quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

devia ter adormecido outra vez, sim
































não volto a adormecer, disse-te. e não voltei. sento-me em frente à janela. o dia está cinzento. outra vez cinzento. as gaivotas, como de costume, voam em todas as direcções, como se gozassem com os pardais, que, todos arrepiados pousam na varanda para comer, a custo, a aveia integral que lhes deito. fico sempre a pensar que se apertasse um pardal na mão, ele desapareceria, de tão pequenos e frágeis que são. como um truque de magia. é por isso que gosto deles. pequenos, cinzentos e frágeis, e, no entanto, alegres e atrevidos.

vou-te contar. ando às voltas com as emoções. às voltas no pensamento, claro, porque por fora, tu sabes como eu sou, aprumadinha e serena. (conto doze pardais a sujarem tudo...olha já serão mais de vinte...) de vez em quando distraio-me e vem-me assim um anseio de abraço, de toque, dessas coisas de pele que tu conheces tão bem, depois, fico a pensar se esse anseio nasce porque ele, o alvo ou provocador da emoção, existe perto da minha vida, ou por outro lado, se é mais uma flutuação hormonal, mais uma armadilha do corpo em vez de uma comunhão de almas. porque a verdade é que passa, e depois volta, e passa e sempre volta, e eu fico assim, sem me reconhecer credibilidade alguma.

ai, meu amigo, meu amigo, as hormonas dominam o mundo, essa é que é essa, e, enquanto isso, vivem os espíritos nessa tentativa de manifestação, de harmonia, abafados pelo palpitar dos corpos.

diz-me ele, e tu sabes tão bem disso. que o desejo é a fonte do sofrimento, quando não é satisfeito. daí que, para encontrar o equilíbrio há que não sentir o desejo, a expectativa...ai, eu não acho nada bem. nada bem...haverá melhor do que um desejo satisfeito? não valerá a pena o risco da desilusão, da ansiedade?

mas, por outro lado, se Ele nos fez assim... poderá dar-se o caso de algum sadismo divino? (bato na boca...não está aqui quem escreveu...que sacrilégio, menina...)

















10 comentários:

  1. Mais vale um desejo insatisfeito do que não sentir desejo algum. Por vezes, os desejos mais turbulentos são os menos importantes, porque não amamos tudo o que desejamos.

    Um beijinho, Ana, e um dia feliz :)

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  2. será Miss? e aquela alegria luminosa dos monges budistas... confunde-me, até porque já tenho visto esse brilho em pessoas que caminham nesse sentido... enfim, baralham-me, mas também não é preciso muito para eu ficar toda baralhada... :)

    beijinho e um dia bom para ti também :)

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  3. A satisfação ou não do desejo. Eu como sempre diria que sim, que vale sempre a pena o satisfazer. Ficamos com aquele sorriso meio parvo e de "barriga cheia", até à próxima. Necessidade de satisfação. Um ciclo.


    Podia falar de coisas pousadas em mesinhas de cabeceira ou polvo, mas não o vou fazer!!!

    Beijinho Ana

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  4. O despojamento é um objetivo muito, muito difícil de alcançar para quem vive na nossa sociedade moderna e ocidental. Convenhamos que os monges budistas vivem em condições mais propícias a essa abnegação. Aprender a lidar com desejos insatisfeitos e aceitá-lo com serenidade pode ser uma via para aprender o despojamento. Pode ser uma oportunidade para compreender a razão pela qual o desejo não se realizou. Normalmente, acabamos a relativizá-lo e, quem sabe, a concordar que, afinal, não era assim tão importante. Este trabalho de aceitação pode ser mais profícuo e eficaz do que o de eliminar desejos. Aprender a sobreviver às frustrações dos desejos insatisfeitos leva-nos a concluir que a felicidade não depende inteiramente do exterior e que os desejos vão e vêm, mas somos sempre nós que ficamos. Todos os processos são graduais. Contudo, existem desejos positivos, como o desejo de iluminação e o desejo de querer o bem das pessoas e do mundo.

    Outro beijinho :)

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  5. Por vezes, até é preciso sentirmos dor para sabermos que ainda sentimos alguma coisa. Ter-se a sensação de que não se sente nada é pior do que a desilusão e a ansiedade... digo eu!

    Um bom dia, ana. Beijo

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  6. vizinha, vizinha, vizinha...já por causa das coisas eu deixo certas 'peças' por assim dizer, na mesinha de cabeceira...

    eu tenho andado à procura dessa resposta. toda a vida defendi isso mesmo, os desejos, as vontades, embora não sejam a mesma coisa. mas agora, e não é que as hormonas estejam mais calmas, que não estão, as danadas, começo a entender a serenidade que atingem algumas pessoas ao entenderem esses fluxos da existência...:)

    beijo, e parabéns!!!! hoje estás muito bem comportada... :)

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  7. Miss, tens toda a razão.

    eu acho que o grande desafio é esse, encontrar esse equilíbrio e serenidade no atropelo dos dias, das rotinas, das tarefas que se impõem.

    os meus grandes mestres terrenos, que não aceitariam que eu chamasse tal, são pessoas comuns, tarefeiros, sucateiros, desempregados, paus para toda colher, gente de familia ou não, um outro 'doutor' :) que têm em comum a serenidade, a aceitação, a humildade, a vontade de aprender. não vivem retirados em nenhum mosteiro.

    obrigada pela conversa, aprendo sempre contigo :) beijo!

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  8. deepLuísa, sei bem do que falas :) mas tenho esperança, de que passinho a passinho, consiga fazer essa travessia até um equilíbrio qualquer :) espero eu, se as hormonas não derem muito cabo da cabeça :)

    beijo*

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  9. tens que dar-lhe o desconto da idade...

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