sexta-feira, 27 de outubro de 2017

cagagésimo











saio a correr para entregar uma encomenda, passo acelerado para lá, passo acelerado para cá, subo os quatro ou cinco degraus da entrada do prédio e desequilibro-me. tenho que me segurar ao varão das escadas. chego cá acima insegura. voltam as memórias de quando não conseguia andar sem me apoiar nas paredes, de quando tinha medo das vertigens, de quando elas começavam durante o sono fazendo com que os sonhos começassem a rodopiar até que eu acordasse assustada.
lembro-me então daquela mulher nova, que caminha vergada com medo de cair, agarrada a uma ponta da camisola do companheiro. caminharia sem aquele insignificante apoio, mas não acredita. 'espera, luís, deixa-me agarrar', 'espera. luís, senão não consigo', 'espera, luís, senão caio'. e o luís espera, e o luís deixa. a mim parece-me que embora o luís esteja ali para ela se apoiar, o luís não está verdadeiramente ali. cansado daquilo, o luís deixa o corpo e parte para o seu mundo.
'ela precisa daquela incapacidade', diz-se dela, 'precisa que cuidem dela, que olhem para ela. por isso recusa-se a andar'. 'precisa, um raio', penso eu agora que estou perante um cagagésimo da dificuldade dela, 'precisa, um raio'. basta um estalar de dedos e tudo treme, tudo cai, tudo desmorona.









6 comentários:

  1. Ana, quem precisa nem que seja um cagagésimo, nem sempre, mas está em maus lençóis. Fica bem :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. um cagagésimo não chega sequer a um milésimo de milésimo :)

      Eliminar
  2. Às vezes apetece-me recusar andar. Mas não sairia do lugar.

    ResponderEliminar
  3. isso é gripe... infecção nas vias respiratórias, atinge o ouvido e mexe com o equilíbrio

    ResponderEliminar