A mulher cobre os ombros com o fino xaile branco feito de malha que, de tanto usado, conhecia de cor as formas do seu corpo e a abraçava como faria uma anciã, sábia dos seus segredos.
Senta-se na cama. A almofada acompanha a curva das costas e dá-lhe algum descanso. É hora de rever o dia que passou - a conversa com as amigas no café, a tarde toda encostada ao balcão da cozinha a fazer, sabe Deus como, o que tem de ser feito, os relatos da mãe conhecedora da vida de todos os vizinhos, os desabafos cansados da amiga, o sorriso, que apesar da sua determinação, tinha desaparecido vezes demais dos seus lábios.
Mas naquele momento sorri. Não lhe sai da cabeça o homem das botas desiguais. O pé esquerdo exibia uma texana, o direito calçava como um militar. Seria o homem um sonhador? Andaria com um pé numa realidade e o outro vivendo outras experiências, saltando da liberdade das pradarias para o rigor e obediência de um soldado? Isso poderia justificar o seu olhar azul infinito nos dias de sol, e verde-musgo quando invernava, a elegância poética com que a saudava, se a via naquelas horas em que o criador resolve pintar o céu de cores que enchem o olhar, e o ar sisudo das horas de obrigações que o afasta da cor da sua alma.
Boa estratégia, pensa a mulher. A ser verdade, bastaria iniciar o passo com a bota adequada para entrar numa realidade ou noutra, sem que mais ninguém se aperceba. A não ser ela, que traz também o mundo de uma cor por dentro, e, de outra por fora, que se refugia na maré vaza de um fim de dia de verão, enquanto as mãos enrolam empadas e pasteis de carne na cozinha.

Cada mulher encontra o sonho de uma forma específica. Julgo que só por ele as coisas por fazer aparecem feitas. Que o cansaço é grande castigo para se aguentar a frio. E talvez o que é das mulheres seja extensivo a todos os humanos. Contudo, ser segundo sexo nunca foi bom.
ResponderEliminar