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fujo. sim, fujo. daquele lugar onde habitualmente me sinto bem, me sinto inteira. quero sofregamente chegar a casa. quase me dispo pelo caminho. troco as botas por umas meias, a saia pelas calças do costume, o casaco pela camisola de sempre, tiro a roupa interior pela manga. abro a porta da varanda, acendo a lareira, trago cervejas e bola para o sofá, enrosco-me a ouvir o crepitar da lenha. nada mais. e escrevo-te. sei que estou irremediavelmente pior. um bicho do buraco. nem música, nem televisão, nem gente. aqui, estou eu, enroscada, e a lenha, que arde. é tudo o que preciso. agora.
saio para a rua vestida como não devia ir. nem meias calço. parece que arrefeceu e eu não me apercebi. coloco à volta do pescoço uma écharpe de uma cor improvável, já a saber que as pessoas vão ficar com os olhos colados nela e que nem vão reparar no que está do pescoço para baixo, no desalinho total, as roupas largas e sapatilhas velhas. por baixo destas coberturas vai o meu corpo todo contente. num sininho, sem nada que o aperte, com a maciez dos panos a acariciar-lhe a pele. eu, vou em passo rápido, rodopio no talho, balanceio-me na frutaria, saltito na peixaria. ouço aqui e ali um 'estás muito fresquinha...', 'pois estou, se estou'. é que arrefeceu muito e ninguém me avisou e eu tenho que passar muito depressa para o frio não me apanhar.
sabes, é tão bom respirar este ar frio e limpo da manhã. senti-lo entrar aqui dentro e fazer alegre o coração.
sabes, lá ao longe as ondas estão altas e desenrolam em câmara lenta. entrego-tas nesse espaço sem espaço, nesse tempo sem tempo, nesse encontro de almas.