quarta-feira, 4 de outubro de 2017

palavras










a mulher à minha frente tem cancro. é a minha professora de ioga. hoje foi-lhe anunciado, na escola onde dá aulas, que estava reformada. uma reforma concedida, ou imposta, a casos extremos de doença. então ela olhou de frente para a possibilidade de não ter muito tempo de vida para viver. a minha professora de ioga é minha amiga há vários anos e tenho assistido ao percurso dela de cura e reincidência, novamente cura e reincidência. a minha amiga tem 47 anos, é de estatura frágil e tem combatido o cancro recusando a medicina convencional. aliás, ela tentou a medicina convencional e sentiu-se morrer. desde então, tem recorrido a tratamentos chamados alternativos, porque, para ela, coragem, seria proceder de outra forma.
- tinha tantas saudades tuas... diz-me como estás, como te sentes.
- estou perdida ana, sinto-me perdida. tomei consciência de que realmente posso ter muito pouco tempo de vida e não sei o que andei a fazer nesta encarnação, não sei o que é esperado de mim, não sei como viver. olho para trás e parece-me que apenas trabalhei, cansei-me, desiludi-me com todas as pessoas que foram importantes para mim.
não chegou a falar das dores. chegaram os alunos e ela deu a aula impecavelmente, como nunca, do principio ao fim.
- tu estás aqui para viver, disse-lhe no final, como se fosse assim simples, viver. eu, que me pergunto tantas vezes onde vai dar o caminho que percorro todos os dias-
- estou perdida, ana, desorientada, e agora?
- agora tens tudo pela frente, tudo.
eu não sei o que fazer com as palavras.











1 comentário:

  1. só me apetece chamar-te coisas como:

    - meu amor.

    (a Cuca Laruca que se cuide :):

    ___________
    (és, seguramente, uma bela amiga para os teus, amigos, conhecidos, passantes de via rápida, uma pessoa rara :)

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