sábado, 23 de janeiro de 2016

como um beijo

















como um beijo. como duas bocas que se juntam. como a saliva de duas bocas que se juntam num beijo. 

a luminosidade súbita do dia torna o mar cor de prata num reflexo de arrancar lágrimas, e eu, deparo-me assim, de repente, ao virar no semáforo da avenida, com aquela maneira toda que Ele tem de falar comigo. 
não fosse por uns poucos pedaços de azul, não distinguiria o mar do céu. a linha do horizonte, aqui, sou eu. o limite, a separação, a consciência de que há dois, em vez de um só, como agora, naquilo que vejo. 
mantenho os olhos, o mais que posso, abertos. a imagem há-de ficar, liquida, no meu olhar. como num beijo, quando nos olharmos, terás o meu mar e o meu céu, como um só, em ti. verás o que eu vi no brilho que te dou.

de regresso a casa a minha camisola de lã estranha-me. não é costume levá-la a cirandar com tanto calor. ela ainda não percebeu que é abraço e aconchego, muito antes de ser lã.

já em casa, retomo a refeição interrompida. como, à mão e em pé, o resto do peixe do almoço. que aquelas criaturas se refaçam em vida, em mim.



















olha, escrevo-te





























acordo sem saber que dia é. só passado um bocado percebo que é sábado e que o dia pode ser mais lento. espreguiço-me, a cama está morna e eu auto-amordacei-me com o lençol nas tropelias dos sonhos, os meus ossos estalam todos. além de gostosa, estou crocante, digo para mim mesma, como de costume, e deixo-me estar. dormi. e, todas as vezes que acordei, adormeci rapidamente, em vez de ficar aquelas horas todas à espera de não ter mais tempo, para adormecer outra vez. toda a noite, a sonhar, discuti e reclamei, mas ninguém me ouvia. os sonhos não me dão tréguas. 

ainda na cama, desejo-te um bom dia, telefono à minha mãe para saber se ela está bem. vejo que caíram mensagens de noite e que eu, nem com o gongo de aviso, acordei. reparo que a roupa deixada em cima da cama está gelada, faço pontaria aos chinelos, e, primeiro um pé e depois o outro e estou quase de pé, pelo sábado dentro.

na varanda os pardais esperam-me indignados com o atraso. o céu está cinzento e a temperatura do ar, morna. 

preparo a minha taça com cereais e escrevo-te. apanho a roupa suja para pôr a lavar e escrevo-te. como desalmadamente chocolate negro e escrevo-te. ponho cebolas de molho e escrevo-te. amarro o saco do lixo e escrevo-te. vejo como o técnico me deixou o computador e escrevo-te. escrevo-te e escrevo-te. o tempo foge e escrevo-te.