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sexta-feira, 22 de junho de 2018

mulher borboleta







a dor acabou naqueles 18 metros quadrados. do amor, vestiu-se a mulher borboleta quando decidiu partir no dia da festa do solstício de Verão, da colheita, da fartura e prosperidade. agora, a mulher borboleta segue guiada pela loba branca e ladeada pelas tribos que fizeram parte de todas as suas vidas. todos os animais de poder a vêem passar, todos os mestres a reverenciam. dos seus pés descalços, que pisam a terra macia enquanto caminha, solta-se pó prateado das fadas, e eu que o conto, eu o vi. para o caminho, pediu amor, alegria e flores.


mas tem-me faltado a alegria neste meu corpo dorido de tanta dor a que assistiu, nesta alma cansada de tão rendida. doí-me demais, e doo-me, ainda.
a mulher que tinha as asas tatuadas nas costas era resiliência, era lucidez, era luta, era dúvida, era frontalidade, era fragilidade, era determinação, era luz, era cura. era vida com vontade de viver.
queria eu que as palavras que escrevo me ajudassem a ver, que fossem alívio, que fossem descanso. mas não são. mesmo assim escrevo, sem conseguir enfeitar de meninices este texto, que devia ser de gratidão, e é, embora não pareça.














domingo, 3 de junho de 2018

18 metros quadrados











A mulher que dizem que carrega uma doença dorme. O seu corpo sobressai ligeiramente do colchão da cama articulada onde tem passado os dias.

Estou acamada
Costuma ela dizer, rindo. Rindo sempre.

Ontem foi um dia muito mau mas hoje está finalmente sem dores, e dorme. Cruza as mãos sobre o abdómen de uma forma que quando está acordada não é capaz. Elevam-se e baixam ritmadamente, enquanto eu vigio a sua respiração e leio o pequeno livro de capa azul que trouxe.

Disseram-me para ler esse livro
Diz o filho da mulher, enquanto prepara a medicação e o alimento
Deixo-te ficar, se quiseres
Dou por mim a dizer, sabendo que com isso largo pedaços de alguém que trago na pele como um furúnculo.  

Cada vez menos existe outra escolha para além do sono, ou a dor insuportável. Dou por mim a perguntar a Deus o porquê da necessidade da dor tremenda e contínua; deve ter sido um erro de cálculo, uma peça defeituosa na engrenagem da vida, uma porta enferrujada para a morte.
A vida neste quarto tão perto das gaivotas e das nuvens prateadas, com vista sobre toda a cidade tem sido assim. 18 metros quadrados de vida na profundeza da dor e da esperança.









quinta-feira, 31 de maio de 2018

Pelos







O gato branco invadiu o meu colo e espalha pelos por toda base do meu corpo ronronando e olhando-me com um olho verde e outro azul.
Eu odeio pelos.
Lá dentro o filho da mulher que dizem que carrega uma doença, arruma a cozinha e faz um bolo de banana. Antes de eu chegar deu lhe banho, penteou-a, preparou lhe fruta e foi -lhe dando lentamente de comer para que ela não vomite.
'Estou cansada de tanta coisa, tenho saudades de ver mundo'
Tinha ela dito ontem antes de eu sair. Foi a primeira vez que a vi triste e entristeci também.
'Acordou bem disposta e já nos rimos muito'
Disse o rapaz pela manhã
Os dois resilientes, os dois resistentes, os dois esperançosos, os dois toda a força de vida.
Eu, cansada e cheia de pelos. Conto sete. Sete gatos. E espero. Disseram -me
'Vem às cinco'
E afinal já passa das seis e só cheguei eu. Eu e os gatos. A mulher lá dentro com o terapeuta. O rapaz a tomar banho.
Tomara à mulher queixar-se apenas dos pelos dos gatos. Pelos por todo lado.







quarta-feira, 23 de maio de 2018

dos dias






...
deixa-me ajudar-te, pai. deixa-me ajudar-te
não, não. leva a comida que eu levo os sacos
responde o homem que equilibra no guiador da bicicleta três sacos pesados demais. mas sorria, enquanto o filho ia insistindo
deixa-me ajudar-te, pai
e sorria. e eu sorri para ele. e o filho naquela aflição de querer ajudar o pai. e o pai a brincar
eu não morro nem perco as calças
e eu a pensar que deus está no meio de nós, naquela simplicidade, naquele amor, naquela alegria
...
foi quando a mulher perdeu a confiança, que a doença ganhou força e se mostrou
a mulher que amparava os seus desabafos ainda lhe disse
volta ao ponto em que pioraste. aí, repara o que mudaste em ti, e refaz
mas quando se perde a confiança não há retorno. 
...










