enquanto a minha amiga luta ferozmente pela sobrevivência num hospital longínquo, o homem que rega o talhão ao lado do meu na horta comunitária pousa o regador, levanta a camisola, e mostra-me a barriga. parece um balão, grande, vergando-se sobre zona púbica.
- está a ver? e é dura... preciso de a perder, mas nem sei o que fazer... é que eu gosto muito de comer e de beber a minha pinguinha...
comentou ele como se aquele 'gostar de comer e de beber a pinguinha' fosse algo inegociável, algo imperativo.
eu aqui, forasteiro, cansada de assistir a tanto sofrimento, tanta dor, de lá de longe, com o meu corpo a vibrar num misto de lamento e impotência, tentando receber alento da mãe terra, onde mergulho os dedos e destruo as unhas, suspiro, coloco os espinafres no saco e a mochila nas costas e digo-lhe
- sabe o que é que todos gostamos mesmo... sabe?
- não - respondeu enquanto regava os pimentos
- o que todos gostamos mesmo, é de ter saúde, e nem o sabemos. por isso, veja o que come e pense se vale a pena.
o sol já começa a moer-me a moleirinha, o corpo pede por água, e eu quero o abrigo da minha casa.


A horta ensina-nos o tempo das coisas, mas a vida tem essa pressa cruel de nos lembrar que somos frágeis. O que todos gostamos mesmo é de ignorar essa fragilidade enquanto o sol não nos mói a moleirinha. Que a mãe terra te devolva a paz que esse balão de impotência te roubou hoje. Um abraço.
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