terça-feira, 11 de junho de 2019

dos dias










o vento sopra de norte, como todos os dias.

os pardalinhos já saíram dos ninhos e a minha varanda tornou-se no jardim infantil da passarada.

a gaivota do sr. antónio pescador, saltita em cima dos carros estacionados em frente à peixaria, toda indignada com a ausência do seu amigo e rejeitando a comida que lhe vão deitando.

confirmo que Chalchiutlicue tresmalhou-se e deixou de rodar as águas. a maré está sempre cheia de manhã, negando-me a frescura do areal recém molhado.

as brechas tanto servem para entrar a luz, como para entrar o peçonhento.
















segunda-feira, 10 de junho de 2019

enterro







então a mulher explica que tencionava 'enterrar' o criaturo, e, por enterrar, ela queria dizer enterrar a fotografia na mata, da forma que a tal entidade lhe tinha dito.
- e ele esquecerá de ti para sempre
mas, naquela manhã do dia que tinha destinado para o tal enterro, mudou de ideias
- afinal não vou
quando lhe lembraram que tinha pedido para ser lembrada de o fazer
- mudei de ideias
- e porquê, se andas há tanto tempo a falar nisso?
- mudei de ideias
repetia
- mas eu queria perceber
insistia
- foi esta noite
contou
- já sei que não vai entender, mas já que quer saber
introduziu
- esse 'enterro', é um trabalho de manipulação de energia, para que a vontade dele de me perseguir, desaparecesse
explica
- então esta noite lembrei-me que poderia estar a interferir no processo dele, nalgum dos seus propósitos para esta vida
- não entendo
diz a outra
- eu sabia... mas já que quer saber, é assim, ele até pode ter sido muito pior para mim numa vida anterior. sei lá, até pode ter-me assassinado, e todo o mal que me faz agora, embora sendo mal, pode ser menos mal do que o que poderá ter-me feito noutra, o que é uma evolução no seu processo, e se eu o enterro, e se eu manipulo para que ele me esqueça, estarei a impedir que ele evolua, e eu também, claro. e isto veio-me à cabeça, assim de repente, esta noite. e como sabe que eu acredito que nada acontece por acaso, olhe, mudei de ideias
a outra mulher não interrompe e não reage, mergulha ainda mais a cabeça entre os ombros, e parece-me que ouço os seus pensamentos a ruminarem incompreensões







sábado, 8 de junho de 2019

o quadro







o meu problema, é que não sinto o que tenho que pintar
explica o rapaz desabafando
a figura humana foi fácil, porque faz-me sentido a mulher que pintei. agora o resto... aquela mesa, o chão... eu não consigo sentir...e não sentindo, não consigo pintar. não consigo...
eu sinto cada pedra no caminho de que o rapaz me fala, como se os pés que as pisam fossem os meus, descalços. também a pele que me reveste, emprestou pele à pele que reveste o rapaz, e o que ele não sente, não me faz sentido a mim. mas são as normas, a formatação, a cadeia de montagem, o sentido obrigatório.
dentro da matéria que tens que pintar, representa aquilo que sentes
sugiro-lhe
distorce, simboliza o oposto, a contradição, dá-lhe alma, fogo
o rapaz entende a nossa linguagem que vai muito além das palavras, muito além do audível, e a obra cresce







quinta-feira, 6 de junho de 2019

pipocas





- oh...amor, não tem pipocas!....
- a sério, mãe? não tem pipocas?
- acho que não...
- oh...
suspira a rapariga
- e o que se faz no cinema sem pipocas?
pergunta-me
- vê-se o filme...
- oh... sem pipocas?
- sim... eu nunca compro pipocas quando vou ao cinema. enerva-me o som do trrriccc crrrraccc qrriiicccc
- oh.... mas é mesmo isso que eu gosto! 
- vai ao lidl, pode ser que esteja aberto e comprem lá as pipocas
- não estás a perceber, mãe. nós vamos ao arrábida só por causa das pipocas. são as melhores.
- também vou ao arrábida, e, às vezes o joão pergunta-me se quero pipocas e eu nunca deixo comprar pipocas.
- não deixa? como é possível?.... coitado...







quarta-feira, 5 de junho de 2019

a surda







ao que parece, é maria, a empregada doméstica, que sustem os alicerces daquela família, conservadora, estruturada, de classe social elevada, com todos os membros bem colocados na vida, bem formados e com carreiras profissionais irrepreensíveis.

maria, pobre mulher sem instrução, é surda. a deficiência tem permitido que não ouça os impropérios da patroa, conservando-se há mais de trinta anos na casa. para lá foi adolescente, e por lá cresceu-lhe o corpo, porque instrução não recebeu nenhuma. quem não tem saber para si, não tem saber para ensinar. e a patroa não tem. nunca precisou, nunca se esforçou, nunca trabalhou. são insuficiências de luxo numa vida cheia de vazio.

