domingo, 9 de setembro de 2018
fusão
samantha faz questão de sibilar o sss do seu nome
sssssmantha
sibilava ela, de forma lânguida e voluptuosa, quando lhe perguntavam o nome
samantha concorda com lindsay. dizem que o primeiro passo para se ser livre é reconhecermo-nos e aceitarmos quem somos, como somos, e depois, aceitar o outro, sem nos perdermos da nossa essência
essssssência
sussurra sssssamantha
mas para lindsay essa liberdade não chega. lindsay diz que pela fusão com o outro, na união, ao sentir a liberdade do outro, expande a sua, também, torna-a mais larga
fusssssão
sibila samantha, semi-cerrando os olhos, adentrando a alma da outra, tomando como sua, além da sua, a liberdade de lindsay. e perante os meus olhos incrédulos, samantha torna-se enorme.
quinta-feira, 6 de setembro de 2018
do amor
nesses perenes momentos, vestida de todo o silêncio possível, recupero o lugar onde guardo todas as recordações que me fazem despertar a emoção de o trazer, sempre, debaixo da pele. naquela caixa velha, tão velha quantas as vidas em que nos desencontramos, quantas as vezes em que partiu de mim, quantas as vezes em que o abriguei, trago-o, recortado em pequenas peças de um puzzle impossível. e sinto-lhe o perfume, o aroma morno a água fresca do seu corpo, aquele que abriga todas as formas de me lembrar que o amor transcende, sobrevive e coabita, não importa quais os caminhos que eu percorra, que ele percorra.
[queria tanto escrever sobre ele um texto longo, decorado de metáforas e palavras compridas, mas o que eu sinto é tão simples, que o efeito que uma gota de chuva provoca nos meus lábios, bastaria para descrever o que ele me faz sentir por ele]
quarta-feira, 5 de setembro de 2018
um ano
segunda-feira, 3 de setembro de 2018
parideira
eu, que nem sei porque ali estou, que fujo de funerais como o diabo foge da cruz, sinto que a mulher, de quem dizem que apenas foi mãe de seis filhos, deve ser reconhecida e honrada como matriarca, que apesar de não ter sido capaz de o manifestar em vida, ela foi a transmissora da sabedoria dos seus ancestrais às criaturas a quem deu vida, através dos genes.
enquanto percorro a auto-estrada de regresso, percebo a transformação que seria se percebêssemos e respeitássemos a grandiosidade de um ser, para além daquilo que vemos, para além do que possa ter capacidade para demonstrar.
sábado, 1 de setembro de 2018
quinta-feira, 30 de agosto de 2018
presente
ele
mas se ele não está, é com os pés mergulhados no mar, pisando a terra, no tronco de uma árvore ou na delicadeza de uma flor que me encontro, mas tão longe de quem me vê.
terça-feira, 28 de agosto de 2018
amor
perguntou o homem, ficando à espera de uma resposta que tardava em chegar
é feliz?
insistiu
são momentos, sabe?
respondeu-lhe recorrendo àquele eterno lugar comum e sabendo que aquele homem inquieto nunca ficaria satisfeito com aquela resposta
não é feliz?
regressou ele
sou feliz quando sou verdadeira.
...
quando o conheci,
...
quando o conheci,
conta-me ela
desejei intensamente ter força para ser eu, verdadeira, inteira. com o lado de dentro de fora, e mostrá-lo, porque é preciso parecê-lo, também, entende? e não é fácil. e existem fortes probabilidades de ele recusar o que vai perceber.
eu que a ouço, fico a pensar que aquele desejo é a maior prova de amor, dela, por ela mesma.
eu que a ouço, fico a pensar que aquele desejo é a maior prova de amor, dela, por ela mesma.
domingo, 26 de agosto de 2018
chão
eu não sei como alguém como eu, tão bronco, consigo fazer estas coisas...
diz o homem-terra, todo dobrado sobre si mesmo
num gesto de carinho incontido, passo a mão ao longo do seu braço
tu estás tão diferente, tão melhor. mudaste tanto nestes quatro anos... tens noção disso?
o homem, sentado no chão, apoiado na baqueta do tambor, como se de uma bengala se tratasse
sabes o que é? é que ao contrário do que pensam, eu não estou aqui para ensinar. eu estou aqui para aprender. aprendemos juntos, crescemos juntos. por isso nos sentamos todos no chão. estamos todos ao mesmo nível, caminhamos juntos
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