quinta-feira, 4 de outubro de 2018

sala de espera








na sala de espera as mulheres comentam que se ela foi com ele para um quarto de hotel, sabia perfeitamente para o que ia, por isso, perguntavam-se elas em tom indignado, o que é que ela queria agora? de que se queixa ela? as mulheres, sempre as mulheres a acusarem mulheres.
é na sala de espera que eu tenho tido conhecimento, de há umas 2 semanas para cá, do que se passa pelo mundo e pela nação. sinto os meus horizontes a alargarem dia a dia, naqueles 10 minutos em que ali estou. sei das azáfamas dos mares, dos contornos das tempestades, dos salários mínimos, das reivindicações dos funcionários públicos que se eles soubessem o que é a vida de um pescador davam mas é graças a deus e ficavam quietinhos, sei de solidões de quem vive ali a única aproximação humana e toque no seu corpo, sei dos resultados da bola, e, fiquei a saber que se uma mulher aceita entrar num quarto de hotel com um homem, não tem direito a dizer que não, que afinal não quer. e se por lá continuar, virei a saber certamente, que tipos de provas é que se tem, ao final de nem sei quantos anos, para provar a tal de violação.








terça-feira, 2 de outubro de 2018

o jardineiro






o jardineiro de pessoas começou a criar, mais do que um hábito, uma necessidade, de todos os dias respirar um pouco do ar que rodeia a mulher que já quase lavou todo o futuro nas margens do rio. basta olhar para os dois, tão diferentes na forma de parecer, para se perceber que as suas almas se passeiam por mundos diferentes. na verdade, o jardineiro manifesta descrença na existência da alma, enquanto a mulher afirma que o corpo é apenas um veículo de expressão.
naquela noite o jardineiro falava do homem, que tendo um conhecimento extenso e uma biblioteca com mais de um milhar de livros, o procurara em colapso existencial, o corpo a ceder de vida vazia de afecto.
sabe, a doença acontece quando há uma falta de amor. quando há amor não se adoece, não há espaço para isso, o amor ocupa o lugar todo.
a mulher ouve o homem que não acredita em almas, falando com a alma nos lábios.







segunda-feira, 1 de outubro de 2018

mon emouvant amour










[conta a história do amor de um homem por uma mulher surda-muda]










sexta-feira, 28 de setembro de 2018

identidade







dona fernanda está a mirrar. quem passa por ela quase não a reconhece, falta-lhe o brilho, a aura evola-se, os suspiros emudeceram, as inquietações amainaram. dir-se-ia que era aquele querer desencontrado que lhe trazia ânimo à vida, aquele esperançar absurdo.
quando a vejo, penso sempre que ela era tudo o que ela não tinha, que era esse vazio, essa ausência, que lhe dava identidade. agora dona fernanda tem apenas o que tem, é a realidade que a apaga. dona fernanda era resultado de um sonho impossível de ser vivido. dona fernanda não era. mas agora que dona fernanda é, está a deixar de ser.








terça-feira, 25 de setembro de 2018

natural









a coisa mais natural no mundo é morrer, e bem mais certo do que nascer, que nascer podes, sim ou não, mas morrer é certo e sabido. mesmo assim, a vontade de pousar a cabeça em cima da mesa e deixar-me ficar, é imensa, e de verdade chorar, sem mesmo aproveitar a ajuda do monte de cebolas descascadas que se avoluma em cima da banca. eu, que sou tão tu cá, tu lá, com estas coisas de vidas e mortes e encarnações para a frente e para trás, desta vez doeu-me, desta vez zanguei-me, desta vez senti que foi roubado tempo de vida que devia ser vivido por uma qualquer negligência médica, esse lugar tão comum.
...
esbardalhei-me a caminho do velório. completamente esparramada no meio do chão, numa rasteira tão bem à moda do defunto, que havia de jurar que o vi rir mostrando os dentes brancos naquele rosto sempre moreno. corpo inteiro nas pedras da calçada, mãos, pernas, ombros, cara. tudo esmurrado. uma perfeição. entro na igreja a limpar-me com toalhetes húmidos.
se em vez de gastarem tanto dinheiro com flores, comprassem vinho e bebessem... sussurra-me o homem sem corpo.
pego na rosa branca que me entregam para deixar no cemitério, invento uma desculpa, e trago-a para casa. desapareço para dentro de mim enquanto o morto resiste em desaparecer para fora da vida.









