quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

perdas




























eu gostava de não ser uma mãe tão cansada, pensa a mulher enquanto ouve as vizinhas falarem da maravilha que é o amor de mãe. a mulher cala-se, passa ao lado, faz de conta para não ser chamada para a conversa. diz sempre lá para ela mesma, naquela mania de falar sozinha, que deus distraiu-se, devia ter incluído na definição de mãe a impossibilidade do cansaço. do cansaço e da doença, que mãe devia estar isenta desses dois senãos.

é já noite, tão noite, quando acaba de trabalhar, e ainda tem em casa filhos que anseiam por mãe, e ela que perdeu o colo nas esquinas dos dias, que perdeu a ternura no passar do tempo, que perdeu o falar de amor no anseio de compreensão, que perdeu o abraço na desilusão da injustiça, que perdeu os afagos no seu corpo cansado. 

todos os dias promete a si mesma... já perdeu a lembrança do que prometeu a si mesma...
































és a melhor parte do meu dia.
e nada és.
e tudo és.
em ti descanso
em ti cresço
em ti confio
e nada és.
o tempo.
o dia.
a noite.
o acordar.
o adormecer.
o sol e a chuva.
a alegria.
a tristeza.
a saudade.
tudo.
nada.


















lhe

























a mulher vê os separadores que tem abertos no computador, e fica com o olhar parado. nada daquilo lhe faz sentido, nada daquilo tem interesse, para ela, claro, nada daquilo a acrescenta. dá-lhe vontade de mandar tudo às couves. nunca entendeu a confiança que depositam nela, ou antes, na sua capacidade de desenrascanço, nunca dizendo que não a nada do que lhe propõem fazer. no trabalho, claro, que depois, na vida pessoal é uma fartazana de dizer que não, assim como se se desforrasse. fecha-se em casa, acende a lareira, estica as pernas, e diz que não.