segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

almoço











dona fernanda diz que vem comer uma sopa comigo, e se ela diz 'sopa', é porque sabe que não faço mais nada para a refeição, quando estou sozinha. então ela chega e traz com ela pumpernickel. ela lá sabe que eu gosto, pumpernickel com espelta que aquecemos na torradeira e comemos com ovo estrelado, e sopa, temperada com miso. 
desta vez ela vem calada e encontra-me calada. nem reclama do miso. então, além do almoço, partilhamos o silêncio, assim como se nos encontrássemos por dentro, naquele lugar onde o entendimento não necessita de palavras. 
lá fora o dia está lavado e frio realçando a temperatura morna da sala. ambas vivemos a tempestade, maior a nossa do que a que o tempo trouxe, e o frio que está lá fora, tentamos aquecê-lo por dentro.
- não há diferença, vizinha, não há. assim a terra e o céu, como nós, todos parte do mesmo turbilhão.
a dona fernanda fala comigo de uma forma que não fala com ninguém, de uma forma que ela pensa que só eu não estranho, de uma forma que lhe serve o silêncio como resposta. às vezes chego a pensar que a minha vizinha podia ser minha irmã.













7 comentários:

  1. não se pode dizer que seja a sopa dos pobres.

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    1. depende de quem a comer.
      boa tarde, Impontual

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    2. dependerá, por ventura, mais do predicado do que do sujeito.

      Como vai, ana?

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    3. da condição financeira, talvez.
      de momento não vou, mas se fosse, iria bem.
      Está bem?

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