domingo, 23 de setembro de 2018

das margens do rio






o jardineiro de pessoas voltou uma e outra vez e outra vez e outra vez. era como se descansasse todo o peso do seu quotidiano, todas as mortes que não conseguia evitar, todos os corpos que via colapsar, naqueles breves instantes em que encontrava a mulher que lavava o futuro nas margens do rio, um futuro de um passado que nunca fora presente. naqueles momentos o homem, para quem a estrutura do cérebro justifica as emoções e os afectos, para quem depois do fim da vida existe o vazio, aquietava-se ouvindo a mulher falar de invisibilidades, dos elementos como companheiros de viagem, da vida como um somar de vidas, da fé e da entrega, da força da quietude.









sexta-feira, 21 de setembro de 2018

*









existia, entre uma pele e outra pele, um arrepio que não pertencia, nem a uma, nem à outra










sábado, 15 de setembro de 2018

dos dias









hoje emanuel falou-me sobre o seu amor. parti do principio que me falava do amor, apenas amor. emanuel tem 23 anos e namora há cinco.
muito tempo dona ana, eu sei. mas conheci-a com 18 anos, e olho, gostei dela e fiquei. não gosto de andar a mudar...
tem razão emanuel, faz bem
vou eu dizendo, há muito rendida daquela convicção de que sem experiência não se pode escolher bem
os meus amigos criticam-me
ah, emanuel não ligue...faça como entende que deve fazer
sabe, eles querem ser livres e só pensam em viajar. mas eu acho que estando com quem gosto, também sou livre
e é emanuel, sem dúvida
e eu ainda queria falar-lhe de que aceitando a liberdade da companheira, estava também a ampliar a dele para realidades até aí invisíveis para ele, mas emanuel foi aquecer outros corpos
fique com o seu livrinho, dona ana
...
o casal mostra-se apaixonado. aquela proximidade terá vindo de anos de vida juntos, de tanta ferida que ela lhe lavou, tantas vezes lhe mudou o saco do intestino, tantas vezes o levou ao médico, tantas vezes lhe aturou as manias, tantas vezes ficou exausta.
mas, naquela altura em que os olho, ele sentado na poltrona, e ela, atrás, acariciando-lhe o rosto, penso que talvez o amor seja um caminho que eu não sei percorrer.
quando a mulher partiu, cheia de recomendações no aeroporto, ele foi dormir com a amante.
...
sem a sua permissão, querida, eu fiz de si o centro do meu mundo
e a mulher calada cala-se
...
tu já amaste de verdade?
pergunta o rapaz
e o que é o amor verdadeiro?
pergunto-lhe
se tivesses amado de verdade, saberias











quinta-feira, 13 de setembro de 2018

52







ele deve ter estado toda a noite a treinar para dizer o seu nome
disse, bem disposta, a funcionária da recepção
e nem assim conseguiu...
brinco de volta
gabinete 52
indicam-me
eu sigo pelo longo corredor ladeado de gabinetes que estão separados uns dos outros por cortinas azuis
cheira mal 
penso que alguém não conseguiu controlar o intestino, e continuo. 
no número 52 aguarda-me emanuel
eu sou emanuel, dona ana, o que precisar, é só chamar. depois de mim, virá irene.
e veio emanuel, e veio irene
entre um e outro
dona ana, deixo-a então com o seu livro
e deixam-me
e eu agradeço. agradeço as mãos que percorrem o meu corpo. as mãos que percorrem todos os corpos. novos, velhos, doridos, teimosos, sujos ou limpos, agradecidos, arrogantes. mãos dedicadas, generosas. mãos que acolhem e curam. mãos que erram.







domingo, 9 de setembro de 2018

onde me fica presa a atenção









... sacraliza o tempo. 
explica o orador
Pára o tempo. Pára, não no sentido em que ele deixa de funcionar, mas pára no sentido em que o tempo deixa de ser uma hemorragia quantitativa e torna-se o teu sangue. Torna-se nutrição – eu começar a contar os minutos como nutrição, as horas e os dias como significado, como conteúdo.












fusão









samantha faz questão de sibilar o sss do seu nome
sssssmantha
sibilava ela, de forma lânguida e voluptuosa, quando lhe perguntavam o nome
samantha concorda com lindsay. dizem que o primeiro passo para se ser livre é reconhecermo-nos e aceitarmos quem somos, como somos, e depois, aceitar o outro, sem nos perdermos da nossa essência
essssssência
sussurra sssssamantha
mas para lindsay essa liberdade não chega. lindsay diz que pela fusão com o outro, na união, ao sentir a liberdade do outro, expande a sua, também, torna-a mais larga
fusssssão
sibila samantha, semi-cerrando os olhos, adentrando a alma da outra, tomando como sua, além da sua, a liberdade de lindsay. e perante os meus olhos incrédulos, samantha torna-se enorme.










quinta-feira, 6 de setembro de 2018

do amor










às vezes sinto uma saudade imensa dele. funda, arrepiante, vertiginosa. 
nesses perenes momentos, vestida de todo o silêncio possível, recupero o lugar onde guardo todas as recordações que me fazem despertar a emoção de o trazer, sempre, debaixo da pele. naquela caixa velha, tão velha quantas as vidas em que nos desencontramos, quantas as vezes em que partiu de mim, quantas as vezes em que o abriguei, trago-o, recortado em pequenas peças de um puzzle impossível. e sinto-lhe o perfume, o aroma morno a água fresca do seu corpo, aquele que abriga todas as formas de me lembrar que o amor transcende, sobrevive e coabita, não importa quais os caminhos que eu percorra, que ele percorra.

[queria tanto escrever sobre ele um texto longo, decorado de metáforas e palavras compridas, mas o que eu sinto é tão simples, que o efeito que uma gota de chuva provoca nos meus lábios, bastaria para descrever o que ele me faz sentir por ele]











quarta-feira, 5 de setembro de 2018

um ano









parece que foi de repente. acordo e ainda é de noite. foi então, também de repente, que percebo que passou um ano inteirinho e que está tudo igual. nada mudou. apenas um ano que passou.









pele










Dois metros quadrados cheios de terminações nervosas, toda ela sensível ao contacto e suscetível de se encher de significados interpessoais.







segunda-feira, 3 de setembro de 2018

parideira








aquela mulher criou carne dentro do seu corpo por seis vezes e por seis vezes deu corpo a seis almas. aquele corpo parideiro, jaz naquela igreja, à vista dos que gerou, todos vestidos de negro e com os rostos banhados em lágrimas, e dos curiosos, vestidos de verão e chinelos de dedo, exibindo peles bronzeadas e a descontracção das férias. todos, excepto eu, que sou uma ignorante nestes rituais, aproximam-se do caixão e aspergem água benta nas pernas imóveis da morta. 
eu, que nem sei porque ali estou, que fujo de funerais como o diabo foge da cruz, sinto que a mulher, de quem dizem que apenas foi mãe de seis filhos, deve ser reconhecida e honrada como matriarca, que apesar de não ter sido capaz de o manifestar em vida, ela foi a transmissora da sabedoria dos seus ancestrais às criaturas a quem deu vida, através dos genes.
enquanto percorro a auto-estrada de regresso, percebo a transformação que seria se percebêssemos e respeitássemos a grandiosidade de um ser, para além daquilo que vemos, para além do que possa ter capacidade para demonstrar.