segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

maquilhada


























encontro-me, no tão desejado domingo, e, finalmente em casa, a pensar no correr dos dias e no queimar do tempo de vida, em rotinas e obrigações, sendo poucas, tão poucas as ocasiões em que me aproveito. 
são cada vez mais frequentes as vezes em que peço perdão a mim mesma pelo desperdício, de tudo, que não vou agora aqui enumerar as vontades postas de lado, os medos que me impedem, o acomodar a lodos macios, embora traiçoeiros e fedorentos. 
pergunto-me o que me poderia pôr mais em paz comigo e com a vida que me foi ofertada. pergunto-me o que me propus vir fazer a esta encarnação. peço-me, mais uma vez, que faça com que valha a pena.
enquanto isso, deparo-me com uma vida que construí e que me consome, em trabalho para pagar contas, em pessoas pelas quais me sinto responsável, mas talvez até nem seja. os tais acordos de vida, que podem ser quebrados a qualquer instante e que não quebro.
olho para a varanda, do meu lado direito, e vejo os pardais, as violetas sempre em flor, as mantas no sofá, a lareira com cinzas da véspera, o céu cinzento e a capela. lá dentro os rapazes dormem. o silêncio impôs-se há uns tempos para cá, e deixei de suportar a música. não há dúvida que a vida está bem maquilhada, mas à noite, quando lhe lavo a cara, nota-se a pele gasta e a nostalgia nos traços.

é segunda-feira, o meu corpo não quer de forma alguma sair da cama, mas eu forço-o. sento-me, dobro as costas de forma a encostar a cabeça no colchão, e as costas estalam. bebo água, alimento-me, escrevo o artigo que me pediram na sexta-feira. e recomeço.


se tu estivesses aqui poderia partilhar contigo as minhas dúvidas e as tuas certezas.