terça-feira, 8 de maio de 2018

Do dia







Envergonho-me por apenas ter para contar
- acho que só trabalhei o dia todo
Quando a mulher que dizem que carrega uma doença me pergunta como foi o meu dia
- e acho que foi igual ao de ontem
Talvez se ela pudesse, o dia dela seria de se sentir bem. Mas
- eu nem isso. Não saí daqui
Fui levar-lhe uma canja da avó judia e acho que isso salvou o meu dia, apesar do vento que quase me impediu de caminhar
...
Preparo um banho com flores frescas de alfazema e as minhas intenções são tão de dentro, que o meu corpo ferve sem ainda ter sido tocado pela água









segunda-feira, 7 de maio de 2018

o homem-criança








quando cheguei a casa da mulher que dizem que carrega uma doença, ela estava sentada no sofá com a expressão de um pardal que caiu cedo demais do ninho. ao lado dela, o homem-criança descascava, e partia em pedacinhos, fruta, que ia caindo para uma taça, colocada entre os dois. 
ele descasca a fruta com a cabeça inclinada para o seu lado esquerdo trincando a língua, que tem ligeiramente fora da boca, dobrada, numa figura cómica. mas eu chego lá tão cansada que nem brinco com ele. de vez em quando, oferece-nos, com a ponta da faca, pedaços de morango, maçã, ou manga desfeita, por ser madura demais.
a mulher que dizem que carrega uma doença, vai-se movendo com cautela, sem sair do lugar, como se tentasse escapar às dores que, nos últimos tempos, têm tomado conta do seu corpo franzino. digo-lhe que está bonita, que tem o cabelo bem entrançado.
- foi ele
responde, com o olhar implorando alívio a algo invisível
- ele fez-me uma massagem com óleos, fez-me uma limpeza energética, penteou-me, deu de comer aos gatos, limpou a areia, separou o lixo, limpou-me a casa e agora está a fazer salada de fruta para o jantar.

o homem-criança, não lhe é nada, e é-lhe muitas vezes tudo
- ele recusa crescer
dizia-me ela frequentemente
- estou cansada disso, não quero ficar mais com ele
e foi por isso que eles se separaram
lembro-me de há tempos ela perguntar
- o que é que eu tenho que aprender com ele?
e o oráculo da dona fernanda, antes de ser enterrado por baixo das raízes da arruda, a responder-lhe
- a ser criança, aprender a infância com ele. a leveza, a alegria, o desprendimento
então eu, também
- aprende a infância com ele
a tentar que ela entendesse. e ela entendia, mas não sentia, e sentir é um entendimento maior, é um entendimento que fica por dentro, paredes meias com o coração

o homem-criança saltita na casa dela, numa alegria que tenta derrotar a tristeza
- eu acredito que ela se vai curar. vocês parecem uma múmias...
ralha-nos
e eu abraço aquele homem-criança e renovo em mim toda a inocência da infância, a esperança, e, com sorte, a confiança, também, e rio com ele.








quinta-feira, 19 de abril de 2018

às vezes a vida








- ah...é por causa das taxas. são estupidamente altas e ele arriscou e mandou vir mais de 30 quilos de medicação porque está muita gente a precisar desesperadamente dela. agora, está a negociar a ver se baixam o valor, se paga o menos possível para desalfandegar
- e é por isso que ainda não tens o medicamento?
- sim... mas ele é fantástico. é muito humano, tratou-me muito bem quando eu não consegui levantar-me da marquesa com as dores. deixou-me ficar em casa dele, deu-me de almoçar...
conta ela do médico que diz que ainda não conseguiu desalfandegar a medicação que poderia curar a doença que ela tem, enquanto eu penso que é uma corrida contra o tempo.






segunda-feira, 16 de abril de 2018

do dia







a medicação que a mulher que dizem que carrega uma doença acredita que a poderá salvar está retida na alfândega, num braço de ferro contra o tempo que todos os dias a precipita em dores.
aconselham-me a que não me preocupe, mas não consigo, nem sei quais os mecanismos que comandam a preocupação para poder desligá-los. 











