quarta-feira, 13 de maio de 2020

peregrinação









foi quando ela me respondeu
desencantada
que as lágrimas correram mansas pelo seu sorriso formando um abraço liquido por baixo do seu rosto
eu sei que para aquela mulher, perder o encanto, é desacreditar na magia que lhe torna possíveis os passos no terreno dos dias, que lhe dão o ânimo para colocar um pé a seguir ao outro e traçar o caminho por onde caminha, mas, talvez esse desencanto seja uma peregrinação para dentro de si, neste dia 13 de maio em que as peregrinações não se fazem com o corpo










terça-feira, 12 de maio de 2020

ἐνθουσιασμός









tenho uma tarantella dentro da cabeça
sussurrei esta noite como se ele me pudesse ouvir
e tinha
a minha alma trazia um vestido rodado e rodopiava, descalça numa estrada de terra batida provocando um redemoinho de vida, de corpo, de suor, de grito, de sagrado, à minha volta
enthusiasmos
ecoava dentro de mim. mais significado do que palavra. voz sem rosto nem língua.
tenho uma tarantella dentro de mim e um corpo que desconhece a idade e uma alma que não conhece distância, a meio da noite, enquanto tudo dorme




















segunda-feira, 11 de maio de 2020

o meu primeiro café em dois meses não é apenas um café






foi o meu primeiro café em dois meses. daqueles cafés que se tomam fora de casa, e, que só por isso, já têm outro efeito, e, também talvez por isso, outro sabor.
mas foi hoje, tomando esse café em copo de papel reciclado, dentro do carro, que eu percebi que o café faz com que o espaço que separa o nosso lado lógico, da nossa alma, se dilate. e é nesse espaço todo que cabe também a nossa imaginação. então, parece-me que um café tomado fora de casa, nem que seja dentro do meu carro, em copo de papel reciclado, e até fazendo com que a língua fique escaldada, faz com que a criatividade aumente, porque essa manifestação de deus menino precisa de espaço.
isto dito assim pode parecer muito redutor, mas eu senti mesmo a imensidão de toda essa amplitude, deixando de lado toda a lógica e distanciando-se do estado puro e divino da minha alma, para que aí, tudo possa ser possível, toda a imaginação, toda a criatividade, toda a infância.








sábado, 9 de maio de 2020

espera









vivia eu naquela insistência de não esperar do outro aquilo que eu daria, no seu lugar, como se o outro, em vez de ser diverso, pudesse ser igual a mim. 
digo-lhe que me custou muito chegar a esta espécie de serenidade. foram meses de avanços e recuos, de sofrer por aquilo que eu considerava ser rejeição, desconsideração, até. foram meses de dor, posso dizer assim. a cada vislumbre que tinha de alegria, sobrepunha-se-lhe uma desilusão. 
até que um dia chamei por mim mesma e fiz-me entender que o outro não sou eu. que a terra movediça onde eu caía era uma auto-estima fragilizada. 
então olhei-me bem nos olhos e pus os pontos nos is comigo mesma, para que eu percebesse que sou como sou e pronto. sou o melhor que sei ser. 
quanto ao outro, é apenas outro, com as suas dores, as suas limitações, a sua forma de sentir e o seu caminho. o outro não sou eu por isso não posso esperar que me corresponda na forma de agir. o outro não sou eu, e não vou deixar-me afundar numa energia que não é a minha nem que não depende de mim.
mas mesmo assim, há dias em que, caramba, queria tanto que fosse diferente, e caio à beira da tristeza. passo, então, todo o tempo a repetir para mim mesma 'esta energia não é minha. não a aceito. esta energia não é minha. não a aceito. esta energia não é minha. não a aceito. esta energia não é minha. não a aceito. esta energia não é minha. não a aceito'. 
e o que espero da vida, é nada esperar, e viver devagar.








quinta-feira, 7 de maio de 2020

Lua









lá fora as nuvens brancas passeiam-se no céu azul, ao sabor do vento, num espectáculo bonito de se ver.
aqui, trabalho, atropelando as letras no meio dos dedos e desengonçando palavras, o que me obriga a corrigir a escrita vezes sem conta.
morro de sono.
hoje é dia de Lua de Buda.
às 11.45, quando ela se manifestou, sentei-me no chão, entoei três vezes a oração do arrependimento e fiz a grande invocação.
continuo a morrer de sono. podia a Lua lembrar-se desta humana aqui e trazer alguma orientação para os meus passos e um despertar mais prolongado. 
alguma motivação também me dava jeito, já agora, e se puder ser.










