a casa está morna, ainda, do tempo sem jeito que neste inverno não traz frio, e da lareira, que mesmo assim, acendo, para me aconchegar.
alimentar pardais podia ser justificação de vida... mas não é. criar filhos podia ser justificação de vida, mas não o é, também. cuidar dos pais devia ser justificação de vida, mas nem isso é. ajudar o próximo poderia ser uma boa razão para viver, mas não é, eu sei. tudo junto, daria uma boa causa pela qual viver, mas não basta. eu sei.
agarro-me a tudo o que é exterior para não trabalhar o interior, eu sei. fizeste bem questão de mo recordar, como quem, com paciência, esburaca a terra com os dedos, para arrancar uma raiz de trevo, profunda. 'são as sensações subtis, se não trabalharmos com exactidão somos absorvidos por elas', escreves-me, sem que eu te entendesse.
é tão mais fácil e confortável ajudar os outros, do que aventurarmo-nos a quebrar as barreiras com que nos protegemos dos medos de falhar mais uma vez, nas relações, no trabalho, com nós próprios.
é tão mais fácil o desapego dos outros, do exterior, e vens tu falar-me do apego a mim mesma... da responsabilidade pelo conhecimento que nos é dado aprender.
deixa-me com a minha lareira e com os pardais na varanda e com a preguiça em não ver...