sábado, 7 de abril de 2018

se precisares









despeço-me da mulher que dizem que carrega uma doença com um invariável
se precisares de alguma coisa, telefona-me. não hesites 
ela acena que sim e
se tu precisares telefona-me também
retribui ela, enquanto me afasto
faço-lhe um sinal que sim, que agradeço a disponibilidade
ao subir as escadas que me trazem a casa, eu penso que a mulher que dizem que carrega uma doença poderia ser salva se alguém precisasse dela para se sentir bem










quinta-feira, 22 de março de 2018

tipo traça








a voz da mulher que dizem que carrega uma doença soou-me melhor esta manhã, quando lhe liguei com o coração pousado no outro sofá para não o sobrecarregar com a angústia da impotência.
[ainda bem que conservei a pequena borboleta dourada comigo.]
quando há dois dias a mulher que dizem que carrega uma doença, entrou em minha casa, à procura de comida e de um abraço e de uns ouvidos tipo ecoponto, vinha derrotada
- andei tanto para aqui chegar e agora morrer não pode ser... apareceram-me bolinhas em todo o lado que me doía estupidamente e não sei o que fazer.
ela vertia a alma dela para dentro do meu peito enquanto eu obrigava-a a levar empadas de frango e nuggets saudáveis para fazer no forno
- leva que é bom. são panados com iogurte e pão ralado feito cá em casa com pão fresco. tens que comer bem e descansar. 
ela ia rendendo-se ao que eu lhe pedia, enquanto a alma se tornava mais leve, e a borboleta lhe saltitava nos cabelos indo pousar na pálpebra.
- a minha borboleta pousou em ti...
alertei, para que ela não a magoasse, pensando cá para mim que era bom sinal
- tu tens uma borboleta?
- sim, vive comigo há tempo demais para ela
talvez à espera dela
[a mulher que dizem que carrega uma doença não estranha nenhuma das minhas estranhezas a não ser a disponibilidade para a ouvir]
na despedida
- dá-me um abraço. hoje preciso mesmo
- mas tenho medo de magoar as tuas bolinhas... 
enquanto fazia do meu abraço uma concha, e do meu peito um alívio











terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

despreparada









o pisco saltita debaixo da mesa da varanda, olhando cá para dentro. está frio. tenho as mãos geladas enquanto escrevo isto. a mulher que varre os passeios assegura-me de que eu fui pássaro noutra encarnação. deve ter reparado na quantidade de aves que aguardam que eu assome à varanda logo de manhã, para de seguida tomarem o pequeno-almoço às minhas custas.

a mulher que dizem que carrega uma doença diz que as dores são muitas e várias. eu insisto com ela para que tome um analgésico, mas ela teima que tem que entender o que a doença lhe veio mostrar, para que não se torne a repetir. enquanto isso calcorreamos a marginal. a noite está boa, e a maresia é a carícia que precisava. as pessoas admiram-se por eu ouvir a mulher doente, mas eu não consigo deixar de a ouvir e sei que a doença se alivia nas palavras faladas.

hoje o frio apanhou-me por dentro e não consigo encontrar palavras de amor.















quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

pardais, pisco e melros










foi o segundo dia em que a mulher não acompanhou as posturas que mandava fazer. tem dores, a mulher que dizem que carrega uma doença, e dá a aula com um ar sereno e um sorriso no rosto. de vez em quando, diz que parece um velho com a limitação que aquela contractura que diz que tem, lhe provoca. a mim, diz-me que lhe dói o corpo todo, que lhe dói a cabeça, mas que resolveu consigo mesma que as dores vão passar. eu sigo-a com a atenção de um cão de fila, noto-lhe os reflexos, a sombra no olhar, a saliência no ombro, o esgar de dor quando levanta o braço, e, de uma forma cuidadosamente doseada, digo-lhe que tem que dizer o que sente. 
chove muito e os pardais, o pisco e os melros abrigam-se na minha varanda.










quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

do dia









a mulher que dizem que carrega uma doença conta-me do seu dia, das dores que sente no corpo e das certezas no pensamento. e quer saber do meu dia - e agora conta-me tu, do teu dia. que o meu dia foi igual aos outros todos, respondo-lhe, com muitas tarefas e malabarismos no tempo. mas a verdade, é que tudo o que poderia contar se passa por dentro de mim, do peito como a maré. viste o mar hoje?







sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

não dói





o cancro não dói
diz-me a mulher que dizem que carrega uma doença
por isso estas dores todas que eu sinto, só podem ser um bom sinal. é sinal de que isto está a evoluir. o homem diz que é bom, para eu ficar contente
e a mulher fala enquanto conduz, com o olhar irrequieto saltando da estrada para mim, de mim para o volante, do volante para a estrada e da estrada novamente para mim. eu vou calada
por isso, se me dói, aqui, aqui e aqui, é sinal de que está num processo qualquer que pode ser de desinflamar. certo?
sim, tem lógica
respondo
mas se precisares de alguma coisa, a qualquer hora, seja quando for, por favo telefona-me
a mulher sorri. ela sorri sempre. é impossível avaliar as dores que ela diz que tem, a não ser pelo seu olhar saltitante
se a minha doença tem retrocessos, é porque ainda não atingi a serenidade que devia. de vez em quando vêm-me as zangas, as raivas. tenho que trabalhar mais o amor incondicional, tenho que me lembrar, tenho que integrar
podia ter-lhe falado do peso enorme que ela põe nos seus ombros, na responsabilidade, mas eu sei que o que ela me fala é a sua força para continuar, é o para quê dela
é difícil, sofia. às vezes as marcas estão tão dentro, tão fundo, que tem que ser muito lentamente que as expomos e olhamos para elas. mas é tão interior...
ela olha-me, curva a cabeça
obrigada por me ouvires. ultimamente despejo em ti todo o meu lixo
a mulher deixa-me em casa e segue sozinha. terá à sua espera os gatos e a casa fria. eu trago comigo a tristeza e a esperança a que me agarro com unhas e dentes. unhas e dentes, à esperança. pode ser que um dia ela consiga falar de trivialidades, de poesia, de roupas, do tempo, de músicas, de cinema, de política, em vez de falar de interioridades, em vez de se ouvir falar-me dos recônditos das suas vidas, dos padrões que repete, das mágoas que carrega. aí, qualquer um terá ouvidos para ouvi-la.










terça-feira, 2 de janeiro de 2018

dar de comer aos pombos







a mulher que dizem que carrega uma doença, fala-me das maiores atrocidades com um ar sereno, uma voz calma, dicção impecável e um sorriso no rosto. eu entendo o que ela me quer mostrar. que é tudo cíclico, que a vitima será o agressor, e o agressor a vítima, se não nesta, noutras encarnações. que a vítima, ao denunciar, tornar-se-á no violador, perseguindo sem piedade quem a violentou. 
- caramba, a denuncia tem que ser feita, tem que ter voz
ela concorda, mas que... eu entendo-a, mas bolas...
- são processos
digo-lhe. e nisto de lhe chamar 'processos' cabe tanta coisa, e concede-me algum descanso, na sua incapacidade de discordar
- o ser humano não evolui - diz ela - andamos há milénios a cometer as mesmas atrocidades, com máscaras diferentes
- eu acredito que evolui - digo eu - nunca existiram tantos trabalhadores humanitários, tanta gente a tentar fazer tanto por aqueles sem visibilidade mediática
ela olha para mim, com o mesmo sorriso, com a mesma serenidade, reconhece o meu cansaço, e resolve sair
ela vive remoendo encarnações anteriores. eu procuro entender o que sinto

enquanto escrevo isto, encontro aqui do lado esquerdo da secretária, um papel sarrabiscado por mim, onde anotei uma frase que ouvi no vídeo 'há pessoas para quem celebrar a vida é dar de comer aos pombos. há sinais, há sintomas de alegria, encontra-a, persegue-a, escava.'











quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

A mulher






A mulher que dizem que carrega uma doença, diz que a outra mulher ralhou com ela
- tu já estás boa! Tens que acreditar e comportar-te como tal. Essas coisas vão todas desaparecer
Tinha lhe dito
Mas a minha amiga não deixa de ter um brilho trêmulo no olhar enquanto diz
- pronto. Eu sei. Os mestres já mo tinham dito - que eu já não preciso da doença para nada. Pronto...
Como quem fala para dentro
Aquela pequena mulher não sabe o seu tamanho. Não sabe a amplitude da sua coragem. Enquanto olho para ela, lembro do homem terra
- tu estás boa
E eu, sem aceitar o que ele diz, continuo a procurar
- vem mais cedo para tratares de mim, vem...









