quinta-feira, 16 de maio de 2019
(olha a minha cara de preocupada)
a melra come desesperadamente na varanda. imagino que tenha os filhotes no ninho à espera que os satisfaça. ela sabe que aqui tem o refeitório sempre aberto. é feia e parda, ao contrário do macho, preto e luzidio, de bico amarelo.
o dia amanheceu frio e enevoado, as árvores denunciam vento e o barulho dos carros a azáfama do dia.
os pardais cantam a canção do engate e as pardalas não ligam nenhuma, por enquanto.
o homem daqui da terrinha, deixa um sinal no facebook para me fazer ver que sabe que sou eu quem aqui escreve (olha a minha cara de preocupada).
estamos vivos mas desencontrados.
quarta-feira, 15 de maio de 2019
as mulheres
a mulher louca berra, ameaça de morte, ameaça morrer, atira pelo ar a arte sacra que se quebra nas carpetes imaculadas da sala impecável, pragueja, insulta e exige que o homem revele o nome daquela que o homem nega que exista.
a mulher louca faz o mundo explodir e ajustar-se à sua loucura.
a mulher mansa implode, silenciosamente.
domingo, 12 de maio de 2019
lições do dia
não fazer bolachas húngaras quando a temperatura está a 32º e ficar à espera que o chocolate solidifique. não vai acontecer.
lamber os dedos também engorda.
domingo, 5 de maio de 2019
mais ano, menos ano
a mulher sentada à minha frente, estava satisfeita.
sempre fui mais velha do que ela. fui crescendo trazendo em mim a paciência dos velhos, a revolta recolhida, o conformismo da vida dedicada. agora, com o passar dos anos, à medida que me aproximo da idade dela, resgato a leveza da infância, a dedicação ao momento, a fé nos ajustes da vida e rio-me das limitações do corpo.
mais ano, menos ano, teremos a mesma idade, a minha mãe e eu.
sábado, 27 de abril de 2019
tempo
isto do tempo....
confesso-lhe
ocupa-me muito o pensamento
enquanto o homem faz um elogio à evolução da ciência
sem duvida
concordo
mas sabe...é um pau de dois bicos. se se reportar aos povos indígenas, verá que o tempo lhes chega, nos afazeres que têm, sem ciência e raras técnicas. como no tempo da sua avó, conforme ontem me contou
e a avó do homem semeava o linho até o tecer em ásperos pedaços de panos, tosquiava as ovelhas, até transformar a lã em grossos cobertores, produzia o trigo que seria pão e o milho que viria a ser broa
eu tenho cá para mim
e isto não disse ao homem
que quando o casal primeiro escolheu comer a maçã do conhecimento, foi penalizado com o tempo que foge
o tempo não é mais o mesmo
limito-me a dizer
repare que quanto mais o quer controlar mais ele lhe foge... ignore-o e vai ver tudo a encaixar-se no dia que tem
sexta-feira, 26 de abril de 2019
*
admiro-me com as pessoas que acumulam conhecimento. a minha questão é básica e constante, 'o que faço com o que aprendo?'
segunda-feira, 22 de abril de 2019
dos dias
mas eu gosto Júlio. e é das brasileiras que gosto...
explicava a mulher do Júlio ao marido, enquanto nos contava que assistia todos os dias a cinco horas seguidas de telenovelas brasileiras
eu sei, filha, e respeito
Fernanda tem quase oitenta anos e Júlio já os ultrapassou. quem deles fala diz que é gente boa, gente pura. eu, que os ouço, aprendo ali o que procuro uma vida inteira
sábado, 13 de abril de 2019
agora
toda a vida vivi no dia seguinte, no futuro a vir, a pensar no que tinha para fazer a seguir, a planear o dia de amanhã, receando os planos saírem fora do estipulado, e sentia que o tempo me fugia. perguntava-me tantas vezes como seria parar o tempo. e agora eu sei. aprendi isso contigo. é estar aqui e não querer estar em outro lugar, é estar aqui e ficar, é estar apenas aqui, assim.
falava o jardineiro de pessoas à mulher que lavava o futuro nas margens do rio, um futuro irrealizado que se desfez, aos farfalhos, acrescentando lodo ao lodo da doca.
é estares inteiro onde estiveres
murmura-lhe a mulher que vivera uma vida onde nunca estivera
sexta-feira, 12 de abril de 2019
lixo
a mulher que conta sacos de plástico na caixa de supermercado, explica
são para o lixo. são fortes e dá para amarrar. eu não gosto que se veja o lixo que deito fora, sabe?
simpatizando com a figura que vejo, devolvo conversa
a minha avó dizia que pelo lixo, se vê a riqueza duma casa...
e tem razão... há muita gente má por aí... viu o caso daquele padre que abusou de 35 crianças?
ouvi falar...
respondo, tentando evitar pormenores
se a nossa primeira vez nos põe doentes, imagine uma criança... um horror... na minha primeira vez fiquei doente, muito doente. deitei tanto sangue... o meu marido já morreu há 20 anos e nunca mais quero outro.
e eu, sem saber o porquê daquela conversa
tenho cinco filhos, todos eles no estrangeiro, todos. também vivi lá. quando me casei, o meu marido, que era muito ciumento, disse para a minha mãe - ela não vai trabalhar. o dono dela sou eu - e estive aqueles anos todos em casa. fiz muito crochet. fiz toalhas, fiz colchas, tenho de tudo.
preencheu o tempo, está a ver?
digo, tentando dourar-lhe o tempo de clausura
só os meus filhos, todos no estrangeiro. os cinco...
e nós aqui, tão longe do estrangeiro, enquanto a mulher guarda o pão e o meu filho lá para o sul, e eu triste com as razões que me trazem alívio neste mar estranho da saudade
quinta-feira, 4 de abril de 2019
De fora para dentro
acontece às vezes ele voltar por um piscar de tempo. e aí, de repente, eu regresso ao que me parece ser eu. de repente, vem o fresco ar do mar, o aroma a algas, os tons de azul todos de que o céu se veste, e lembro-me de que até as ervas na beira do caminho falavam comigo.
quisera eu acreditar nisto de se ser de dentro para fora, e encontro-me a perceber que é o inverso. parece - me que é de fora para dentro que tudo se passa, para então, cá dentro, resultar naquilo que talvez seja eu.
e foi por ele voltar num piscar de tempo, e foi pela falta que a mulher borboleta me faz, na magia toda que ela trazia para a minha vida, nas borboletas presas ao seu cabelo, a estrela de cinco pontas pendurada no seu pescoço, o casaco verde, fazendo dela uma personagem de um conto de gnomos.
nem deus, nem os anjos, nem os demónios, seriam nada sem nós, nem os temporais sem a terra onde assolar desgraças.
e levo eu uma vida inteira para sentir, que afinal não sou. que sou aquilo que me fica do que os outros são em mim.
e levo eu uma vida inteira para sentir, que afinal não sou. que sou aquilo que me fica do que os outros são em mim.
e isto tudo porque ele voltou num piscar de tempo, trazendo-me um estilhaço de espelho, uma tábua onde assentar um pé, nesta areia movediça dos dias.
e de repente olho para o relógio e já passaram 20 minutos. isto do tempo andar estranho só me está a acontecer a mim?
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