terça-feira, 5 de maio de 2020

cigano (corona um mês e dezanove dias)














cigano? estás a ler coisas de um cigano?
pergunta o rapaz que não sabe que este espaço que não é espaço nenhum, existe
o que é que estás a ler de cigano?
insiste, enquanto me dá as suas costas peludas para eu espalhar o creme nelas
estou...
e sobre o que é que escreve o cigano?
(ó minha vida... 
digo cá para dentro de mim, eu, que estava aqui a maldizer o tema do último texto do cigano)
sei lá... coisas aleatórias...
[aleatórias é uma palavra que o rapaz das costas largas gosta]
destas coisas aleatórias que eu costumo ler
vou dizendo, enquanto ele olha com ar desconfiado para o ecrã escuro por onde espreita um elefante.














segunda-feira, 4 de maio de 2020

dos dias (corona um mês dezassete e dezoito dias)











...
sobre ontem

Pode-me fazer umas queijadas para eu dar à minha mãe logo à noite?
Pergunta-me o rapaz, exatamente no momento em que eu acabava de decidir que não faria nada
Oh… eu também sou mãe e também tenho mãe…
Fui dizendo, mais para me tentar convencer a mim que não, que não faria, que tinha decidido descansar
Eu sei, mas duas chegavam…
Então enchi o prato dourado de queijadas, as melhores queijadas de sempre, e nem consegui manter a distância aconselhada quando o rapaz bateu à porta com os olhos cheios de amor pela mãe
...
e isto que vos conto agora aconteceu nem há uma hora:
fui ao mar
e desta vez vi-o. senti o vento que vinha de sul, invadindo todo o meu espaço por dentro do corpo, e cheirei, avidamente, a maresia
estava cinzento, o mar, mesmo agora antes do nascer da noite, e a praia deserta, e o areal todo coberto de areia
e o cheiro, mais cheiro do que aroma, que a palavra aroma é mais bonita, mas o cheiro cola-se à pele e tem o som da onda a desfazer-se
diz, 'cheiro', e ouve a palavra a salgar a tua boca
...
























sábado, 2 de maio de 2020

ar limpo (corona um mês e dezasseis dias)









Todo este ar limpo sobre o rio!
Ouve a mulher dizer a quem enche o peito de leveza e a alma de azul infinito. Mas ela, que todas as noites tem de prender a alma à perna da cama para que não a perca nos meandros dos sonhos, é com cautela que sai para a rua. Toda a vida lutou consigo mesma para trazer os pés bem assentes na terra, e, agora que o céu exibe desmesuradamente todo aquele azul, metade dela anseia por chão, outra metade por voo, num desatino constante.










sexta-feira, 1 de maio de 2020

aniversário (um post por dia até ao fim do corona um mês e quinze dias)








como passo o dia de aniversário do meu amor pequenino:
dedico-lhe quadras sem fim e fico todo o dia a rir com o que escrevi
trago em mim este atraso de nascença, como dizia o poeta que foi aparelhado para gostar de passarinhos, como eu
















quinta-feira, 30 de abril de 2020

um post por dia até ao fim do corona (corona um mês e quatorze dias)








um post por dia até ao fim do corona
mas o fim do corona pode estar a dois anos de distância, segundo o Bill Gates. 
quer dizer que vou escrever um post por dia (como quem diz) durante dois anos?
parece aquele seguro que fiz sem ler as letras pequeninas...





quarta-feira, 29 de abril de 2020

viagem (corona um mês e treze dias)











'só tu não me vês', e esfregou-me a cara com terra do chão. E eu vi. 
Disse que era meu ancestral, ancestral da Terra, da terra onde nasci, em África. 'Alisei a Terra para tu caminhares', disse-me.
Como a xamã me tinha indicado, pedi-lhe conselhos para a minha vida, para a circunstância atual.
'é visão e palavra', disse, batendo-me no peito, e na terceira visão. 'aprende a ver e encontrar lucidez na intuição. E fala. Cura com a palavra. Transmuta com a energia que colocas na palavra. É assim' - e começou a colocar pétalas à minha volta, estando eu no centro. E, comigo no meio, começou a fazer uma mandala com pétalas e flores. 
Aí, eu senti que tinha de vir para escrever, com medo de esquecer. E ele disse 'acabou-se a pressa. Passa uma rasteira a isso que criaram com o nome de tempo. Agora é viver, é um agora lento. É lentidão. Não há essa forma de tempo.'
Depois perguntei-lhe como podia chegar até ele, trazê-lo para aqui. Respondeu que sempre que eu colocasse pétalas em círculo, ele estaria aqui. E ao cuidar de alguém, que colocasse a intenção desse alguém num centro, e pusesse pétalas à volta. A começar por amarelo, se possível.
Depois mostrou-me a sua mulher, mãe de Terra também.
Esfregou-me outra vez a cara com terra do chão e regressei.