domingo, 10 de dezembro de 2017

alívio








A mulher que dizem que carrega uma doença, está com um ar luminoso e um rosto radiante. Encontro-a na cozinha a preparar o seu remédio de fitoterapia.
- sabes
Explica-me, enquanto junta num copo colherinhas de diferentes pós.
- primeiro tratou-me das dores, depois fortaleceu-me, levou muito tempo... e só agora começamos a tratar a doença. É assim como se dessem prioridade à pessoa e a partir daí, à doença. Quando ele viu os tumores, disse 'isso é para sair', perguntei-lhe 'com cirurgia?' e ele, com expressão indignada, disse-me 'não! Com fitoterapia.' e é ele que faz praticamente todos os remédios. Os outros médicos ficam admirados quando me vêm. Como se não esperasse que eu ainda estivesse viva.
Na sala, as amigas defendem a mesa de jantar dos seus sete gatos, enquanto levamos a sopa.
- ficaste com dores na última aula?
Pergunta-me
- sim, no pescoço...
- ah...ainda bem. Eu também e fiquei a pensar se não seria algo novo...
Eu também respiro de alívio. Também eu tinha ficado a pensar...













domingo, 3 de dezembro de 2017

do sentir











a mulher que dizem que carrega uma doença no corpo, diz-me
- eu sinto-me tão bem!
ninguém que eu conheça, que se sinta bem, diz, daquela forma
- eu sinto-me tão bem!
e a mulher que dizem que carrega uma doença no corpo tem tumores espalhados por vários órgãos, um ou outro, visível, mesmo
- eu vou viver nesta forma de me sentir bem. os tumores estão cá, mas o que me interessa é que eu sinto-me tão bem!
a esta hora, já eu caio de sono enquanto ela resplandece de energia, mas fico tão feliz com aquele sentir-se tão bem, por ela, por mim, pela esperança, pela alternativa, pela vida











domingo, 26 de novembro de 2017

tu sabes









- tu sabes o que isto é
ele não me pergunta. parte sempre do princípio que sei o que vejo e o que não vejo
( - usa a tua terceira visão! vá. faz o teu trabalho...
  então eu fecho os olhos de ver e falo)
- sim, aqui na zona do laríngeo é tudo o que calei
ele bate com a mão aberta no centro do meu peito
- é tudo o que vem daqui, que tu não falaste. tanta vida sem falares... tanto tempo sem te permitires manifestares-te, sem mostrares sentimentos
- eu sei
( - tão mal que eu me tratei durante tanto tempo
  dizia eu à mulher que dizem que carrega uma doença
   - tanto que eu permiti )
- eu vou ajudar-te, mas tens que fazer a tua parte com todo esse sentimento, todo esse amor, todas essas emoções que não queres entregar a um homem, a um companheiro 
- não conheço ninguém que valha a pena
murmurei-lhe 
- eu sei, mas tu tens que arranjar forma de expressares o que sentes, o que sonhas, o que temes, seja de que forma for. não te cales mais, senão cristaliza-se, como agora. tens que partilhar, deixar a corrente seguir o seu curso, sem comportas, sem barreiras. agora sente. sente o calor da minha mão no teu corpo. apenas sente











sexta-feira, 24 de novembro de 2017

franzina











- agora eu sei porque vim
diz a mulher que dizem que carrega uma doença
- agora estou melhor
além da doença, a mulher carrega uma escola consigo, e espelhos, e ensinamentos, e força, e coragem, mas ela não sabe o tamanho que tem, aquela mulher pequena
- sabes, disseram-me duas coisas importantes na vida. uma, disse-mo o homem-terra, a outra, disseste-me tu
eu, que esqueço tudo o que digo, nada faço além de a ouvir
- um dia, o homem-terra disse-me 'se queres uma coisa, vai buscá-la! vai, não fiques à espera que venha ter contigo, vai!', e tu, um dia disseste-me 'põe a intenção daquilo que queres, em tudo, na energia que queres receber, em tudo...' tu não imaginas a força que me dá as duas coisas juntas
a mulher que dizem que carrega uma doença, veio buscar e veio trazer, força. ela nem sabe o quanto, naquela aparência frágil, franzina.