"pela primeira vez digo que não, que não posso, que tenho compromissos marcados. sabe vizinha, análises para fazer. é que mais uma vez exigem-me trabalho extra, e eu sei porquê, porque sabem que preciso, e reparam que despacho tudo rápido para poder agarrar outros trabalhos que me ajudem a suportar as despesas. mas desta vez disse que não. eu sei que arrisco não conseguir pagar coisas importantes, a vizinha sabe bem, estas obrigações de todos os meses... ah, mas tantas vezes ponderei mandá-los plantar batatas e nunca o fiz por medo. sabe, por medo, e o medo tolhe. tolhe por dentro. mas eles são fracos, sabe? fracos por dentro, podres mesmo. deve ser esta a tal escravatura dos tempos de hoje de que falavam no outro dia nos noticiários..."
ela fala, sentada na varanda, no meio da confusão deixada pelos pardais, mas que a mulher nem repara. digo-lhe que não vejo televisão, nem ouço noticiários, mas que sim, existem formas de explorar sem ser chicoteando pessoas.
ainda tento que ela me fale das outras inquietudes da sua vida, para que ela distraia o pensamento, mas a dona fernanda beberica o chá que lhe ofereci, não sei se assustada com o futuro, se aliviada. "outro dia lhe falarei, vizinha, outro dia". eu saio e deixo-a ficar. baterá a porta quando sair.


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