Notícias de bordo:
O manual anti motins unilaterais repousa agora, depois de muito folheado, com as instruções brilhantes, dos dedos untados com manteiga dos Açores, e, aqui e ali uma côdea de massa estaladiça de uma receita indecifrável, por entre mapas, definições e soluções.
Poder-se-ia dizer que é na cozinha que a velejadora encontra a paz, que é aí que comunga com a mãe terra criando alimento e nutrindo a única ocupante da barcaça, ela mesma. No entanto, a alma anseia por mais e outras alquimias, e voa, deixando o pobre corpo desgovernado, preso à instabilidade de uma colher de pau.
A linguagem estampada nas folhas daquela janela de escritos não lhe é estranha, as palavras trazem lhe conhecimento, trazem memórias de outros tempos, mas a alma queixa-se de que é árida e por isso insuficiente, e já sabemos como a alma é teimosa e faz birras de marés enchentes. [nunca esta alma se satisfez com técnicas e instruções rígidas. Falta-lhe o calor do espontâneo, a resposta imprevisível da carne e dos elementos]
Mas, se pensarmos bem, murmura ela, a palavra in-sufi-ciente parece ser
uma boa palavra, se atendermos a que os sufis pretendem construir uma relação
directa e íntima com Deus... e isso pode mudar muita coisa. E resolveu guardá-la no cesto bolorento das palavras uteis.

receita indecifrável
ResponderEliminarpara almas ansiosas e corpos desgovernados
(gostei muito, há palavras que não são inúteis)
É mesmo :)
EliminarFeliz Ano, Luis!
compreendo completamente essa falta
ResponderEliminarEu sei. Às vezes, enquanto escrevo, lembro me de ti.
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