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domingo, 22 de janeiro de 2017

da invenção da saudade









“Tenho-me lembrado deles. Dos nossos primeiros antepassados, do tempo em que se inventaram as saudades. Os primeiros com consciência suficiente para sentirem a falta do sol. Para se regozijarem no seu regresso. Dos nossos primeiros antepassados capazes de observar que havia um padrão: apesar de numa dada estação os dias se tornarem mais curtos e frios, o sol acabava por se revelar invencível, e voltava sempre a aquecer os seus corpos e a garantir a sua sobrevivência. Graças à tribo, passaram o conhecimento desse padrão às gerações vindouras.

E assim, além das saudades, do medo e da alegria, se inventou a confiança.

(…)”



Fábio Barbosa, na Ophiusa











sábado, 17 de dezembro de 2016

she has won










I know a woman

who keeps buying puzzles
chinese
puzzles
blocks
wires
pieces that finally fit
into some order.
she works it out
mathematically
she solves all her
puzzles
lives down by the sea
puts sugar out for the ants
and believes
ultimately
in a better world.
her hair is white
she seldom combs it
her teeth are snaggled
and she wears loose shapeless
coveralls over a body most
women would wish they had.
for many years she irritated me
with what I consider her
eccentricities -
like soaking eggshells in water
(to feed the plants so that
they'd get calcium).
but finally when I think of her
life
and compare it to other lives
more dazzling, original
and beautiful
I realize that she has hurt fewer
people than anybody I know
(and by hurt I simply mean hurt).
she has had some terrible times,
times when maybe I should have
helped her more
for she is the mother of my only
child
and we were once great lovers,
but she has come through
like I said
she has hurt fewer people than
anybody I know,
and if you look at it like that,
well,
she has created a better world.
she has won.


Frances, this poem is for
you.








de charles bukowski para Frances, mãe da sua filha Marina











segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Avalon












“E então veio-lhe ao espírito uma recordação de Avalon, algo em que já não pensava havia uns dez anos: um dos Druidas, ao dar instruções sobre a sabedoria secreta às jovens sacerdotisas, dissera: «Se quiserem saber qual é a mensagem dos Deuses sobre o que dirige a vossa vida, reparem naquilo que se repete vezes sem conta; porque essa é a mensagem que os Deuses vos enviam, a lição cármica que têm que aprender para esta encarnação. Virá uma, e outra vez, e outra ainda, até que tenham feito dela parte da vossa alma e do vosso espírito corajoso.»
O que é que me aconteceu por mais de uma vez?....”


(Marion Zimmer Bradley - As Brumas de Avalon, O Rei Veado)













quarta-feira, 28 de setembro de 2016

permita-me











‘Espinosa volta-se e fala com toda a calma, à semelhança de um professor perante um aluno jovem: - Diga-me, Jacob, acredita que Deus é todo-poderoso?
Jacob anui.
- Que Deus é perfeito? Completo perante Si mesmo?
Novamente, Jacob concorda.
- Então, seguramente, concordará que, por definição, um ser perfeito e completo não possui quaisquer necessidades, não tem carências, nem quereres, nem desejos. Não será assim?
Jacob pensa, hesita, e depois anui cautelosamente. Espinosa repara no esboçar de um sorriso nos lábios de Franco.
- Nesse caso, - continua Espinosa, - eu defendo que Deus não tem quaisquer desejos acerca do modo como, nem mesmo se, O glorificamos. Então, Jacob, permita-me amar Deus à minha maneira.

Os olhos de Franco ficaram esbugalhados. Volta-se para Jacob, como se lhe fosse dizer: - Estás a ver? É este o homem que eu procurava.


'O problema Espinosa' de Irving D. Yalom













terça-feira, 8 de junho de 2010

yourcenar




















Marguerite Yourcenar nasceu há 107 anos













«Existem almas que nos fazem acreditar que a alma existe. Nem sempre são as mais geniais, as mais geniais foram aquelas que souberam exprimir-se melhor. São por vezes almas balbuciantes, muitas vezes são almas silenciosas.»













sexta-feira, 21 de maio de 2010

aqui











“A outridade é antes de mais nada a percepção de que somos outros sem deixarmos de ser o que somos,
e que, sem deixarmos de estar onde estamos, nosso verdadeiro ser está em outra parte.
Somos outra parte.
Em outra parte quer dizer:
aqui, agora mesmo enquanto faço isto ou aquilo.
E também: estou só e estou contigo, num não sei onde que é sempre aqui.
Contigo e aqui: quem és tu, quem sou eu, onde estamos quando estamos aqui?”



pela
Epee






[lembro-me de ti p, que me dizes sempre, quando te falo do aqui enquanto tu, aí - aqui é sempre aqui, não importa qual seja o aqui]








quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

porque escreve o senhor?











«Só então lhe fiz a pergunta que tinha guardado: porque escreve o senhor? A resposta foi imediata: porque posso. E sorriu. Como eu ficasse calado ele continuou. Uma pessoa pode escrever pelas mais diversas razões: por amor, por ódio, para afastar o tédio, para transfigurar a dor em ternura, para seduzir, para ser famoso e rico, para guardar algo que se viveu, por não saber fazer mais nada. Voltou a sorrir com aquele sorriso difícil de interpretar. E continuou: sabe, só há pouco tempo sei de facto porque escrevo. Escrevo por que vou morrer. É tudo.» escreves.



[meu querido, quando sinto este vazio na alma é a ti que procuro, é a ti que leio. vagueando por aí, pelas palavras dos outros, chego sempre aqui, a ti, aos teus textos, à maneira como ordenas as palavras, constróis frases, vidas.]