quinta-feira, 15 de julho de 2021

dos dias

 




é verdade, forasteiro. hei-de dizer, provavelmente sem errar, que os meus vizinhos de horta já se habituaram ao meu modo lento de tratar da terra, ao banco onde me sento para separar as ervas daninhas sem danificar os meus amores-perfeitos. acho que já não me estranham e os seus comentários são espontâneos e alegres. lá está você aí à sombrinha a arrancar ervas... dizem eles, por vezes apontando que, no desgoverno, fulano ainda consegue ser pior do que eu.

mas, enquanto protejo tudo o que nasce espontaneamente, como as calêndulas, os espinafres, as beldroegas, as couves galegas, aquele carreiro de ervilhas que nasceu sem o semear, e, até mesmo os amores-perfeitos que se misturam com os feijões, vou pensando se mãe Gaia fala comigo, mostrando-me que tudo aparece no devido tempo,  se eu souber ver, se eu souber valorizar, se eu souber aceitar.

olho para dentro de mim e tudo me pede quietude. e quando Lhe peço um sinal, numa forma de linguagem que eu entenda e num doseamento que o meu corpo suporte, Ele gentilmente me traz verduras, textos, diálogos, músicas com palavras dentro.







quarta-feira, 30 de junho de 2021

passos

 



um passo atrás do outro, um passo atrás do outro, um passo atrás do outro, um passo atrás do outro

repete a mulher incessantemente enquanto alterna os pés, colocando um à frente do outro, fazendo do movimento passos e dos passos, caminho

um passo atrás do outro

enquanto recordava uma outra marginal, num outro tempo distante, em que as palavras que murmurava eram as mesmas

cada passo uma vitória, cada minuto uma conquista, cada passo uma vitória, cada minuto uma conquista

repetia, com os lábios escondidos pela máscara

queres que comece de novo mais uma vez... assim recomeço, assim faço

um passo atrás do outro, um passo atrás do outro

enquanto dá voltas ao quarteirão





domingo, 6 de junho de 2021

eu honro a minha cura

 




murmura a mulher com o joelho dobrado no chão, perante todos os seres que se fizeram presentes

eu honro a minha cura

eu alimento-me de forma saudável

eu venero o meu corpo

eu valorizo o meu cansaço 

eu estou aberta ao amor e olho com carinho para todos os desamores do passado

eu perfumo-me

eu abraço os meus prazeres

eu dou-me prazer

eu aceito a minha fragilidade 

eu ultrapasso com doçura os meus limites

eu permito-me desistir 

eu permito-me sonhar

eu aceito o caminho

eu sei que o que preciso para o meu crescimento virá até mim

eu sou o que eu sou e não aceito ser menos 

eu aceito a minha finitude

eu reconheço-me

eu cuido-me

eu respeito-me

eu honro a minha cura














quarta-feira, 26 de maio de 2021

sacos de supermercado

 




daqui, vejo passar uma pessoa curvada pelo peso da vida que escolheu. 

quer-me parecer que as pessoas se habituam até ao peso que carregam, a uma vida de aparências, a ser o reflexo do que os outros consideram bem. lembro-me de quando carrego aqueles sacos pesados, com quantidades mal calculadas de compras de supermercado.

deixa-me ajudar-te

dizem-me por vezes, e eu recuso. o peso dos sacos faz-me sentir com os pés rentes à terra. é assim como o lastro de um navio, concedendo-me algum equilíbrio. também assim será uma vida pesada, far-nos-á, por vezes, sentir aterrados, ou enterrados, pés afundados na terra, vivos aos olhos dos outros que se encantam com histórias tristes, com desgraça alheia. 

isto digo eu, que sinto que a minha leveza talvez me leve por vezes ao sabor da nortada, por alturas que me tornam invisível, até de mim, quando acontece não saber para onde vou, nem o que sinto, nem o que faço aqui.








terça-feira, 18 de maio de 2021

cozinha

 





enquanto saboreio os inúmeros sabores que tem o meu caril de lentilhas e grão, lembro a mulher de saia rodada e ancas largas que não mostra o rosto

cozinha para ti, filha. cozinha primeiro no coração, e depois, para ti. chega de pensar só no que os outros gostam. cozinha para ti e come, e bebe, por prazer. e faz um prato africano, em homenagem aos teus ancestrais da terra, aqueles que amaciaram o chão que tu primeiro pisaste.






