terça-feira, 9 de junho de 2026

As voltas

 




O casal aproximou-se da máquina e tirou um ticket. Ele e ela sentaram-se ao meu lado.

- só tens de esperar que chamem o teu número e mais nada! - disse ela rispidamente, perante a intenção dele de se dirigir à recepção.

Eu observo o casal de esguelha, e inevitavelmente atento aos modos. Qual dos dois estaria doente, não percebi, embora ele parecesse mais frágil, com metade do volume dela.

Mas fiquei ali a pensar, até porque não tinha mais nada para fazer, nas voltas que os dias têm de dar para se transformar o entusiasmo de um enamoramento, naquela maneira de se mostrar, de se parecer, de se ser um com o outro. E mesmo assim permanecerem juntos, aturarem-se, cruzarem os olhares, um no do outro, sem se envergonharem.






2 comentários:

  1. Os enamoramentos são um princípio e não um fim. Mas há quem consiga a proeza de manter o amor até ao final e sofra a perda em ferida aguda. É difícil julgar quando nós não vivemos tal situação e ainda mais se apenas os olharmos por um bocadinho. E há rispidez só por fora, tive uma avó ríspida com o marido que era sempre de uma ternura sem par; mas as atenções que ela lhe dedicava, o modo como se preocupava com ele, sempre a traíram. E depois há um hábito de tudo do outro e os anos vão acumulando vazios não preenchidos. Mas repare que só um estava doente e ali estavam ambos. Não julgo que seja apenas por hábito.
    Bom dia

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sim, Bea, tem razão. Às vezes a rispidez pode esconder uma preocupação grande. Fui superficial, acho...
      Bom feriado!

      Eliminar