado, 17 de janeiro de 2026

frio

 




chego a casa. 

está frio lá fora. 

acendo a lareira em tempo record. 

ponho o meu jantar na mesa, frio, acabado de sair do frigorífico. tenho fome e cansaço. 

encho uma taça de espumante para acompanhar o strogonoff com chucrute. 

tenho muito para celebrar... todos os acordares da mulher mais velha, as palavras que correram da minha boca para fora, a saúde, o fogo, os sonhos que insistem em saltar do meu peito, a gratidão que mesmo assim não me larga num mundo comandado por loucos, os pés frescos e as costas quentes durante o sono, não ter de me levantar durante a noite, os rapazes nas vidas deles.

de tanto brindar fico atordoada.

a minha alma sorri...







quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

outra vez

 





a cabeça da mulher estava povoada de demónios. sussurravam-lhe ao ouvido, primeiramente durante a noite, e depois acompanhavam-na pelo dia fora. a dita acordava cabisbaixa, a noite era entrecortada com súbitos despertares aflitos, respiração acelerada, o corpo a tremer. seriam os espíritos que não regressaram lá para o canto deles das férias de natal, seriam os seus mafarricos passando-lhe rasteiras, seria uma qualquer prova de aferição, daquelas em que estava sempre a tropeçar. a mulher não sabia. apenas observava e sentia e pensava.

caramba tantos medos. não posso sentir medo pois o medo atrai situações das quais tenho medo... dizia  com medo de sentir medo com os pensamentos medrosos que lhe vinham à cabeça sem os conseguir controlar.

então trauteava aquela música que lhe tinha sido dada noutra realidade para qualquer aflição, entoava mantras embora desconfiando daquelas palavras em sânscrito que não entendia, fazia para ela mesma lengalengas que repetia sempre que estava só. garantia que o que sentia não era dela, e, a coisa começava a despegar-se-lhe, embora deixando côdeas, crostas, coladas na aura dela.

até uma próxima, em que a apanhem distraída, outra vez.








segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

dos dias livres

 






está um frio do carago... diz-me a dona Edith enquanto o vento corta-nos as bochechas entramelando-nos a língua no meio da conversa, ela toda empinada e eu apoiada na sachola. 

é o seu marido lá ao fundo? estranho eu pois o homem não costuma ter genica para aquelas vidas.

é, pois. veio trazer um saco de estrume de galinha para botar no compostor, anui com a cabeça que exibe um corte de cabelo novo. 

novo visual, dona Edith! reparo sorrindo. fica-lhe bem, fica mais fresca!

é, pois. envaidece-se determinada. tem que ser...

enquanto aproveito o embalo do vento cortante para sair dali, o meu pensamento cobiça aquele saco de estrume. caramba... o jeito que me dava para as minhas pencas raquíticas e brócolos enfezados.







sábado, 3 de janeiro de 2026

 





ele morreu-se-me.

nos dias atarefados que atravessam esta época a que chamam de Festas, o trabalho povoou-me as horas, as mãos, o cansaço. 

este ano não fiz telefonema nenhum a desejar bom natal... comentei e pensei inúmeras vezes... mas a quem não liguei também não me ligou... constatava...

e faltou-me o telefonema daquele amor tão distante a dizer-me 'fizeste um bom trabalho'... 'és uma grande mulher'... 'tens muito valor'... e eu a rir-me do lado cá respondendo, respondendo sempre 'tenho é muita sorte...'

é assim. há amores que se desvanecem e ficam numa amizade tão boa, num aroma de frésias, numa  brisa de vento sul num fim de tarde... raro, tão raro, mas tão mais verdadeiro do que o antes.

mas ele não me ligou e eu não lhe liguei e quando o fui procurar vi que ele se me tinha morrido, assim, sem aviso, assim depois do natal, assim como não devia ter sido, assim, do nada.

morreu-se-me e eu continuo como se nada  fosse não poder mais ouvir aqueles disparates todos pelo menos duas vezes por ano e dizer-lhe 'só de saber que existes traz-me paz'.





sábado, 20 de dezembro de 2025

desenho

 




o rapaz contradiz-me. 

ai... não digas 'não posso', não digas que não consegues! faz! experimenta! erra! não uses o lápis! usa a caneta porque assim vais estar mais atenta, pois não podes apagar!

quis o acaso do decorrer dos dias que as nossas manhãs comecem assim. ele a dizer-me, sobre o desenho, o que preciso ouvir sobre a vida.






domingo, 14 de dezembro de 2025

apesar de tudo

 






sentadas naquela roda onde uma vez por mês aquelas quatro mulheres viajam além do espaço, do tempo e dos mundos, uma voz silenciosa sussurra que o grande desafio para este ano que se inicia a partir do dia em que o sol começar a tornar os dias maiores, será manter o Amor, manter a Alegria, manter o Alinhamento, não nos perdermos de nós mesmas. apesar de tudo.






sábado, 6 de dezembro de 2025

O pai

 






O meu pai naquele pai. 

O homem forte, curvado, sorria com o ouvido encostado à porta do elevador. 

Ainda não chegou, pai... dizia o meu vizinho do rés-do-chão

O meu pai ouve mal... justificava ele falando comigo

Ah... este elevador é muito silencioso... sorria eu para os dois

Mas aquele pai, forasteiro, trouxe-me naquele momento o meu pai, a mão morna pousada na minha, a presença.  A Presença. 

E agora que aqui escrevo, passadas já tantas horas daquele pai no elevador, a pena que eu tenho de não lhe ter dado um abraço. Um abraço apertado, fundo, inteiro.




quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Amor

 




A mulher na fotografia abraça aquele seu amor tão mais velho. Terá pelo menos uns 30 anos mais do que ela.

No brilho do seu olhar enternecido vislumbro gratidão por tê-lo na sua vida, e comoção por cada dia mais ao seu lado, como um espanto amoroso por quem ordena esta roda do tempo, não lho ter ainda levado.



segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Eles

 





Eles dizem que vem aí uma vaga de frio, e dizem para se vestir várias camadas de roupa, e beber líquidos mornos, e comer sopa...

A mulher do outro lado do telefone é a mesma que de vez em quando me previne, uma vez que não tenho televisão 

Eles dizem que pode acontecer um apagão, eles dizem que a guerra... eles dizem que a crise... eles dizem que a gripe... eles dizem que o covid...

Eu ouço e acho que eles querem que se viva com medo, tolhidos, medicados, prevenidos, comandados...

O raio para eles... 






sexta-feira, 21 de novembro de 2025

o senhor carlos

 




o senhor carlos morreu. 

aquele homem rude, fluente em palavrões, com cerca de setenta anos e não sabia ler nem escrever, no século vinte e um, nem ele nem a mulher.

morreu. 

agora, ao domingo de manhã, já não vai ser ele a estrear o carreiro da horta que divide os talhões. serei eu, bem cedo, a dizer mal da fechadura, que perra, devia ter sido ele a abrir.

mas morreu. ele que me dava umas folhas de vez em quando e alfaces para plantar que nunca consegui que vingassem. dava-me a mim e a mais ninguém, que os outros, dizia ele, não eram de bem.

o senhor carlos, que dizia ter sido salvo por nossa senhora, morreu naqueles dias de chuva intensa que tudo varreu que  tudo alagou que tudo lavou. e ele foi-se sem que chegasse a dar pela  falta dele.

no meu altar, ficaram as sementes de abóbora, que o homem rude me deu, colocadas em forma de flor, para que os seres de luz cuidassem dele. e ali estão, agora à espera de terra fértil, para  que de alguma forma ele sinta o sol outra vez, para que de alguma forma, a luz o oriente.