elegância

 




depois de ter dado três pontapés na morte, de acordo com o relato do clínico, a tia só conseguiu um quarto na ala psiquiátrica da casa de repouso.

felizmente estou sozinha num quarto

conta a tia, cuja experiência anterior de permanência no local para uma recuperação de operação à bacia a tinha alojado num quarto partilhado

sobre o convívio à hora da refeição, a tia conta aberrações, que, com um pouco de sentido de humor, podem provocar alguns risos, de tão disparatadas que são

e tu o que fazes?

pergunta-lhe a irmã

às vezes rio para fora, outras, choro para dentro

responde, naquele conformismo que a elegância lhe permite e a situação aconselha







sexta-feira, 14 de maio de 2021

três pontapés na morte

 



quando a tia de 89 anos deu entrada na urgência do hospital, foi-lhe diagnosticada uma pneumonia

grave

disseram os médicos

associado aos problemas de coração, ficará nos cuidados intensivos

e assim ficou. e, dado a idade avançada ninguém acreditou que não morresse dessa. e mudou para um quarto, e mudou para casa, e de casa outra vez para o hospital

deu um pontapé na morte

disseram os médicos

uma paragem cardio-respiratória, associada às mazelas da pneumonia, ficará internada nos cuidados intensivos, e entubada

e assim ficou. e mudou para o quarto, e do quarto para os cuidados intensivos mais duas vezes

deu três pontapés na morte

disseram os médicos avisando que não sairia do hospital sem a cirurgia ao coração

três pontapés na morte, 89 anos e um cirurgia ao coração, ninguém acreditou nas melhoras

após a cirurgia, a tia renasceu, mas renasceu renovada com tudo a que um renascimento dá direito. passados dois dias pediu para ir ao cabeleireiro, manicure e pedicure, foi a casa escolher as toilettes, e seguiu para uma casa de repouso de luxo para poder fazer fisioterapia e recuperar a massa muscular

virei aqui dizer ao forasteiro a brevidade em que a tia voltará a se autonomizar. não demorará muito, certamente.







quinta-feira, 6 de maio de 2021

pássaro

 



o melro, julgo eu que será um melro, tem cantado durante todas as noites. não importa a hora a que eu acorde, no meu dormir turbulento, ouço a ave cantar. houve um tempo, povoado por dias difíceis, em que um canto amenizava as minhas noites, mudava o foco do meu pensamento para aqueles trinados improvisados ao ritmo da minha inquietação.

agora voltou. não sei se me embala a mim ou a alguma cria, ou se me vem lembrar que tudo passa, que deus tem formas irónicas de se mostrar, como nas penas de um pássaro negro.





quarta-feira, 28 de abril de 2021

Visível





A chuva cai mansa e determinada. É a chuva que eu precisava. 

Atravesso calmamente as ruas enquanto a água fria se faz sentir através da roupa fina e solta na minha pele e ignoro quem me olha. Talvez nem me vejam. Tendo a crer que quando o que esperamos da vida se desenquadra da matriz que a maioria traça, nos vamos tornando invisíveis. 

A solidão nunca me assustou, mas o que fazer com a minha invisibilidade torna-me apreensiva. 

Volto para casa. Escancaro as portas e as janelas. A música que se ouve é a da chuva nas folhas das árvores e os carros que rolam molhado. O lugar em frente ao computador que durante tantos anos ocupei desalmada, agora vazio, só eu é que o vejo. Não sei se não notam a minha ausência, ou se não notavam a minha presença. 





quarta-feira, 21 de abril de 2021

quinto

 




os seus sapatos rasos fazem perceber a sede de estar bem assente na terra. caminha com a consciência inteira de quem pisa com intenção, e quando vacila, enraíza. 'dá-me raízes, dá-me chão, dá-me equilíbrio, dá-me verticalidade', murmura com os lábios cobertos pela máscara, falando com Gaia. 

já na outra mulher, que caminha também com calçado raso, em passos cautelosos à procura de equilíbrio dentro dela mesma, é a Mãe que vai buscar a força. e por ser pisada por aquela mulher a Terra refresca-se e torna-se mais fértil. depois de ela passar, com os seus pés doridos das artroses, os joelhos frágeis da vida, nascem flores silvestres no caminho que ela trilhou.

'a força vem daqui', ouvi-a eu dizer em tempos idos, tocando com a mão firme no peito do marido. 'é daqui'.


usarás todas as formas de expressão para te manifestares. todas são válidas, todas desfazem nós, quebram comportas, descristalizam silêncios