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segunda-feira, 15 de março de 2021

ao 61º dia

 




ao 61º dia, forasteiro, começa o desconfinamento e acaba-se o pretexto para adiar. convenhamos que as proibições assentam bem na maior parte das pessoas justificando decisões por tomar, situações a que se acomodam. 

*

dizem que amar é poder partir, e ficar. eu, que daqui vejo passar, ora o jardineiro de pessoas, ora a mulher que lavava futuros nas margens do rio, penso que amar também é deixar partir. 






quarta-feira, 10 de março de 2021

Carmim (corona - temporada 2 - dia 56)





Meu querido,

O dia cresce em carmim perante os meus olhos. As frésias na varanda disputam a cor com o céu e os amores perfeitos assistem a essa disputa com o sorriso de sempre.

Fazes-me falta. Falta-me essa mão, que sem tocar a minha, me conduzia pelos caminhos da poesia, da malícia, descortinava mundos para me enriquecer, firmava os meus pés na terra. Palavra atrás de palavra construíamos mundos onde nos despíamos e alegrávamos e onde as reticências eram os pequenos seixos que marcavam o caminho de regresso...

Criatividade, meu querido, que fazias germinar em mim. E haverá semente melhor para se depositar numa alma?

Entretanto o carmim diluiu e o dia tornou-se pálido, como tantos caminhos que traçamos.









segunda-feira, 8 de março de 2021

inconsciência (corona - temporada 2 - dia 54)

 




a doutrina

disseram-lhe, naquele caminho a caminho do deserto

a catequese

significaram

o que te ensinaram, o medo que te incutiram, a forma como o fizeram, esteve presente por toda a tua vida, mesmo que não tenhas tido consciência disso. por isso bloqueias, por isso há textos que lês e não sentes, por isso fugiste ao teu corpo, por isso o desprezo.

pensamentos, palavras, actos e omissões

como uma espada sobre a cabeça e,

deus que tudo vê e ouve e sabe

aterrorizando os dias. labirinto sem saída. tactuado num recôndito da inconsciência. 





quinta-feira, 4 de março de 2021

Às vezes (corona - temporada 2 - dia 50)




Às vezes o teu sonho é tão simples que nem o reconheces. E vives uma vida inteira rente àquilo que te faria feliz aspirando reconhecimento em algo que apenas te evidencia aos olhos dos outros. E vais mirrando, e a vida vai encolhendo, e o tempo atraiçoa-te fazendo dos dias a teia de aranha em que caíste e onde te custa mover. E um dia em que pediste ajuda em oração, os filamentos que te prendem começam a ceder, e ganhas coragem, e trocas o certo pelo inseguro, e embora sigas com receio, sabes quem és, encontras morada em ti, sabes por onde não queres ir, ao que não queres voltar, o teu sonho  começa a ficar nítido e vês que sempre esteve aí e que ainda há tempo. 

[haja saúde] 









terça-feira, 2 de março de 2021

Interesse (corona - temporada 2 - dia 48)




Ouvi dizer lá aos especialistas que o interesse acabou quando deixas de procurar saber quando ele/a esteve online.





segunda-feira, 1 de março de 2021

dos dias (corona - temporada 2 - dia 46)







toda a noite sonhei com marés vivas, mares onde não podia entrar, mares distantes. 
água representa emoções
ouço o homem terra dizer em tempos longínquos
farta. farta que estou de frases feitas, de clichés, de despedidas que repetem palavras que não se sentem, de saudações que não tocam sentimentos

tenho fugido
tenho fugido do amigo a quem foi diagnosticado um cancro, tenho fugido do amigo a quem morreu a mulher, tenho virado a cara para a história dos homens que se suicidaram. 
tanta gente que tem morrido. merda.

a vida dele não é a minha vida
ouço-me dizer repetidamente, como se tivesse descoberto um continente novo
e isto não é egoísmo, é desapego
insistia com o entusiasmo de quem tem uma epifania

mas não consigo. cola-se-me a emoção dos outros às entranhas, o corpo cede, e sinto, sinto muito, sinto demais.






quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

caminhos (corona - temporada 2 - dia 41)

 



o que tens feito?

pergunta o homem que andava ao contrário, à mulher que desfazia o caminho

ando a libertar-me do tempo gasto no que me faz mal

e os dois olham-se [longe da vista, longe do coração], e seguem em direcções opostas.





segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

do dia (corona - temporada 2 - dia 39)

 




do lado de lá do telefone asseguram-me que nunca nada voltará a ser como era, que o vírus veio mudar a forma de se estar para sempre e que está tudo estranho.

está tudo muito estranho

repete

e está. todos os dias no fio da navalha. todos os dias um plano que esfuma. todos os dias a incerteza. 





sábado, 20 de fevereiro de 2021

técnica (corona - temporada 2 - dia 37)




sabe, forasteiro, adquirir conhecimento é tornar-se responsável, e um dia, surgem as provas. sei que sabe do que falo. sei a técnica, sei das ervas, dos banhos, das palavras e das luas, sei os símbolos e sei dos mundos. 

está tudo na cabeça, forasteiro, na cabeça, quando devia estar no coração, na fé, na confiança, essa força que troca as voltas ao destino, essa força ígnea. 







quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

ao contrário (corona - temporada 2 - dia 34)

 



saiu para a rua ao final do dia e decidiu a meio do caminho que nada justifica o esforço de arrastar aquele cansaço tão inesperado, voltou para trás, para passados alguns metros encontrá-lo a sair, quando era hora de chegar, indo para norte, quando normalmente a essa hora dirige-se para sul

estás a andar ao contrário

disse-lhe

depois fez o resto do percurso a falar com aqueles que não se veem e a quem pede para que lhe coloquem no caminho tudo o que precisa ver e que o saiba ver, e entender, mas caramba, tudo ao contrário.






terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

do dia (corona - temporada 2 - dia 33)

 



forasteiro, hoje vi o mar. as ondas continuam mansas e a cor cinzenta parece o prolongamento do espírito das gentes que calcorreiam a marginal com a firmeza com que gostariam de traçar o futuro. há muito que os meus passos não são firmes e o meu equilíbrio instável. por isso me entendo com o forasteiro que hoje está aqui e amanhã onde a inclinação o levar. eu, tenho o presente. isto de chegar ao final do dia com os objetivos que tracei cumpridos, as contas pagas, comida na despensa, os meus abrigados, a vitória de tudo a que disse que não, a possibilidade de perseguir um sonho ou dois e um vislumbre enevoado do dia seguinte. e a saúde, senhor, saúde para todos nós.






segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

o mar (corona - temporada 2 - dia 32)

 




chegar ao final do dia e caminhar pela avenida que me conduz ao mar e começar gradualmente a ouvir o som das ondas e a sentir o ar húmido e frio da maresia. e não o ver, e aceitar a barreira, e regressar.

também assim é o amor. 




sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

dizendo que disse (corona - temporada 2 - dia 29)

 




a mulher que me conta da sua vida e me pede conselhos, faz-me regressar a mim. no que lhe digo, revejo-me, os seus desencontros assemelham-se aos meus, há anos que é o meu espelho. escrevo-lhe, em resposta ao que me escreve e aconselho-a a que quando lhe apetecer dar murros nos bicos das facas, que leia as nossas conversas. eu também o faço, e quando o faço, regresso ao meu centro, a moi même, digo-lhe, em tom de brincadeira, o que de mais sério lhe posso dizer.






quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Pide (corona - temporada 2 - dia 28 - caramba, 28 dias...)

 




até parece o tempo da Pide...

diz-me,   entregando-me uma caixa por cima do balcão, a mulher que não tem idade para saber como era no tempo da Pide. mas eu tenho, embora na altura não tivesse consciência da razão para as pessoas falarem em segredo das ideias que defendiam e se reunissem para ouvir a BBC.

com a caixa no colo, conduzo até um lugar escolhido pela mulher que me acompanha, depois de cruzarmos com vários carros da polícia.

dentro da caixa estavam duas bolas de berlim e dois copos, que, quando destapados exalaram o aroma de um café quente e espesso, desejado há tantos dias.

foi o segundo melhor café da minha vida e fez-me suspeitar, algum tempo depois, que estivesse a acontecer um pequeno sismo. e estava, mas dentro de mim, pois nada mais tremia a não ser eu, que estou proibida de tomar café, agora por todos lados.









quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

às vezes (corona - temporada 2 - dia 27)

 




às vezes cai o cansaço de estar sempre a fazer das coisas más, boas; da rejeição, amor próprio; do medo, coragem; do vazio, abundância; do silêncio, palavras e vem a vontade de deixar o corpo falar e lamentar e doer e parar. 

e para-se. e está tudo bem na mesma. 





segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

A mulher (corona - temporada 2 - dia 25)




Ouvindo aquela mulher eu senti e percebi que se reconhecer e aceitar o meu lado sombra, encontrarei a jóia azul turquesa dentro de mim, tal como o mestre me tinha dito. 

Se eu sentir inveja

Explica me ela

Vou olhar para o que invejo nessa pessoa e com isso subir um degrau, trabalhar para o atingir. Se eu sentir ciúme, ódio, sei lá, qualquer coisa, eu vou olhar para isso, e em consciência perceber porquê, e transcendê-lo.





domingo, 7 de fevereiro de 2021

é vida, tata! (corona - temporada 2 - dia 24)

 



é vida, tata!

diz a sobrinha do outro lado da linha, com um entusiasmo imenso por algo que era banal fazer há um ano atrás.

fizemos o teste em Orly porque cá não se paga, e fomos para Madrid. Sabes que lá há restaurantes e bares abertos? Bebi burritos de manhã, de tarde e de noite. e comi em restaurantes! É vida, tata! Tinha tantas saudades! 








sábado, 6 de fevereiro de 2021

Nabo (corona - temporada 2 - dia 23)




Nem será do tamanho de um rabanete, mas fez-me tão contente, o primeiro nabo da horta.

Contento - me com pouco, dirá o forasteiro, sem saber dos pedidos que faço repetidamente ao meu coração para que não se alegre para além da capacidade do seu batimento.

Um dia ver-me-à encantada por uma insignificância destas - a camomila espontânea no meio dos amores perfeitos, a calendula que nasceu por acaso entre as pencas.






sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

pêgas (corona - temporada 2 - dia 22)

 




as pêgas invadiram o espaço destinado às refeições dos pardais, o beiral do condomínio. e quando falo em pêgas, falo num bando de pêgas, mas de 10, seguramente, daquelas aves enormes, com longas penas pretas e brancas e que fazem aquele barulho horroroso, rouco. putas das pêgas. quem se vai lixar são os pardais.

e agora voltando ao meu lado zen e espiritual, acho que aqui está uma boa lição para retirar disto tudo:

deixa cada um tratar da sua vidinha e não te armes em lorpa a fazeres o que ninguém te pediu. todos têm bico e patas para esgravatar a sua comida, sejam grandes e catarreiros, sejam pequenos e fofinhos. 





quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

(corona - temporada 2 - dia 21)

 




e o amor, forasteiro? o que fazer com o que sobra quando a força anímica lhe falta?