quarta-feira, 17 de maio de 2017

a mulher que trazia a batalha dentro de si










naquele lugar, duas pessoas tentavam compreender o seu caso de amor. estavam presentes, para além das duas, o controlo, o desapego e o amor. condição primeira para a comunicação ser feita, era a mulher que trazia a batalha dentro de si sair do mental e passar para o coração.
- eu quero, eu quero. eu estou a tentar - mas quando pensava que estava a tentar, regressava ao mental, quando apenas sentia, regressava ao coração. uma batalha dentro dela mesma.
o controlo estava alegre, eufórico, sempre que a mulher não conseguia estar no coração. quando ela, extenuada, baixava a guarda, e apenas sentia, o controlo começava a perder força. 
o desapego estava impávido, afastado da cena mas sereno. o controlo olhava-o com desconfiança, não queria aproximar-se, embora se risse para ele e fizesse piruetas, rebolava pelo chão de contentamento e gozo.
o amor foi-se afastando, não queria olhar para a mulher que trazia a batalha dentro de si. estava cansado e triste. só se sentia bem com o desapego. aninhado atrás dele, apetecia-lhe deitar com ele, entrelaçar as suas pernas nas dele, ficar ali aninhado. quando a mulher que trazia a batalha dentro de si, procurava justificações e responsabilidades, o amor criava remos nos braços e fazia-se canoa e remava para longe dali, ou então, virava um bichinho de conta e rebolava sem que ninguém o visse, dali para fora. 
mas, à custa de muito cansaço e muito tempo, a mulher que trazia a batalha dentro de si viu caírem-lhe as máscaras e o coração ganhar boca e gestos e começar a falar. foi quando o amor sentiu a verdade entrar, que levantou o rosto e olhou para a mulher que trazia a batalha dentro dela. estava exausto, deitado no chão, com vontade de dormir muito tempo. 
a mulher que trazia a batalha dentro do peito sentou-se distante do amor, pois ele não queria a sua presença, e perguntou-lhe o que sentia
- apenas me sinto bem com o desapego e só me interessei pela conversa quando me pareceu ouvir a verdade. estou muito cansado, muito.
a mulher que trazia a batalha dentro de si, chorava baixinho e dizia que ele tinha desistido dela. o amor, já com pouca força na voz, fez final com os dedos de que não, não tinha desistido, mas que ela tinha que trazer um sol dentro do seu peito. 
o amor, com os olhos fechados, quando olhava para as pessoas, vi-as crianças. e ficou ali, deitado, triste, a descansar de um cansaço profundo.









4 comentários:

  1. Respostas
    1. o que ela queria encontrar no outro, percebeu que tinha que procurar nela mesma.

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  2. Batalhas interiores não têm fim, se se resolve uma, logo aparece outra. Não se pode nunca deixar de lutar contra si própria. Beijinho ana

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    1. Eu ando em negociações para um cessar-fogo, Maria :)
      Beijinho

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