domingo, 26 de abril de 2020

livre (corona 1 mês e 11 dias)







hoje levaram-me a ver o mar e apenas me lembro da foz. a visão do mar ficou envolta em cansaço e desejo inexplicável de voltar para casa. levaram-me, senão eu não tinha ido. 
há um mês e meio que não saía de casa, e hoje percebi que se instalaram medos de que não tinha consciência. 
o medo da direção do vento ao passar pelas pessoas.
...
ontem comemorou-se o dia da liberdade. é livre quem não tem medo.






sábado, 25 de abril de 2020

Estás tramado (corona 1 mês e nem sei quantos dias)







Ouve o que te digo Rúben Patrick, antes de tocares alguém hás - de pensar 3 vezes, uma por ti, outra pelos teus pais, e outra saberás por quem. Um beijo passará a ser uma roleta russa, uma prova de confiança, um passeio ali, no fio da navalha, e o sexo, Rubenzito, às tantas queres ver que vai ser uma prova de amor.
Estás tramado, rapaz.





sexta-feira, 24 de abril de 2020

Pergunta (corona 1 mês e 9 dias)





Já fizeram planos sobre como irão passar a próxima quarentena?
Já não deve faltar muito...






quinta-feira, 23 de abril de 2020

aqui e ali (corona 1 mês e oito dias)









trago em mim a memória do sabor e frescura da água salgada do mar na minha boca, dos pés desenhados na areia e do vento norte naquele desatino da roupa e dos cabelos. trago na pele a carícia do calor do sol e nos olhos o brilho manso do final do dia na praia. 
tudo isto me acompanha, em tudo isto estou. quem me olha, não sabe que estou ausente aqui, e toda inteira, lá, naquele lugar onde encontro deus, os anjos e iemanjá.













quarta-feira, 22 de abril de 2020

Do dia (corona 1 mês e 7 dias)




Foram incontáveis as vezes que fiz refresh na página do continente para tentar arranjar um prazo de entrega para breve. E não consegui.











terça-feira, 21 de abril de 2020

livre (corona 1 mês e 6 dias)








há quem diga que a vê dançar, descalça, deixando que o rio lhe adoce os pés, com a sua saia rodada de bainha desencontrada, como quem se libertou, como quem sabe quem é, como quem pode ser quem é.
o decorrer dos dias e o desenrolar dos mosaicos que compõem a vida, fizeram com que a mulher que lavava futuros nas margens do rio planasse naquele tempo sem marcas, onde o futuro e o passado rendem homenagem ao presente, esse tempo que quando é já deixou de ser.
a nada pertencia e nada tinha, a mulher, apenas a brisa que provocava o seu ondular, apenas aquele bailado da alma com o desígnio de ser, livre.












segunda-feira, 20 de abril de 2020

do sonho (corona 1 mês e 5 dias)

















cansada de enfeitar as estrelas que cintilam em noites de céu claro com palavras que nunca serão faladas, Ilmatecuhtli, escondeu no escuro da caverna fria o vestido debruado a algas tecido de maresia, e reduziu-se a uma névoa de aparência humana.

ele nunca conseguira alinhar o poema que ela lhe dedicava no firmamento. no seu jeito de criança que brinca de ser homem, gracejava, e, matreiro, soprava nas estrelas anoitecendo todo aquele sentir, toda aquela dedicação.

desde então, só se consegue ver Ilmatecuhtli quando o dia fecunda a noite, num ténue instante sem nome do despertar.



o que ele diz que sonha com ela, é o momento em que as suas almas se olham, numa trégua concedida por morfeu quando a infância se sobrepõe à geometria dos dias áridos.


(imagem)











domingo, 19 de abril de 2020

Ocupada (corona 1 mês e 4 dias)





Agora que aquietei o corpo, preciso de aquietar o pensamento. Mas não, perco-me com o voo das gaivotas, a alegria das crianças, a corrente do rio, o chilrear dos pardais, a diferença das folhagens das árvores, o burburinho do vento, as flores que fecham, agora que o sol não as toca, e o movimento das nuvens desafiando a monotonia do azul.
Não consigo espaço para o que não sei de mim.