quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Tona

 



Quando peguei no telemóvel velho, bloqueado há tanto tempo, e que naquele momento resolveu tornar-se outra vez acessível,  abri o bloco de notas e encontrei outra eu do passado. Os escritos, os relatos, os apontamentos, a inspiração...

Parece-me que esta que hoje lhe escreve, forasteiro, foi sugada por uma qualquer tecnologia invisível e parte dela tenta desesperadamente vir à tona.





quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Foto

 



Foi quando viu a foto que a mulher mais nova lhe enviou, com o bule, a pequeníssima árvore de natal e o guarda jóias replecto de bugigangas, que percebeu que apesar de todas as probabilidades de agravamento de acontecimentos que embobrecem a raça humana, os pequenos e insignificantes pormenores, as minudencias (diria Mr. X) do dia a dia, podem transformar e trazer calor à vida.

Poderia até dizer que uma jarra solitária, com uma flor, teimosamente em cima de uma mesa, talvez possa mudar o mundo, para melhor, por contágio, como aquele vírus, escapado não se sabe de onde, que também mudou o mundo, para pior, segundo dizem.




terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Acerto

 



Andou o dia todo a remoer - que sobrava tudo para ela, quem lhe iria fazer o trabalho, que o cansaço estava no limite, que não havia tempo para aquilo, que teria mesmo assim de ser ela a fazer. E fez. E quando fez, percebeu que tinha salvo o dia de outra mulher, uma mulher mais frágil, mais no limite 

Então,  chegou a casa, depois de tudo o que tinha remoido, retomou o trabalho,  e deu graças. Graças porque tudo se acerta, graças porque o amor escreve por linhas tortas, graças porque entendeu.




sábado, 16 de dezembro de 2023

Engano

 



Foi por engano que a mulher fez o telefonema para aquela com quem se tinha desentendido. Não era suposto o número constar da sua lista telefónica. Foi devido ao engano que a outra se abraçou àquela ligação e foi pelo engano que pode ensaiar uma ponte. Se não fosse o engano, continuaria aquele fosso cheio de palavras caladas, e graças ao engano pelo menos conseguiu fazer-se ouvida.

Daqui, esta que lhe escreve, forasteiro, e que assistiu ao engano, sorri. A vida é tão descarada, por vezes.




sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

celebração

 




uma vontade secreta de celebrar inquieta-lhe o peito. abre uma lata de sardinhas, aquece um pão congelado, abre uma cerveja. em frente está o menino jesus iluminado e aquecido por uma pequena vela. a árvore de natal alterna as cores que brilham, à vez, calmamente. o seu altar está apagado, mas ao pousar o olhar em cada imagem, em cada significado, em cada ancoragem, dá-lhe luz.

saboreia lentamente o repasto que se ofereceu, levanta a caneca onde borbulha a bebida gelada demais para o frio que faz, e agradece, agradece sem saber bem o quê, mas uma cura se faz algures, em alguém que não conhece, de forma surpreendente.






quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Passos

 



Um pé após o outro, um passo e de seguida outro, a pequena alameda pela frente, a insegurança por dentro, o caminhar seguro por fora, a oração murmurada, as pequenas vitórias íntimas. 

A mulher já perdeu a conta às vezes em que recomeçou na vida. Um pé após o outro... a oração... a vitória imperceptível...



quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Antecipadamente

 



Ser, interiormente, como se quer vir a ser, e representá-lo, para si mesmo e para os outros, no matter what. E continuar a ser, por dentro, por fora, antecipadamente.






terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Lost

 



Perdida na possibilidade de não conseguir chegar, escapava-lhe a realidade de estar a consegui-lo.






quinta-feira, 12 de outubro de 2023

chuva

 





a conversa das árvores que todos os dias me acompanham aqui do meu lado direito, mudou. o seu linguajar tornou-se mais miudinho e corrido. é a chuva, penso, as suas boas-vindas à chuva.

aqui, a que lhe escreve, forasteiro, traz dentro de si uma alegria inexplicável, injustificável perante os factos visíveis. será também da chuva?... será de distinguir, no escuro da noite, o brilho dessa mansidão molhando o varão imperturbável da varanda?




 

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Húmus

 




Chora, criança pequena, chora. Verte em lágrimas a vida vencida, dia após dia, ano apos ano. Derrama para a corrente que tudo lava a fragilidade mascarada, as tuas pegadas solitárias na incerteza do caminho. 

Chora, criança pequena, chora esse desamparo de outras vidas, toda a instabilidade das marés. 

Chora, criança pequena, chora. Desaba, estende a mão num apelo. 

E então, faz-te húmus. Recria-te.