segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

um coração pequenino























perante as palavras que deixaste, cuidadosamente alinhadas, escolhidas, para não magoarem, o meu coração tenta a todo o custo enfeitar o que o cérebro lhe faz sentir, enquanto a minha alma diz que aceite, e que cresça.

mas é tão pequenino o meu coração, e bate tão desajeitadamente, que não pára de machucar e alisar todas as páginas. como se ao fazê-lo se recompusesse a ele mesmo de vincos, rasuras, encorrilhas, manchas de desapontamento, aqui e ali. depois, pega numa tesoura, e começa por destacar os parágrafos e de seguida as frases. percebendo que é impossível torná-las bonitas, de forma a que pareça que queres olhar para mim, desfaz as frases em palavras, como se fossem gomos de tangerina. então dispõe "impossibilidades" em forma de flor e no centro coloca o "não". mas como as impossibilidades são tantas e tantas e tantas, e os nãos tantos e tantos, faz um jardim de onde se liberta o perfume da relva fresca com a neblina da manhã...mas de repente...tudo se esfuma, e o pequenino músculo fica a olhar para as frases, implacáveis, polidamente inflexiveis, daquelas que as pessoas que leram e viajaram muito, sabem manusear, sem mácula. mas são frias, sabes, faltam-lhe a manta que cobre o meu pijama, o perfume que uso para me deitar, a mão que afaga o cabelo, a oração onde eu te guardo todas as noites. então, ele pequenino, separa as palavras e tenta compor o que queria que tu quisesses manuscrever-me. tenta outra vez, e cola-as em folhas caídas das árvores, castanhas, verdes, laranjas, grenas, vermelhas, amarelas. em cada folha uma palavra, que por estar separada das outras, torna-se inofensiva,"sejam", "os", "dias", "medidos", "em", "centenas", "ou", "milhares", "os", "dias", "tudo", "é", "um", "milagre", "existir", depois solta-as na maré vazante para que a água as leve até ao ponto onde o horizonte se une com o céu. excepto a folha amarela que tinha a palavra "milagre", essa resolveu guardar e está debaixo do travesseiro, ao lado da imagem do menino jesus. só assim entende que te vás, só assim, para que te volte a encontrar a cada outono, a cada ondular da maré.

como uma criança, abandonará a tarefa, vencido pela exaustão, e dormirá.

















10 comentários:

  1. no teu coração pequenino, ana, cabem todas as marés de um oceano.

    deixo-te um beijo no coração. :)

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  2. é o que têm de bom os corações, são pequeninos só por fora.

    estás bem, menina bonita?

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  3. oh, que linda que tu és, obrigada pela tua preocupação, estou. tenho estado mais quieta, apenas. às vezes gostava de poder não respirar para que não dessem por mim, quase invisível. sou uma tontinha, bem sei. :)

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  4. não respirar não é boa ideia. põe o manto da invisibilidade. fala com as fadas que elas ensinam-te :)

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  5. és muito bonita, ana. obrigada pelo carinho. :)

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  6. olha aqui: http://www.grandefraternidadebranca.com.br/manto_da_invisibilidade.htm

    depois diz-me se funciona :)

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  7. combinado! :)

    obrigada pela partilha.:)

    beijo-te a mão, hoje. se me permitires.

    cuida muito bem de ti, ana bonita.

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  8. fico à espera de noticias tuas, menina bonita, e abraço-te muito :)

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  9. Respostas
    1. Bem, escreves tu. Eu só me aproveito dos outros :)

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