quinta-feira, 2 de junho de 2022

Alma fresca



Foi pelo nome, forasteiro, que comprei o vinho (se é que é vinho), e que bebi no final da tarde desta quinta-feira. Pus as meditações de lado, e toda a espiritualidade se reduz às minhas pernas em descanso, uma brisa leve que roça o meu ombro nu, o som do recolher das andorinhas, as nuvens indecisas sobre onde verter a água do céu, e as luzes que rodeiam a capela, lembrando o santo padroeiro. Parece-me bem, forasteiro, e, atrevo-me à presunção de dizer que nada me falta. 






quarta-feira, 1 de junho de 2022

Mãos




Quando penso nas pessoas que ao longo da vida tenho deixado, nestas que nos dias gerundios vou aos poucos deixando, naquelas que no nevoeiro dos tempos reconheço de outras vidas e que aceito distância, no amor maior que de mãos abertas permito que parta, percebo que desta vez estou aqui para deixar de ter, para me libertar, até de mim.

Com as mãos com que em gratidão recebo, solto, também, em consciência. E solto-me.







quarta-feira, 25 de maio de 2022

Falar




O que me fica do que o homem diz, e o forasteiro já adivinhou por esta altura que o que me fica é sempre pouco, é que para dizermos uma palavra, inspiramos o ar que envolve tudo o que nos rodeia e expiramos o ar que envolve o que nos permite viver. 

E falamos, nesta constante comunhão, sem percebermos a vida em movimento.



segunda-feira, 23 de maio de 2022

trinta e um

 




às vezes teimam-se vidas numa insistência de identificação de almas, e, de repente, acontecem três palavras descuidadas, escapulidas em trinta segundos, para mostrarem que afinal, o caminho é não caminhar. então, no segundo seguinte decide-se largar o que durante tanta eternidade foi lastro em vendavais. 

assim, em trinta e um segundos, descaminham-se vidas vindouras.




segunda-feira, 9 de maio de 2022

porque não?

 




e a mulher que falava comigo ao espelho, propõe que em vez de antecipar a possibilidade de que algo corra mal e de o detalhar, que detalhe tudo de bom que poderá vir a acontecer.

o esforço é o mesmo

garante ela

tens um desafio e, em vez de calculares tudo o que pode correr mal, vais te focar no seu sucesso. experimenta...

diz-me, enquanto o sol entra na sua pele e ela bebe vagarosamente o melhor fino da aldeia







quinta-feira, 21 de abril de 2022

beberico

 





hesito em tomar um pouco do licor cor-de-rosa que os vizinhos me ofereceram, ou continuar a meditação. enquanto o pc soa incansavelmente OMs, eu beberico a bebida leitosa e demasiado doce.

Ele, que se manifesta enquanto amasso as massas que me dão o sustento, parece fazer ouvidos de mercador e não deita uma mão nisto, que se veja, ressalvo, dando-Lhe o benefício de alguma incapacidade de expressão. por isso beberico. 

saberá Ele, forasteiro, quantos seres estão em oração, de invocações em invocações, quantos seres deixam famílias em luto, quantos sofrem... que seja feita a sua vontade, mesmo que não a entenda, murmuro. 

enquanto isso, beberico.






terça-feira, 29 de março de 2022

teste

 




enquanto a mulher se assoa, pinga e espirra, espera o resultado do teste pousado no meio da barafunda dos lenços de papel. nem sabe porque o fez. ninguém sabe que o fez. uns dias sem trabalhar seria o descalabro. trabalhar doente seria uma irresponsabilidade. 

a falta que faz um emprego, pensa, sabendo de antemão que nunca se habituaria a um. ah... mas as regalias, receber sem trabalhar, poder ficar doente, poder ter  férias... mas as escolhas de uma vida levaram-na por outros lados. aquilo tão dito de que o caminho se faz caminhando... meu deus, por onde caminhei eu para chegar a este destino, já avançada no tempo de vida... murmura, sem respostas naquela casa vazia. felizmente vazia para que possa descansar um pouco, de ruídos.

olhando para o teste, mais uma vez negativo, levanta-se, ruma àqueles afazeres que preenchem os dias, sem justificação visível para parar. um dia ponho a mochila às costas e parto, promete ela a si mesma pela milésima vez. parto e enfrento os meus medos, os meus limites, o meu corpo, vou até onde puder ir, e depois volto, vitoriosa por poder desistir, se quiser.




domingo, 20 de março de 2022

da horta

 



enquanto comparavam a produtividade de cada um, o homem que todos os dias se desloca àqueles pedaços de terra para olhar para o que cresce, diz, da confusão que contornar amores-perfeitos provoca nos meus 40 metros quadrados

a sua não é uma horta, é um poema

e os outros riem




segunda-feira, 7 de março de 2022

pessoas

 















há pessoas que parecem ter a vida que sonharam. o Gustavo Carona era, para mim, uma dessas. Jovem, bonito, atlético, activista, a cumprir o seu sonho, o seu propósito, a sua consciência. Um dia destes resolveu expor-se, aqui

há pessoas que quando se expõem, tornam-nos mais humanas, menos sós, mais possíveis, mais terrenas. há pessoas que sem o saberem, são Mestres, expandem o espaço e o tempo, alargam horizontes.










domingo, 6 de março de 2022

Dos dias





Ai minha filha, se tiver que ser, será. Lembro-me bem de ir com a Ercilia para as filas do racionamento para arranjar comida... E olha, tudo passa. Estou aqui. 

Ouço a mulher mais velha dizer.