sexta-feira, 21 de abril de 2017

o vizinho, as vizinhas e a dona fernanda

























o vizinho:
por um triz que não me deu um beijo na boca. parece-me que se não fosse a sua proeminente barriga entre nós os dois, por entre os três abraços que trocamos na porta do elevador, tínhamos chocado com os lábios um no outro. 'sempre linda a minha vizinha', cumprimenta-me o vizinho da frente, aquele que eu considero 'o' meu vizinho, o vizinho ideal. está lá sempre e nunca me bate à porta. nem ele, nem a mulher. 'ai que bom, obrigada vizinho. ouvir isso a esta hora é mesmo bom', e rimos, como sempre, venha ele cansado, esteja eu cansada, rimos sempre. 'sabe que quando saio, por volta das oito e meia e sinto o cheirinho que vem de sua casa, penso assim: a minha vizinha já deve estar a trabalhar há muito tempo. olhe que é uma grande mulher'. 'acho que não, vizinho. por isso, acho que não', e fico a pensar na consciência que me pesa por não encontrar tempo para o lazer, por chegar ao final de cada dia sem paciência, sequer, para ler um livro. 'é vizinha, digo-lhe que é'. enquanto vou andando 'vou acreditar nisso, vizinho. o vizinho é que sabe'. e bom fim de semana para cá e bom fim de semana para lá.

a vizinha:
pára o carro a meio da garagem e desce a janela 'estás boa?', pergunto, encostando o meu lado esquerdo ao carro. 'olha tu, que me fazes começar o dia bem-disposta', e ela fala dos disparates que publico no facebook. falamos dos filhos, meus, e da filha, única, dela, e ela acha que porque tenho três não sofro tanto com as contradições deles, como ela, com a dela. pergunta-me como descubro aquelas palermices do facebook, e digo-lhe que vêm ter comigo. 'ah, é que a mim só aparecem coisas tristes, e vou ao teu e farto-me de rir'. 'sei lá, se calhar atrais', e rio-me com ela. quando tento endireitar o lado esquerdo, pondo-o para o direito, toda eu ranjo, toda eu me doo. 'ai, a idade...', e ri-se ela, que tem bem menos de dez anos do que eu.

a outra vizinha, a do rés-do-chao que diz que tem 250 anos:
'olha esta minha vizinha, que nunca hei-de esquecer um ano em que eu tinha o meu irmão tão doente, e no dia 30 de abril veio deixar uma raminho de maias na minha porta'. e põe uma mão de cada lado das minhas bochechas, e dá-me pancadinhas suaves, enquanto diz 'só pode ser boa pessoa, só pode', e eu vou pensando nas vezes em que não lhe atendo as chamadas, por falta de paciência, embora a vizinha seja sempre tão breve nas conversas.

e depois há a dona fernanda, aquela que aparece a horas impróprias e que fala como se estivesse sózinha. já não aparece há muito tempo.

foi a Miss, que me fez lembrar.













4 comentários:

  1. Olha, o que eu gostava mesmo é que fosses minha vizinha na vida cá fora. Assim, podíamos trocar raminhos de salsa, sorrisos e gargalhadas. Mas ter-te como vizinha aqui na blogosfera já é muito bom. Obrigada por seres tão boa vizinha.

    Um sábado feliz, vizinha bonita :)

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  2. Cada vizinho com as suas coisas. Acho engraçados alguns :)

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    1. de alguns, eu quero é distância, Maria :)

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