domingo, 31 de janeiro de 2016

mail













ela nem se aperceberia, mas recebeu um mail que, pedindo desculpa, dizia que o seu trabalho tivera que ser apagado, pois um anterior tinha sido feito, sem que o remetente do mail, o soubesse. ela lê e relê a mensagem. está habituada há muito, muito, ao mutismo, ao silêncio, à incógnita. daquela vez, alguém que ela não sabe quem, que a vida dela tem destas coisas de não saber quem, mostrava consideração. sim, consideração. mas o coração acaba por se encortiçar ao fim de tanto tempo de invisibilidade e a cortiça vai-se alastrando aos centros que permitem a expressão. bem, encortiçada estava ela a partir do peito para cima.
'agradeço a consideração demonstrada, mas não precisa desculpar-se. o tempo que gasto aqui, não é meu, é seu.' escreveu. carregou no botão de enviar e ficou a pensar 'merda, pareço uma prostituta'. ela não encontra diferença, gastar o tempo de sua vida naquilo, calada, é prostituir-se e ser mal paga.