domingo, 12 de maio de 2019

lições do dia







não fazer bolachas húngaras quando a temperatura está a 32º e ficar à espera que o chocolate solidifique. não vai acontecer.
lamber os dedos também engorda.









domingo, 5 de maio de 2019

mais ano, menos ano







o bolo que fiz tinha mais de bonito do que de bom. por outro lado, os ovos mexidos com alheira e espargos, acompanhados por uma salada e batatas fritas de pacote, estavam uma delícia.
a mulher sentada à minha frente, estava satisfeita. 
sempre fui mais velha do que ela. fui crescendo trazendo em mim a paciência dos velhos, a revolta recolhida, o conformismo da vida dedicada. agora, com o passar dos anos, à medida que me aproximo da idade dela, resgato a leveza da infância, a dedicação ao momento, a fé nos ajustes da vida e rio-me das limitações do corpo.
mais ano, menos ano, teremos a mesma idade, a minha mãe e eu.









sábado, 27 de abril de 2019

tempo









isto do tempo....
confesso-lhe
ocupa-me muito o pensamento
enquanto o homem faz um elogio à evolução da ciência
sem duvida
concordo
mas sabe...é um pau de dois bicos. se se reportar aos povos indígenas, verá que o tempo lhes chega, nos afazeres que têm, sem ciência e raras técnicas. como no tempo da sua avó, conforme ontem me contou
e a avó do homem semeava o linho até o tecer em ásperos pedaços de panos, tosquiava as ovelhas, até transformar a lã em grossos cobertores, produzia o trigo que seria pão e o milho que viria a ser broa
eu tenho cá para mim
e isto não disse ao homem
que quando o casal primeiro escolheu comer a maçã do conhecimento, foi penalizado com o tempo que foge
o tempo não é mais o mesmo
limito-me a dizer
repare que quanto mais o quer controlar mais ele lhe foge... ignore-o e vai ver tudo a encaixar-se no dia que tem







sexta-feira, 26 de abril de 2019

*








admiro-me com as pessoas que acumulam conhecimento. a minha questão é básica e constante, 'o que faço com o que aprendo?'







segunda-feira, 22 de abril de 2019

dos dias






mas eu gosto Júlio. e é das brasileiras que gosto...
explicava a mulher do Júlio ao marido, enquanto nos contava que assistia todos os dias a cinco horas seguidas de telenovelas brasileiras
eu sei, filha, e respeito
Fernanda tem quase oitenta anos e Júlio já os ultrapassou. quem deles fala diz que é gente boa, gente pura. eu, que os ouço, aprendo ali o que procuro uma vida inteira









sábado, 13 de abril de 2019

agora







toda a vida vivi no dia seguinte, no futuro a vir, a pensar no que tinha para fazer a seguir, a planear o dia de amanhã, receando os planos saírem fora do estipulado, e sentia que o tempo me fugia. perguntava-me tantas vezes como seria parar o tempo. e agora eu sei. aprendi isso contigo. é estar aqui e não querer estar em outro lugar, é estar aqui e ficar, é estar apenas aqui, assim.
falava o jardineiro de pessoas à mulher que lavava o futuro nas margens do rio, um futuro irrealizado que se desfez, aos farfalhos, acrescentando lodo ao lodo da doca.
é estares inteiro onde estiveres
murmura-lhe a mulher que vivera uma vida onde nunca estivera













sexta-feira, 12 de abril de 2019

lixo







a mulher que conta sacos de plástico na caixa de supermercado, explica
são para o lixo. são fortes e dá para amarrar. eu não gosto que se veja o lixo que deito fora, sabe?
simpatizando com a figura que vejo, devolvo conversa
a minha avó dizia que pelo lixo, se vê a riqueza duma casa...
e tem razão... há muita gente má por aí... viu o caso daquele padre que abusou de 35 crianças?
ouvi falar...
respondo, tentando evitar pormenores
se a nossa primeira vez nos põe doentes, imagine uma criança... um horror... na minha primeira vez fiquei doente, muito doente. deitei tanto sangue... o meu marido já morreu há 20 anos e nunca mais quero outro. 
e eu, sem saber o porquê daquela conversa
tenho cinco filhos, todos eles no estrangeiro, todos. também vivi lá. quando me casei, o meu marido, que era muito ciumento, disse para a minha mãe - ela não vai trabalhar. o dono dela sou eu - e estive aqueles anos todos em casa. fiz muito crochet. fiz toalhas, fiz colchas, tenho de tudo.
preencheu o tempo, está a ver?
digo, tentando dourar-lhe o tempo de clausura
só os meus filhos, todos no estrangeiro. os cinco...
e nós aqui, tão longe do estrangeiro, enquanto a mulher guarda o pão e o meu filho lá para o sul, e eu triste com as razões que me trazem alívio neste mar estranho da saudade





quinta-feira, 4 de abril de 2019

De fora para dentro







acontece às vezes ele voltar por um piscar de tempo. e aí, de repente, eu regresso ao que me parece ser eu. de repente, vem o fresco ar do mar, o aroma a algas, os tons de azul todos de que o céu se veste, e lembro-me de que até as ervas na beira do caminho falavam comigo.

quisera eu acreditar nisto de se ser de dentro para fora, e encontro-me a perceber que é o inverso. parece - me que é de fora para dentro que tudo se passa, para então, cá dentro, resultar naquilo que talvez seja eu. 
e foi por ele voltar num piscar de tempo, e foi pela falta que a mulher borboleta me faz, na magia toda que ela trazia para a minha vida, nas borboletas presas ao seu cabelo, a estrela de cinco pontas pendurada no seu pescoço, o casaco verde, fazendo dela uma personagem de um conto de gnomos. 

nem deus, nem os anjos, nem os demónios, seriam nada sem nós, nem os temporais sem a terra onde assolar desgraças. 
e levo eu uma vida inteira para sentir, que afinal não sou. que sou aquilo que me fica do que os outros são em mim.
e isto tudo porque ele voltou num piscar de tempo, trazendo-me um estilhaço de espelho, uma tábua onde assentar um pé, nesta areia movediça dos dias.

e de repente olho para o relógio e já passaram 20 minutos. isto do tempo andar estranho só me está a acontecer a mim?











quarta-feira, 27 de março de 2019

tréguas




e de repente o tempo alargou para que a mulher pudesse sentir a densidade daquele amor
eu não quero sofrer. não consigo mais
efervesciam-lhe as palavras à tona na garganta querendo vomitar aquele sentimento que teimava em ficar
a vida é simples
a vida é simples
a vida é simples
a vida é simples
a vida é simples
a vida é simples
mantrava em silêncio para que o conceito se entranhasse e dissipasse todos os afluentes pedregosos que conduziam àquele cansaço, àquela dor física da alma





sexta-feira, 22 de março de 2019

a marta








a minha amiga transborda satisfação. caminho de frente para ela. atrás da marta segue-a o marido, com as mãos pousadas nos ombros dela, enquanto ela bamboleia as mamas vísiveis na camisa branca desabotoada, e o ventre exibe um umbigo aberto pela carne que sobressai entre as calças e os três botões, também desabotoados propositadamente. 
ela empina a barriga. tudo nela que é corpo abana enquanto me dirige um sorriso largo e me mente que eu posso ficar com o homem dela, se eu quiser. não quero. quero sentir por dentro aquele estar de bem com a vida, com a idade, e com o corpo, com a intimidade que salta das mãos dela para as do companheiro, que cruza os olhares um do outro, juntos há décadas, e por mais quantas possam vir pela frente.