a cabeça da mulher estava povoada de demónios. sussurravam-lhe ao ouvido, primeiramente durante a noite, e depois acompanhavam-na pelo dia fora. a dita acordava cabisbaixa, a noite era entrecortada com súbitos despertares aflitos, respiração acelerada, o corpo a tremer. seriam os espíritos que não regressaram lá para o canto deles das férias de natal, seriam os seus mafarricos passando-lhe rasteiras, seria uma qualquer prova de aferição, daquelas em que estava sempre a tropeçar. a mulher não sabia. apenas observava e sentia e pensava.
caramba tantos medos. não posso sentir medo pois o medo atrai situações das quais tenho medo... dizia com medo de sentir medo com os pensamentos medrosos que lhe vinham à cabeça sem os conseguir controlar.
então trauteava aquela música que lhe tinha sido dada noutra realidade para qualquer aflição, entoava mantras embora desconfiando daquelas palavras em sânscrito que não entendia, fazia para ela mesma lengalengas que repetia sempre que estava só. garantia que o que sentia não era dela, e, a coisa começava a despegar-se-lhe, embora deixando côdeas, crostas, coladas na aura dela.
até uma próxima, em que a apanhem distraída, outra vez.

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