domingo, 22 de fevereiro de 2026

hortelã-baunilha

 




a terra está pesada, ou eu estarei fraca de braços...

vou eu falando comigo mesma enquanto agarrada à enxada numa tentativa de fazer um buraco grande para enterrar o entulho. mas não é fácil. o peso da chuva ainda se faz sentir na terra compacta coberta de ervas que se dizem daninhas.

salva-me o senhor jeremias que se aproxima apoiado na sua bengala. só não precisa dela para trabalhar na horta. aí não lhe falha a perna. assim como eu, que chego lá toda escalhambada e logo logo fico boa. [o bem que isto me faz.... comento sempre nem que seja com as couves espigadas].

com os seus dois dentes e voz arranhada diz que viu o meu carro e foi visitar-me. oferece-me salsa e hortelã-baunilha para plantar. digo-lhe só, forasteiro, que aroma, que maravilha! 

benjamim e sua amiga bengala vão-se embora, devagar, pelo caminho estreito que divide os talhões da horta comunitária e eu derreto-me sempre com a ternura que vejo que sinto.




1 comentário:

  1. Quase consigo sentir o peso dessa terra húmida e o contraste súbito do perfume da hortelã-baunilha. É uma cena que parece saída de uma película de 16mm: o caminho estreito, a voz arranhada do Benjamin e essa "ternura que se sente". Há uma dignidade mística na forma como o Senhor Jeremias e a sua bengala devolvem o ritmo ao mundo. Às vezes, o "entulho" que tentamos enterrar só precisa desse gesto de partilha para se transformar em jardim. Um texto precioso que se lê como quem respira ar puro. Maravilhoso. O meu domingo pedia precisamente este fôlego.

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