A mulher cobre os ombros com o fino xaile branco feito de malha que, de tanto usado, conhecia de cor as formas do seu corpo e a abraçava como faria uma anciã, sábia dos seus segredos.
Senta-se na cama. A almofada acompanha a curva das costas e dá-lhe algum descanso. É hora de rever o dia que passou - a conversa com as amigas no café, a tarde toda encostada ao balcão da cozinha a fazer, sabe Deus como, o que tem de ser feito, os relatos da mãe conhecedora da vida de todos os vizinhos, os desabafos cansados da amiga, o sorriso, que apesar da sua determinação, tinha desaparecido vezes demais dos seus lábios.
Mas naquele momento sorri. Não lhe sai da cabeça o homem das botas desiguais. O pé esquerdo exibia uma texana, o direito calçava como um militar. Seria o homem um sonhador? Andaria com um pé numa realidade e o outro vivendo outras experiências, saltando da liberdade das pradarias para o rigor e obediência de um soldado? Isso poderia justificar o seu olhar azul infinito nos dias de sol, e verde-musgo quando invernava, a elegância poética com que a saudava, se a via naquelas horas em que o criador resolve pintar o céu de cores que enchem o olhar, e o ar sisudo das horas de obrigações que o afasta da cor da sua alma.
Boa estratégia, pensa a mulher. A ser verdade, bastaria iniciar o passo com a bota adequada para entrar numa realidade ou noutra, sem que mais ninguém se aperceba. A não ser ela, que traz também o mundo de uma cor por dentro, e, de outra por fora, que se refugia na maré vaza de um fim de dia de verão, enquanto as mãos enrolam empadas e pasteis de carne na cozinha.

Cada mulher encontra o sonho de uma forma específica. Julgo que só por ele as coisas por fazer aparecem feitas. Que o cansaço é grande castigo para se aguentar a frio. E talvez o que é das mulheres seja extensivo a todos os humanos. Contudo, ser segundo sexo nunca foi bom.
ResponderEliminarTemos de encontrar uma forma de resistência para que a capacidade de sonhar não desapareça. Bom fim de semana, Bea 😊
EliminarBom, numa Unidade Curricular específica eu tenho que pedir aos alunos (adultos) que se descalcem. Este ano uma das estudantes trouxe sempre meias desiguais, nunca perguntei nada, mas uma vez olhei. E ela disse que era contra coisas iguais e que um dia se tinha fartado de emparelhar meias. O seu homem das botas desiguais tem um espirito pelo menos inconformista ou então já não anda bem cá neste mundo, anda noutro carreiro...por vezes também nós andamos um pouco por lá, não é?!
ResponderEliminarQuantas vezes parecemos estar cá e estamos lá... 😊
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