quinta-feira, 28 de setembro de 2017

impávida










a mulher à minha frente está impávida, mas não sei se serena. não estará certamente, embora o aparente. conversamos sobre os recorrentes casos extra-conjugais do marido. confirmaram-se as suas desconfianças. ele cortou com a primeira, presume ela, jurou ele que não reincidiria. e não reincidiu, com aquela, mas envolveu-se de igual forma com outra. a mulher não deixa transparecer qualquer emoção, apenas preocupação com a estabilidade emocional das filhas, e do futuro dele, sem ela. 'ele deixa-se aldrabar', explica ela.

mais embaraçada parece-me que fico eu, perante a nudez da vida dela, ali exposta à minha frente, uma vida que eu não queria para mim, pela falsidade, pelo engano, mas que tento amenizar, nela. justifico que há homens assim, que nem é por mal, mas que precisam de vencer no jogo da sedução para se sentirem valorizados como homens, no seu instinto básico de machos. 'tente perceber o que está por detrás disso, desse comportamento', saltam-me palavras da boca que não são minhas. não significa que não goste de si - dou por mim a dizer-lhe. 

a mulher, jovem, bonita, elegante, olha para mim sem que eu consiga perceber o que pensa. não estou a justificá-lo - explico - mas há homens assim - insisto, querendo fazer daquele caso uma banalidade, para que ela não se sinta desconfortável - a maior parte, parece-me. além disso, todo o tipo de relacionamentos é aceitável - e aqui tento que ela não se sinta mal com a escolha que sei que vai fazer, mais uma vez - desde que seja por mutuo acordo, desde que não se engane o outro - e aqui, pensei, pronto, contradisse-me... com o seu ar dócil, ela desabafa - pois é...









6 comentários:

  1. É uma pena insistir em algo que nos entristece. Por maior que seja o nosso esforço, determinadas escolhas nunca serão capazes de nos levar à felicidade.

    Beijos! ;)

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    1. mesmo assim, por vezes são processos que temos que atravessar.
      boa noite, Helena :)

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  2. Não há relações nem escolhas fáceis no amor.

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    1. gostava de acreditar que sim, Luisa.
      boa noite, nessa terra linda :)

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  3. Era incapaz de tamanha compreensão, recomendava-lhe logo que virasse a mesa, fechasse a porta, nascesse outra vez...
    ~CC~

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    1. às vezes o nascer outra vez pode ser com a reacção inversa :)

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