segunda-feira, 2 de outubro de 2017

a mulher























a mulher ao meu lado conta-me das suas estratégias para ultrapassar os ataques de ansiedade. diz-me que agora, quando sente que as forças a abandonam pede ajuda aos seus mestres espirituais, ao anjo da guarda e ao arcanjo miguel. dantes, diz ela, tomava um ansiolítico. 
ela fala enquanto eu conduzo. a mulher tem 40 anos, é franzina e pequena. tem um ar frágil, frágil, protegido por uma pele branca e fina e longos cabelos castanhos. 
quantas vezes me entedio a ouvi-la. é o género de pessoa que telefona e fica à espera de que se fale, do lado de cá da linha. então, eu, que não tendo nada para dizer, invento conversa e falo para ela ouvir, o que é desesperante para mim, que sou de poucas palavras faladas.
no meio da minha capacidade de me ausentar da realidade, enquanto parece que estou atenta e participativa, ouço-a dizer que nesses momentos que antecedem o pânico, também se lembra de mim, entre outras pessoas, para encontrar forças dentro de si. 
eu? pergunto-lhe, e olho para ela enternecida. enternecida pelo esforço que me exige tantas vezes encontrar paciência para a ouvir, pelas palavras que ela ouve de mim e que eu fico com a impressão de não serem minhas, pelo caminho lento e difícil que aquela mulher percorre interiormente, tão desvalorizado aos olhos dos outros, aos meus, que apenas disfarço melhor do que ela.











4 comentários:

  1. ...sabemos bem camuflar o que nos vai cá dentro, o que não é fácil, mas também não sei se é o melhor caminho...
    Bom dia, Ana

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  2. Boa semana, linda Ana.
    Beijo no teu coração. Sem camuflagem :)))

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