é pois maria que segura o laço frouxo que mantém aquela, digamos que, família. ampara a loucura da patroa, o desânimo do dono da casa, o cada vez maior afastamento dos filhos, a arrogância e prepotência da nora.

se fosse possível maria recuperar a audição, a família desmoronaria, a sociedade pasmaria e teria tema de conversa para muito tempo. quem conseguisse suportar o escândalo,  talvez pudesse vir até, um dia, a ser feliz.






segunda-feira, 3 de junho de 2019

conto-vos eu que assisti









a mulher que parecia feliz, tinha feito um longo caminho na aprendizagem do sentir. era notória, para quem usava os sentidos que não constam da cartilha da escola, a sua incapacidade, trazendo todas as emoções encouraçadas, as intuições enjauladas, os arrepios anestesiados e as borboletas na barriga domesticadas.
fez então a mulher aquele penoso percurso de deixar cair defesas, colocar os pés em terrenos baldios, arriscar a vertigem dos declives, ajustar-se à ondulação, e permitir-se ser corpo que sente e pele que se arrepia.
para isso, teve a mulher que dar asas ao coração. e deu. não só lhe deu asas, como deu autoridade para avaliar, para acreditar, para decidir, para escolher. e era feliz, da felicidade das crianças que confiam.

no entanto, na falta de entendimento para compreender o desnorteio daquele, que dizendo que a amava, penava com ciúmes e insegurança, resolveu ser ele por dentro e pensar com a cabeça dele. para isso, silenciou o seu coração.

quando a cabeça tomou o lugar do coração, a mulher escureceu toda ela. na verdade, havia razões lógicas para a insegurança e descrença, e o modo de pensar que agora tinha, enumerava-as e demonstrava-as sem dificuldade. e a mulher escurecia mais. e o coração calado, amordaçado, emudecido, imobilizado. 

diz que foi enquanto subia a rampa da garagem que um anjo soprou-lhe no ouvido que pusesse a cabeça no seu lugar, e que deixasse o coração voltar a pensar e a decidir e a rir só porque sim, só porque sente, só porque acredita, só porque tem fé. então o peso da mulher aligeirou, e até o mar mudou para uma cor esmeralda quando ela lhe sorriu ao contar que tinha voltado a si.

serviu-lhe a experiência, contou-lhe o anjo, para se colocar no lugar do outro, e respeitar a sua angústia. e ela, respeitou o tormento de viver ao sabor de uma cabeça que pensa e com um coração reduzido a bombear sangue. pobre criatura.








sexta-feira, 31 de maio de 2019

depois










eu acho que tudo começou quando me rendi à necessidade de adoptar uma batedeira eléctrica. as mãos deixaram de fazer parte da alquimia de transformar a farinha em massa. e assim se começou a desaparecer a magia.
depois, a mulher morreu.
depois, ele, que coincidia comigo, descoincidiu.
depois, o homem-terra tomou-se de ciúmes.
depois o trabalho escasseou.
nada disto é grave, mas a magia entrou pela terra dentro e desapareceu. com ela, foram as palavras e os meus dedos ficaram secos.
engana-se quem pensa que algum dia escrevi sozinha. pousados nos meus dedos estavam todos esses que de uma forma ou outra foram desaparecendo.

mas devo contar que Iansã tem ido caminhar comigo enchendo-me o peito de nortada da boa, fresca, forte, salpicada da água que Poseidon me atira para me despertar. garanto-vos aqui que os vi, pairando nas ondas do mar, há dois dias, quando o mar chamou por mim. e eu fui.










domingo, 19 de maio de 2019

o homem certinho






tudo na vida do homem é certinho, tudo tem o seu lugar. os fatos e as gravatas para o dia-a-dia, os botões de punho para as reuniões, os jeans para o fim de semana e os sapatos de vela, a mulher para que não tenha a casa vazia, amigos suficientes para que os almoços e jantares mensais aconteçam todas as semanas, o almoço de domingo com a família, a educação irrepreensível, a agenda sempre planeada ao pormenor, a amante para as horas vagas, os filhos a quem continua a dar mesadas para garantir companhia na velhice, as mensalidades para os netos que lhe proporcionam manifestações de carinho por volta do dia 3 de cada mês.
todas as peças lhe são imprescindíveis para que a vida corra.









sexta-feira, 17 de maio de 2019

enchidos











foi o cheiro a chouriço no meu frigorífico que me fez lembrar da mulher.
é claro que antes de chegar àquele ponto, ele começou por lhe oferecer perfumes, chocolates, jóias, jantares em bons restaurantes, um passeio ou outro ao domingo à tarde, encontros íntimos uma vez por semana. depois foi um saco de fumeiro, mas com fumeiro da melhor qualidade e variado. ele tinha chouriços, ele tinha alheiras, ele tinha salpicão, ele tinha toucinho. e a mulher congelou. depois foi outro saco de fumeiro, com mais chouriços, alheiras, toucinho e salpicão. e a mulher congelou. depois, ainda foi mais outro, com o mesmo conteúdo, que não vou tornar a repetir, pois já me cheira as pontas dos dedos ao dito.
da relação, ficou a mulher com o congelador cheio de fumeiro.
eu, olho para o meu chouriço individual, e lembro-me disto que quis deixar aqui registado para o leitor ler.

[inspirada em Xman, a parte do leitor, claro]











quinta-feira, 16 de maio de 2019

(olha a minha cara de preocupada)






a melra come desesperadamente na varanda. imagino que tenha os filhotes no ninho à espera que os satisfaça. ela sabe que aqui tem o refeitório sempre aberto. é feia e parda, ao contrário do macho, preto e luzidio, de bico amarelo.
o dia amanheceu frio e enevoado, as árvores denunciam vento e o barulho dos carros a azáfama do dia.
os pardais cantam a canção do engate e as pardalas não ligam nenhuma, por enquanto.
o homem daqui da terrinha, deixa um sinal no facebook para me fazer ver que sabe que sou eu quem aqui escreve (olha a minha cara de preocupada).

estamos vivos mas desencontrados.