sexta-feira, 30 de março de 2018

longínquo







primeiro deixou de tomar café, depois espaçou longamente o que a pudesse inebriar, de seguida reduziu os hidratos de carbono, eliminou o sal, o açúcar, a carne, e os lacticínios, e afastou-se, dentro do que lhe era possível, de tudo o que pudesse colocar o coração naquele bater descontrolado. deixou também de ver televisão, ir ao cinema, e mesmo os percursos que fazia de automóvel, eram em silêncio, raros eram os momentos em que a música preenchia a ausência de sons. os livros amontoavam-se no chão do quarto e da sala, com a leitura inacabada. tinha desaparecido a poesia, mas o seu coração há muito que não batia de forma tão regular
também o perdeu nas palavras que lhe faltaram e quase esqueceu o seu nome. ele tinha-se transformado num paradoxo longínquo. no entanto, a cada mínimo sinal dele, ainda os olhos se humedecem de comoção.  










6 comentários:

  1. até a mais pequena arritmia pode por vezes despoletar um misto de emoção e soltar os sentimentos.
    uma pequena extrassistole ventricular para fazer lembrar um coração esquecido que ainda pode palpitar no peito!

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  2. Respostas
    1. vento, frio, chuva e granizo ...

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    2. já mandei... mais alguma coisa?
      (e o ferro? tens dado ferro à máquina?)

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