sexta-feira, 31 de maio de 2019

depois










eu acho que tudo começou quando me rendi à necessidade de adoptar uma batedeira eléctrica. as mãos deixaram de fazer parte da alquimia de transformar a farinha em massa. e assim se começou a desaparecer a magia.
depois, a mulher morreu.
depois, ele, que coincidia comigo, descoincidiu.
depois, o homem-terra tomou-se de ciúmes.
depois o trabalho escasseou.
nada disto é grave, mas a magia entrou pela terra dentro e desapareceu. com ela, foram as palavras e os meus dedos ficaram secos.
engana-se quem pensa que algum dia escrevi sozinha. pousados nos meus dedos estavam todos esses que de uma forma ou outra foram desaparecendo.

mas devo contar que Iansã tem ido caminhar comigo enchendo-me o peito de nortada da boa, fresca, forte, salpicada da água que Poseidon me atira para me despertar. garanto-vos aqui que os vi, pairando nas ondas do mar, há dois dias, quando o mar chamou por mim. e eu fui.










domingo, 19 de maio de 2019

o homem certinho






tudo na vida do homem é certinho, tudo tem o seu lugar. os fatos e as gravatas para o dia-a-dia, os botões de punho para as reuniões, os jeans para o fim de semana e os sapatos de vela, a mulher para que não tenha a casa vazia, amigos suficientes para que os almoços e jantares mensais aconteçam todas as semanas, o almoço de domingo com a família, a educação irrepreensível, a agenda sempre planeada ao pormenor, a amante para as horas vagas, os filhos a quem continua a dar mesadas para garantir companhia na velhice, as mensalidades para os netos que lhe proporcionam manifestações de carinho por volta do dia 3 de cada mês.
todas as peças lhe são imprescindíveis para que a vida corra.









sexta-feira, 17 de maio de 2019

enchidos











foi o cheiro a chouriço no meu frigorífico que me fez lembrar da mulher.
é claro que antes de chegar àquele ponto, ele começou por lhe oferecer perfumes, chocolates, jóias, jantares em bons restaurantes, um passeio ou outro ao domingo à tarde, encontros íntimos uma vez por semana. depois foi um saco de fumeiro, mas com fumeiro da melhor qualidade e variado. ele tinha chouriços, ele tinha alheiras, ele tinha salpicão, ele tinha toucinho. e a mulher congelou. depois foi outro saco de fumeiro, com mais chouriços, alheiras, toucinho e salpicão. e a mulher congelou. depois, ainda foi mais outro, com o mesmo conteúdo, que não vou tornar a repetir, pois já me cheira as pontas dos dedos ao dito.
da relação, ficou a mulher com o congelador cheio de fumeiro.
eu, olho para o meu chouriço individual, e lembro-me disto que quis deixar aqui registado para o leitor ler.

[inspirada em Xman, a parte do leitor, claro]











quinta-feira, 16 de maio de 2019

(olha a minha cara de preocupada)






a melra come desesperadamente na varanda. imagino que tenha os filhotes no ninho à espera que os satisfaça. ela sabe que aqui tem o refeitório sempre aberto. é feia e parda, ao contrário do macho, preto e luzidio, de bico amarelo.
o dia amanheceu frio e enevoado, as árvores denunciam vento e o barulho dos carros a azáfama do dia.
os pardais cantam a canção do engate e as pardalas não ligam nenhuma, por enquanto.
o homem daqui da terrinha, deixa um sinal no facebook para me fazer ver que sabe que sou eu quem aqui escreve (olha a minha cara de preocupada).

estamos vivos mas desencontrados.







quarta-feira, 15 de maio de 2019

as mulheres







a mulher louca berra, ameaça de morte, ameaça morrer, atira pelo ar a arte sacra que se quebra nas carpetes imaculadas da sala impecável, pragueja, insulta e exige que o homem revele o nome daquela que o homem nega que exista.
a mulher louca faz o mundo explodir e ajustar-se à sua loucura.
a mulher mansa implode, silenciosamente.







domingo, 12 de maio de 2019

lições do dia







não fazer bolachas húngaras quando a temperatura está a 32º e ficar à espera que o chocolate solidifique. não vai acontecer.
lamber os dedos também engorda.









domingo, 5 de maio de 2019

mais ano, menos ano







o bolo que fiz tinha mais de bonito do que de bom. por outro lado, os ovos mexidos com alheira e espargos, acompanhados por uma salada e batatas fritas de pacote, estavam uma delícia.
a mulher sentada à minha frente, estava satisfeita. 
sempre fui mais velha do que ela. fui crescendo trazendo em mim a paciência dos velhos, a revolta recolhida, o conformismo da vida dedicada. agora, com o passar dos anos, à medida que me aproximo da idade dela, resgato a leveza da infância, a dedicação ao momento, a fé nos ajustes da vida e rio-me das limitações do corpo.
mais ano, menos ano, teremos a mesma idade, a minha mãe e eu.









sábado, 27 de abril de 2019

tempo









isto do tempo....
confesso-lhe
ocupa-me muito o pensamento
enquanto o homem faz um elogio à evolução da ciência
sem duvida
concordo
mas sabe...é um pau de dois bicos. se se reportar aos povos indígenas, verá que o tempo lhes chega, nos afazeres que têm, sem ciência e raras técnicas. como no tempo da sua avó, conforme ontem me contou
e a avó do homem semeava o linho até o tecer em ásperos pedaços de panos, tosquiava as ovelhas, até transformar a lã em grossos cobertores, produzia o trigo que seria pão e o milho que viria a ser broa
eu tenho cá para mim
e isto não disse ao homem
que quando o casal primeiro escolheu comer a maçã do conhecimento, foi penalizado com o tempo que foge
o tempo não é mais o mesmo
limito-me a dizer
repare que quanto mais o quer controlar mais ele lhe foge... ignore-o e vai ver tudo a encaixar-se no dia que tem







sexta-feira, 26 de abril de 2019

*








admiro-me com as pessoas que acumulam conhecimento. a minha questão é básica e constante, 'o que faço com o que aprendo?'







segunda-feira, 22 de abril de 2019

dos dias






mas eu gosto Júlio. e é das brasileiras que gosto...
explicava a mulher do Júlio ao marido, enquanto nos contava que assistia todos os dias a cinco horas seguidas de telenovelas brasileiras
eu sei, filha, e respeito
Fernanda tem quase oitenta anos e Júlio já os ultrapassou. quem deles fala diz que é gente boa, gente pura. eu, que os ouço, aprendo ali o que procuro uma vida inteira