segunda-feira, 24 de setembro de 2018

sábado







o homem, que tinha entrado para aquela sala de operações a contar anedotas e confiante que aquele órgão que lhe iriam substituir pela segunda vez, lhe traria mais anos de vida, não sobreviveu. foi uma rasteira da morte. apanhou-o desprevenido, apanhou-nos a todos desprevenidos, e levou-o. brincadeira parva de mau gosto.
aninhada no meu abraço a mulher soluça
ele não queria partir, ele está muito revoltado, ele anda perdido
apenas murmuro, com os lábios encostados ao seu cabelo 
eu sei, eu ajudo, eu ajudo, mas ele sabe o caminho...
com os olhos rasos de água a mulher sossega
tu sentes, ana, também sentes?
(sinto muito)
(sinto tanto)
...
somos cinco sentados ao almoço no dia do meu aniversário. peço ao rapaz que fez a refeição que ponha a tocar uma música de parabéns para que brindemos à vida, e, no telemóvel, encaixado por graça naquela caixa de lanson, ouço tocar nothing compares to you.







domingo, 23 de setembro de 2018

das margens do rio






o jardineiro de pessoas voltou uma e outra vez e outra vez e outra vez. era como se descansasse todo o peso do seu quotidiano, todas as mortes que não conseguia evitar, todos os corpos que via colapsar, naqueles breves instantes em que encontrava a mulher que lavava o futuro nas margens do rio, um futuro de um passado que nunca fora presente. naqueles momentos o homem, para quem a estrutura do cérebro justifica as emoções e os afectos, para quem depois do fim da vida existe o vazio, aquietava-se ouvindo a mulher falar de invisibilidades, dos elementos como companheiros de viagem, da vida como um somar de vidas, da fé e da entrega, da força da quietude.









sexta-feira, 21 de setembro de 2018

*









existia, entre uma pele e outra pele, um arrepio que não pertencia, nem a uma, nem à outra










sábado, 15 de setembro de 2018

dos dias









hoje emanuel falou-me sobre o seu amor. parti do principio que me falava do amor, apenas amor. emanuel tem 23 anos e namora há cinco.
muito tempo dona ana, eu sei. mas conheci-a com 18 anos, e olho, gostei dela e fiquei. não gosto de andar a mudar...
tem razão emanuel, faz bem
vou eu dizendo, há muito rendida daquela convicção de que sem experiência não se pode escolher bem
os meus amigos criticam-me
ah, emanuel não ligue...faça como entende que deve fazer
sabe, eles querem ser livres e só pensam em viajar. mas eu acho que estando com quem gosto, também sou livre
e é emanuel, sem dúvida
e eu ainda queria falar-lhe de que aceitando a liberdade da companheira, estava também a ampliar a dele para realidades até aí invisíveis para ele, mas emanuel foi aquecer outros corpos
fique com o seu livrinho, dona ana
...
o casal mostra-se apaixonado. aquela proximidade terá vindo de anos de vida juntos, de tanta ferida que ela lhe lavou, tantas vezes lhe mudou o saco do intestino, tantas vezes o levou ao médico, tantas vezes lhe aturou as manias, tantas vezes ficou exausta.
mas, naquela altura em que os olho, ele sentado na poltrona, e ela, atrás, acariciando-lhe o rosto, penso que talvez o amor seja um caminho que eu não sei percorrer.
quando a mulher partiu, cheia de recomendações no aeroporto, ele foi dormir com a amante.
...
sem a sua permissão, querida, eu fiz de si o centro do meu mundo
e a mulher calada cala-se
...
tu já amaste de verdade?
pergunta o rapaz
e o que é o amor verdadeiro?
pergunto-lhe
se tivesses amado de verdade, saberias











quinta-feira, 13 de setembro de 2018

52







ele deve ter estado toda a noite a treinar para dizer o seu nome
disse, bem disposta, a funcionária da recepção
e nem assim conseguiu...
brinco de volta
gabinete 52
indicam-me
eu sigo pelo longo corredor ladeado de gabinetes que estão separados uns dos outros por cortinas azuis
cheira mal 
penso que alguém não conseguiu controlar o intestino, e continuo. 
no número 52 aguarda-me emanuel
eu sou emanuel, dona ana, o que precisar, é só chamar. depois de mim, virá irene.
e veio emanuel, e veio irene
entre um e outro
dona ana, deixo-a então com o seu livro
e deixam-me
e eu agradeço. agradeço as mãos que percorrem o meu corpo. as mãos que percorrem todos os corpos. novos, velhos, doridos, teimosos, sujos ou limpos, agradecidos, arrogantes. mãos dedicadas, generosas. mãos que acolhem e curam. mãos que erram.