domingo, 24 de janeiro de 2016

encortiço














aquela mulher aplaude o homem vencido, com o olhar cheio de admiração e carinho. bem penteada, bem maquilhada e bem vestida. tem um ar inteligente por fora. imagino as conversas que ela poderá manter com, talvez, ele, a compreensão, os conselhos, a capacidade de ouvir, de consolar sem que ele perceba. tudo sem qualquer vislumbre de desalinho. 
olho por mim abaixo, nestas roupas sem jeito com que te recebi esta tarde, ainda mal chegado e eu já a desejar partido, enrodilhada nos cabos do computador, com as meias a fugirem dos pés. com este feitio terrível de me salvaguardar só. enquanto o homem na televisão repete obrigado obrigado obrigado, e eu acredito que pelo menos metade dos agradecimentos fossem para ela. eu sei, com alguma inveja, que nunca serei assim, em nada, nem de perto. encortiço-me a cada dia que passa. 

(ele tem razões, eu tenho desejos, diz aquela mãe, sem maquilhagem, sem penteados. para mim, as eleições valeram por esta frase.)














dona fernanda
















a dona fernanda vem de votar. nunca falha uma eleição, mas desta vez vem com um ar fechado, opaco. olá bom dia e como está e o dia até está bom e já viu este calor uma pessoa fica toda trocada e vamos tomar um café e vamos. 
então dona fernanda confessa que acordou com um descontentamento sem explicação, pois desde ontem para hoje não se passou nada, só pode ter sido em sonhos, só pode, que ela todas as noites sonha com aquela criatura, como se os pesadelos não a largassem, e pronto, deve ter sido isso mesmo.
mas dona fernanda está aborrecida, mas aborrecida consigo mesmo. será que foi deus que me aparelhou com esta inconstância, pergunta-me sem esperar resposta, pois eu não estou ali para responder, mas sim para ouvir. será que sim? que esta inconstância não lhe dá descanso e a faz desacreditar do que sente, pois se agora que aquele homem se aproxima, aquele homem que ela dizia, claro que consigo mesma, que era o unico que ela conhecia que poderia fazer pandam com ela, pela penúria em que ele vive, pelas espiritualidades que ele procura, pelos caminhos que não querem trilhar. e não é que agora, agora que ele se aproxima com pretextos de trabalhos, trabalhos daqueles de negócios, ela faz questão de deixar os pontos bem nos is, de que é só mesmo para trabalhar, e que romance, temos pena mas já não quero, e que ate nem parece que foi ela a sentir o que já sentiu.

a dona fernanda não cabe em si de descontente com aquele dessentir, e mais uma vez promete fechar o seu coração àquelas possibilidades de amor que mais depressa desama do que ama.