domingo, 30 de julho de 2017

#pareçoasvelhotasesecalharsou












lembro-me de, em tempos longínquos, um condutor ter batido na parte traseira do meu carro, e eu, assustada, mostrar-me pronta para assumir a culpa. só mais tarde percebi que a responsabilidade era do outro condutor. acho que foi a primeira vez em que disse para mim mesma
- que burra! partes sempre do principio que a culpa é tua.
mas não foi por ter consciência disso que mudei o que além desse adjectivo asneo, acrescento também casmurra.

hoje ele enviou-me uma mensagem às nove horas
- olá, bom dia
- bom dia. beijo
(eu a tentar despachar)
- que fazes?
- encomendas
- na rua?
- não, em casa
- estou à tua porta
telefonei-lhe e realmente estava à minha porta. tinha vindo de longe. eu, trabalhava, desgrenhada como sempre, ramelosa, preguiçosa, com a casa saída de um ataque terrorista, como de costume, e com trabalho que tinha aceitado porque preciso. 
o homem apareceu de surpresa e eu enfureci daquela fúria silenciosa que mina por dentro. troquei tudo o que estava a fazer, confundi alheira com vitela, frango com cogumelos, ofereci-lhe um café sem açúcar, e fui seca. mais seca do que o costume. fico como um animal enjaulado quando sinto que sou invadida. só falta espumar pelos olhos.
mas quando ele saiu, senti-me culpada. irreflectidamente culpada. por ele ter vindo em vão, por ter rejeitado o que me trazia, por ter-lhe dado um café sem açúcar,  por ter feito sentir que não era desejado.

- culpada porque o mundo é redondo. 
dizia uma mulher falando de outra, reconhecendo mais tarde que falava de si mesma também. 
sim, culpada porque o mundo é redondo. gerações e gerações atribuindo a culpa às mulheres. pela sensualidade, pela maternidade, pela educação dos filhos, pela harmonia familiar, pelo asseio do lar, pelo não sustento da casa, se trabalhando, pelo abandono da família. talvez coubesse aqui o hashtag da susana #parecesasvelhotas.

dizia a outra mulher, também naquela roda onde só se sentam mulheres, aquela mulher que eu gosto tanto de ouvir, pois quando fala traz o coração sangrando nas mãos e o brilho da lua no olhar, pois dizia ela 
- o respeito pelo meu corpo, acho que tudo vem daí, do respeito pelo meu corpo. culpo-me por não o respeitar.
então eu ouvia-a e concordava com ela, pensando
- o respeito por mim, ou antes, a falta de respeito por mim. culpo-me por não me respeitar, o corpo, a alma. lembro-me de oferecer o meu corpo sem desejar, de abrir mão da minha alma sem a respeitar.

não era isto que eu queria escrever, mas saiu-me. eu ia mesmo escrever é que realmente uso muitas ou muitos, não sei se são meninas ou meninos, hashtags. acho imensa piada clicar ali e ver o que aparece. então são: #vegan, #shiitake, #superalimentinhas, #corposfelizes, #vegetariano, e mais algumas.




















6 comentários:

  1. Nem sempre saem as letras que temos intenção de escrever, sairam as que sentias no momento e sairam muito bem. Boa noite ana

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    1. Às vezes parece que têm vida própria.
      Boa noite, Maria :)

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  2. A hashtagar dessa forma, dificilmente serás velhota ;)

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    1. Se hashtagar é condição, sou teenager :)

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  3. que engraçado, eu nunca uso hashtags, mas no resto sou parecida contigo, ana - também penso sempre que a culpa é minha.
    mas não é, realmente não é. só é a de #nãohashtagonada
    :-)

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  4. pois não é. mas às vezes tenho que fazer um esforço, grande, muito grande, para realmente perceber isso.
    #hashtaga-te #vaisgostar
    :)

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