sábado, 26 de dezembro de 2015

é sábado































a mulher saiu para a rua renovada em esperança. as conversas com o homem-terra têm o condão de a fazer regressar a si mesma, e a ele também, ela sente-o. 
- mandaste-me tirar os ovinhos debaixo dos braços - diz-lhe ele - é o que estou a fazer...
ela sente ternura por aquele homem, trabalhador nas coisas da terra e da alma. espírito em sintonia com o dela, tantas vezes demonstrado com um telefonema
- que se passa contigo rapariga, que me andas a picar o miolo desde manhã? diz lá...
e ela já a saber que ele ia telefonar com aquela pergunta. pois quando a vida lhe está mais pesada, quando ela se sente caída numa teia de aranha, quando o mundo desaba, ele sente e sai em socorro, da forma que pode, nem que seja para lembrá-la do mar
- vai ao mar, vai molhar os pés que ficas melhor
e ela fica.
já quando é ela que o sente, lá dos outros lados das pontes que os separam, com os ombros vergados pela vida, liga-lhe ela
- que se passa mafarrico? o que andas a pregar aos outros que não praticas na tua vida?
e riem-se. e emendam-se. e crescem como quem sabe que caminha junto há muitas vidas.
...
sabes, e isto agora é para ti,
as gaivotas estão em alvoroço e o mar está alto e turbulento, o rio corre impávido e sereno, com a calma de quem conhece o caminho e só as margens de si mesmo o condicionam. é sábado. pudesse eu ser rio. 

pudéssemos nós ser foz.