sexta-feira, 14 de maio de 2021

três pontapés na morte

 



quando a tia de 89 anos deu entrada na urgência do hospital, foi-lhe diagnosticada uma pneumonia

grave

disseram os médicos

associado aos problemas de coração, ficará nos cuidados intensivos

e assim ficou. e, dado a idade avançada ninguém acreditou que não morresse dessa. e mudou para um quarto, e mudou para casa, e de casa outra vez para o hospital

deu um pontapé na morte

disseram os médicos

uma paragem cardio-respiratória, associada às mazelas da pneumonia, ficará internada nos cuidados intensivos, e entubada

e assim ficou. e mudou para o quarto, e do quarto para os cuidados intensivos mais duas vezes

deu três pontapés na morte

disseram os médicos avisando que não sairia do hospital sem a cirurgia ao coração

três pontapés na morte, 89 anos e um cirurgia ao coração, ninguém acreditou nas melhoras

após a cirurgia, a tia renasceu, mas renasceu renovada com tudo a que um renascimento dá direito. passados dois dias pediu para ir ao cabeleireiro, manicure e pedicure, foi a casa escolher as toilettes, e seguiu para uma casa de repouso de luxo para poder fazer fisioterapia e recuperar a massa muscular

virei aqui dizer ao forasteiro a brevidade em que a tia voltará a se autonomizar. não demorará muito, certamente.







quinta-feira, 6 de maio de 2021

pássaro

 



o melro, julgo eu que será um melro, tem cantado durante todas as noites. não importa a hora a que eu acorde, no meu dormir turbulento, ouço a ave cantar. houve um tempo, povoado por dias difíceis, em que um canto amenizava as minhas noites, mudava o foco do meu pensamento para aqueles trinados improvisados ao ritmo da minha inquietação.

agora voltou. não sei se me embala a mim ou a alguma cria, ou se me vem lembrar que tudo passa, que deus tem formas irónicas de se mostrar, como nas penas de um pássaro negro.





quarta-feira, 28 de abril de 2021

Visível





A chuva cai mansa e determinada. É a chuva que eu precisava. 

Atravesso calmamente as ruas enquanto a água fria se faz sentir através da roupa fina e solta na minha pele e ignoro quem me olha. Talvez nem me vejam. Tendo a crer que quando o que esperamos da vida se desenquadra da matriz que a maioria traça, nos vamos tornando invisíveis. 

A solidão nunca me assustou, mas o que fazer com a minha invisibilidade torna-me apreensiva. 

Volto para casa. Escancaro as portas e as janelas. A música que se ouve é a da chuva nas folhas das árvores e os carros que rolam molhado. O lugar em frente ao computador que durante tantos anos ocupei desalmada, agora vazio, só eu é que o vejo. Não sei se não notam a minha ausência, ou se não notavam a minha presença. 





quarta-feira, 21 de abril de 2021

quinto

 




os seus sapatos rasos fazem perceber a sede de estar bem assente na terra. caminha com a consciência inteira de quem pisa com intenção, e quando vacila, enraíza. 'dá-me raízes, dá-me chão, dá-me equilíbrio, dá-me verticalidade', murmura com os lábios cobertos pela máscara, falando com Gaia. 

já na outra mulher, que caminha também com calçado raso, em passos cautelosos à procura de equilíbrio dentro dela mesma, é a Mãe que vai buscar a força. e por ser pisada por aquela mulher a Terra refresca-se e torna-se mais fértil. depois de ela passar, com os seus pés doridos das artroses, os joelhos frágeis da vida, nascem flores silvestres no caminho que ela trilhou.

'a força vem daqui', ouvi-a eu dizer em tempos idos, tocando com a mão firme no peito do marido. 'é daqui'.


usarás todas as formas de expressão para te manifestares. todas são válidas, todas desfazem nós, quebram comportas, descristalizam silêncios



quarta-feira, 14 de abril de 2021

*












Sexto







Distinguir e alinhar

Sentir e distinguir

Intuir e distinguir

Distinguir e falar

Distinguir e amar

Distinguir e proteger

Distinguir e celebrar

Ser distinção







sábado, 10 de abril de 2021

do dia

 



sempre me fez mais saudades o futuro do que o passado. não sou mulher de lamentar a juventude ida, a infância passada, as crianças crianças. sempre tive mais pena dos sonhos perdidos, das desaparecidas vontades de palminhar caminhos. fui mais abundante a perder sonhos do que a agarrar-me a amores.

mas agora, não. apraz-me o presente, o café que saboreio, a caminhada que consigo fazer, o sol na minha pele, o feijão a romper a terra, a alegria da minha mãe e a satisfação dos meus filhos. a minha gratidão às vezes é tanta, que escapando-me das mãos, faz efervescer a minha alma. como hoje, naquela mesa de café, em que não consegui evitar um sorriso e os olhos cerrados em prece de agradecimento para aqueles que só eu via e que com amor me olhavam. 





quinta-feira, 8 de abril de 2021

Sétimo (2)

 




hoje disse-me, forasteiro, que já não é o tempo das rotinas. é o tempo de criar tempo para fazer acontecer, para abrir caminhos para o que está destinado a vir, chegar. é o tempo da alquimia do ser, da magia da essência se manifestar, da sincronicidade, da ressonância. 

e dos alongamentos, forasteiro, diz que é o tempo dos alongamentos para desobstruir os canais energéticos para que a energia circule e para que se sinta, e para que se ouça.





quarta-feira, 7 de abril de 2021

Sétimo (1)

 




então diz-me, forasteiro, que sem os pés bem assentes na terra nunca chegarás ao céu, céu, como quem diz, claro. se não honrares o teu corpo, o teu espirito não será honrado.

veio o forasteiro de tantas vidas atrás para me mostrar o caminho da simplicidade. 'amaciei o caminho para tu caminhares', sussurrou-me naquele outro tempo enquanto desenhava mandalas de pétalas na terra batida, num dia ventoso como o de hoje.






terça-feira, 6 de abril de 2021

Sétimo




Então parece me que é pela alegria. Não apenas aquela que se manifesta com um sorriso ou uma gargalhada perante uma surpresa boa, mas também aquela que nos transborda do coração de mão dada com a gratidão.

E então, forasteiro, estamos alinhados, assim me parece, mesmo sem o sabermos, perante uma flor, o sol nascente, todas as faces do mar, e dos rios, a centelha de esperança que sobrevive no meio do caos. Isso é espiritualidade.