quinta-feira, 15 de setembro de 2016

do dia de hoje e a escrever por escrever





















faz tanto silêncio aqui, que eu consigo ouvir as vozes de quem passa na rua. e tenho a porta da varanda fechada, que a garganta já se me queixa da mania de dormir com o vento a entrar toda a noite pelo quarto dentro.

ontem apareceu um passarinho novo. não era um pardal, era um passarinho mais pequenino, daqueles que eu estou sempre à espera. olha, apareceu e foi-se logo de seguida. ainda tentou entrar em casa mas chocou contra o vidro.

hoje esperei todo o dia pelo passarinho, e nada, só dezenas de pardais. também espero por ti, e nada, só dezenas de pardais.

há quase quinze dias que não vejo nem leio noticias. 

no café, a mãe conta à filha que acordou a meio da noite com uma coisa dura dentro da boca. pensou que fossem os dentes que só são dela porque os pagou, mas quando resolveu verificar com a mão, era a imagem em ferro do menino jesus, com que dorme todas as noites na sua mão fechada. rindo-se a filha diz-lhe que se morresse sufocada o corpo teria que ir para autópsia e o que diria o relatório...pior, o que seria a primeira página do correio da manhã...

enquanto cozinho peço a ógum que as pessoas comecem a preferir os cogumelos ao frango, estou cansada de cadáveres. passado um bocado, telefonam-me a pedir empadas de legumes e empadas de cogumelos shitake. 'as pessoas estão a virar-se para o vegetariano', disse-me o homem. e eu agradeço.

a dona fernanda passou cá por casa, fora de horas e toda desencontrada de si mesma.