domingo, 8 de outubro de 2017

manhã






















no momento em que lhe agradeço pelo lar, lar corpo, lar casa, lar terra, abro os olhos e o sol que nasce para lá das árvores e do rio que tenho em frente à minha varanda, faz com que me inunde do amarelo e verde das folhas e da luz tremeluzente da água. as sardinheiras que têm sobrevivido a dias e dias sem cuidados, sem rega, ainda oferecem cor-de-rosa e carmim. a gaivota ocupa o seu lugar na cruz no topo da capela e os pardais saltitam impacientes por comida. está vento, o vento que vem do sul. apenas o vento vem do sul, brinco comigo. 

em cada ponto do meu corpo que o homem-terra tocava, sentia uma dor que eu não sabia que tinha. ele diz que é bom, quer que eu fique contente por isso, que finalmente me permito sentir. as lágrimas que eu tenho vontade de soltar e que reprimo, não são de dor, são de alma, é também uma torrente desconhecida. não sabe o homem-terra que eu sinto demais, ele que vê as pessoas, por dentro, com os olhos fechados.

em vez de caminhar, escrevo, que é também uma forma de percorrer caminho. quando finalmente sair para a rua, já o barulho dos carros e das motas será insuportável para mim, e não passarei da rampa da doca onde a mulher lava o futuro nas margens do rio.

o coração que me pontapeia dentro do peito calça botas da tropa, só pode.














4 comentários:

  1. Que beleza de manhã, essa que regas com "lágrimas de alma"...

    ResponderEliminar
  2. Beijo de boa noite, que a manhã já lá vai :)))

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. e é quase segunda, aquele dia fatídico ...
      boa noite, Vânia :)

      Eliminar