quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

mil e quatrocentos












encontro a dona margarida na rua, e segreda-me, 'mil e quatrocentos euros...e sobraram-me quase cem para este ano'. demorei ainda um bocado a perceber, mas logo me lembrei da bimby, daquela vez que tentaram vender uma bimby à dona margarida argumentando que 900 euros não custavam nada a pagar, se ela guardasse um euro por dia.
'mil e quatrocentos, dona margarida? que bom!' digo-lhe eu perante o ar radioso dela. 'sim, ninguém sabe... apanhei-me esta manhã sozinha em casa e contei. mil e quatrocentos euros, o meu subsidio de natal. se soubessem, iam pensar que estou rica, que o dinheiro não me custa a ganhar. mas veja, devem ser cerca de 4 euros por dia. nem sei como consegui...'
a dona margarida segue. parece-me que vai a falar sozinha, deve ir deitando contas à vida com a pequena fortuna que conseguiu juntar a custo. 'vou tapar buracos...' diz-me ela, olhando para trás, para o lugar onde fiquei parada vendo-a ir.
















mãos















as mãos que lavaram o meu cabelo, não são minhas. nem as que se demoraram no meu rosto num ritual de carícias aproveitando o aconchego da água quente, também não eram minhas. ao descerem pelo meu corpo, voltaram a mim, as minhas mãos, naquele sentir de quando nos tocamos a nós mesmos, aquela intensidade menor por não ser tocada por ti.
sozinha no chuveiro, eu sei que quem me lavou o cabelo e o rosto, já cá não está. pretextou para me afagar, como se um cego fosse, envolvendo-me toda numa concha que sendo das minhas mãos, não o era, pois nunca elas se tornaram assim dessa forma.

com as lágrimas que aproveitam para cair ao corte de uma cebola, eu sei que são mais os mortos que me querem realmente bem, do que os vivos.