[conta a história do amor de um homem por uma mulher surda-muda]
segunda-feira, 1 de outubro de 2018
sexta-feira, 28 de setembro de 2018
identidade
dona fernanda está a mirrar. quem passa por ela quase não a reconhece, falta-lhe o brilho, a aura evola-se, os suspiros emudeceram, as inquietações amainaram. dir-se-ia que era aquele querer desencontrado que lhe trazia ânimo à vida, aquele esperançar absurdo.
quando a vejo, penso sempre que ela era tudo o que ela não tinha, que era esse vazio, essa ausência, que lhe dava identidade. agora dona fernanda tem apenas o que tem, é a realidade que a apaga. dona fernanda era resultado de um sonho impossível de ser vivido. dona fernanda não era. mas agora que dona fernanda é, está a deixar de ser.
terça-feira, 25 de setembro de 2018
natural
...
esbardalhei-me a caminho do velório. completamente esparramada no meio do chão, numa rasteira tão bem à moda do defunto, que havia de jurar que o vi rir mostrando os dentes brancos naquele rosto sempre moreno. corpo inteiro nas pedras da calçada, mãos, pernas, ombros, cara. tudo esmurrado. uma perfeição. entro na igreja a limpar-me com toalhetes húmidos.
se em vez de gastarem tanto dinheiro com flores, comprassem vinho e bebessem... sussurra-me o homem sem corpo.
pego na rosa branca que me entregam para deixar no cemitério, invento uma desculpa, e trago-a para casa. desapareço para dentro de mim enquanto o morto resiste em desaparecer para fora da vida.
segunda-feira, 24 de setembro de 2018
sábado
aninhada no meu abraço a mulher soluça
ele não queria partir, ele está muito revoltado, ele anda perdido
apenas murmuro, com os lábios encostados ao seu cabelo
eu sei, eu ajudo, eu ajudo, mas ele sabe o caminho...
com os olhos rasos de água a mulher sossega
tu sentes, ana, também sentes?
(sinto muito)
(sinto tanto)
...
somos cinco sentados ao almoço no dia do meu aniversário. peço ao rapaz que fez a refeição que ponha a tocar uma música de parabéns para que brindemos à vida, e, no telemóvel, encaixado por graça naquela caixa de lanson, ouço tocar nothing compares to you.
domingo, 23 de setembro de 2018
das margens do rio
sexta-feira, 21 de setembro de 2018
sábado, 15 de setembro de 2018
dos dias
muito tempo dona ana, eu sei. mas conheci-a com 18 anos, e olho, gostei dela e fiquei. não gosto de andar a mudar...
tem razão emanuel, faz bem
vou eu dizendo, há muito rendida daquela convicção de que sem experiência não se pode escolher bem
os meus amigos criticam-me
ah, emanuel não ligue...faça como entende que deve fazer
sabe, eles querem ser livres e só pensam em viajar. mas eu acho que estando com quem gosto, também sou livre
e é emanuel, sem dúvida
e eu ainda queria falar-lhe de que aceitando a liberdade da companheira, estava também a ampliar a dele para realidades até aí invisíveis para ele, mas emanuel foi aquecer outros corpos
fique com o seu livrinho, dona ana
...
o casal mostra-se apaixonado. aquela proximidade terá vindo de anos de vida juntos, de tanta ferida que ela lhe lavou, tantas vezes lhe mudou o saco do intestino, tantas vezes o levou ao médico, tantas vezes lhe aturou as manias, tantas vezes ficou exausta.
mas, naquela altura em que os olho, ele sentado na poltrona, e ela, atrás, acariciando-lhe o rosto, penso que talvez o amor seja um caminho que eu não sei percorrer.
quando a mulher partiu, cheia de recomendações no aeroporto, ele foi dormir com a amante.
...
sem a sua permissão, querida, eu fiz de si o centro do meu mundo
e a mulher calada cala-se
...
tu já amaste de verdade?
pergunta o rapaz
e o que é o amor verdadeiro?
pergunto-lhe
se tivesses amado de verdade, saberias
quinta-feira, 13 de setembro de 2018
52
disse, bem disposta, a funcionária da recepção
e nem assim conseguiu...
brinco de volta
gabinete 52
indicam-me
eu sigo pelo longo corredor ladeado de gabinetes que estão separados uns dos outros por cortinas azuis
cheira mal
penso que alguém não conseguiu controlar o intestino, e continuo.
no número 52 aguarda-me emanuel
eu sou emanuel, dona ana, o que precisar, é só chamar. depois de mim, virá irene.
e veio emanuel, e veio irene
entre um e outro
dona ana, deixo-a então com o seu livro
e deixam-me
e eu agradeço. agradeço as mãos que percorrem o meu corpo. as mãos que percorrem todos os corpos. novos, velhos, doridos, teimosos, sujos ou limpos, agradecidos, arrogantes. mãos dedicadas, generosas. mãos que acolhem e curam. mãos que erram.
domingo, 9 de setembro de 2018
onde me fica presa a atenção
... sacraliza o tempo.
explica o orador
Pára o tempo. Pára, não no sentido em que
ele deixa de funcionar, mas pára no sentido em que o tempo deixa de ser uma
hemorragia quantitativa e torna-se o teu sangue. Torna-se nutrição – eu começar
a contar os minutos como nutrição, as horas e os dias como significado, como
conteúdo.
fusão
samantha faz questão de sibilar o sss do seu nome
sssssmantha
sibilava ela, de forma lânguida e voluptuosa, quando lhe perguntavam o nome
samantha concorda com lindsay. dizem que o primeiro passo para se ser livre é reconhecermo-nos e aceitarmos quem somos, como somos, e depois, aceitar o outro, sem nos perdermos da nossa essência
essssssência
sussurra sssssamantha
mas para lindsay essa liberdade não chega. lindsay diz que pela fusão com o outro, na união, ao sentir a liberdade do outro, expande a sua, também, torna-a mais larga
fusssssão
sibila samantha, semi-cerrando os olhos, adentrando a alma da outra, tomando como sua, além da sua, a liberdade de lindsay. e perante os meus olhos incrédulos, samantha torna-se enorme.
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