quinta-feira, 18 de maio de 2017

breves noites










a mulher chega a casa, deixa a água tirar-lhe do corpo a poeira do dia, arrasta a âncora que lhe segura a alma para a mesa de cabeceira, e amarra cada um dos seus eus aos pés da cama e das cadeiras que trouxe para o quarto, para que nenhum lhe escape durante o sono. contudo, tem dias ou noites que pondera deixá-los ir. nem sempre a sua vida tem espaço para tantos eus e o seu corpo esgota-se com tantos empurrões. quando a apanham a dormir, fazem dela gato-sapato. de conluio com os sonhos, levam-na por medos, marés vivas, amores risíveis, impossibilidades, outros mundos. aí, a alma acorda-a e, procura poemas e textos que a ancorem, senão, reza, reza até adormecer outra vez, ou, na maior parte das vezes, até amanhecer.









1 comentário:

  1. Os seus eus raramente a abandonam que eu sei, por vezes adormecem mas depois voltam a acordar...
    Uma noite descansada ana :)

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