sábado, 28 de outubro de 2017

homem-terra






















o homem-terra olha-me com aquele sorriso de quando não traz o mafarrico com ele, um sorriso assim que lhe faz enternecer os olhos e apoiar-se na baqueta do tambor como se fosse um esteiro de granito
- tu estás bem. mudaste tanto...
diz ele com orgulho e alívio, pois espera nesta encarnação livrar-se finalmente de mim
- já te aturo há tantas vidas...
e eu lembro da primeira vez que olhei para ele como se o tivesse visto na véspera, pobre, roto, vestido de mendigo. 
o homem-terra, enquanto passa a mão pelo meu corpo, percebe todos os medos que me acompanham e canta-me uma cantiga com uma linguagem desconhecida que eu reconheço, de tempos que não identifico.
- todos temos medos, dê a vida a volta que der. não te preocupes, tens que entende-los e aprender com eles. 
faz-me prometer que descanso, que caminho à beira-mar, e que trago a alma amarrada ao tornozelo para que não me fuja, e suspira
- ai...passas mais tempo lá em cima do que cá em baixo...












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