quinta-feira, 6 de setembro de 2018

do amor










às vezes sinto uma saudade imensa dele. funda, arrepiante, vertiginosa. 
nesses perenes momentos, vestida de todo o silêncio possível, recupero o lugar onde guardo todas as recordações que me fazem despertar a emoção de o trazer, sempre, debaixo da pele. naquela caixa velha, tão velha quantas as vidas em que nos desencontramos, quantas as vezes em que partiu de mim, quantas as vezes em que o abriguei, trago-o, recortado em pequenas peças de um puzzle impossível. e sinto-lhe o perfume, o aroma morno a água fresca do seu corpo, aquele que abriga todas as formas de me lembrar que o amor transcende, sobrevive e coabita, não importa quais os caminhos que eu percorra, que ele percorra.

[queria tanto escrever sobre ele um texto longo, decorado de metáforas e palavras compridas, mas o que eu sinto é tão simples, que o efeito que uma gota de chuva provoca nos meus lábios, bastaria para descrever o que ele me faz sentir por ele]











quarta-feira, 5 de setembro de 2018

um ano









parece que foi de repente. acordo e ainda é de noite. foi então, também de repente, que percebo que passou um ano inteirinho e que está tudo igual. nada mudou. apenas um ano que passou.









pele










Dois metros quadrados cheios de terminações nervosas, toda ela sensível ao contacto e suscetível de se encher de significados interpessoais.







segunda-feira, 3 de setembro de 2018

parideira








aquela mulher criou carne dentro do seu corpo por seis vezes e por seis vezes deu corpo a seis almas. aquele corpo parideiro, jaz naquela igreja, à vista dos que gerou, todos vestidos de negro e com os rostos banhados em lágrimas, e dos curiosos, vestidos de verão e chinelos de dedo, exibindo peles bronzeadas e a descontracção das férias. todos, excepto eu, que sou uma ignorante nestes rituais, aproximam-se do caixão e aspergem água benta nas pernas imóveis da morta. 
eu, que nem sei porque ali estou, que fujo de funerais como o diabo foge da cruz, sinto que a mulher, de quem dizem que apenas foi mãe de seis filhos, deve ser reconhecida e honrada como matriarca, que apesar de não ter sido capaz de o manifestar em vida, ela foi a transmissora da sabedoria dos seus ancestrais às criaturas a quem deu vida, através dos genes.
enquanto percorro a auto-estrada de regresso, percebo a transformação que seria se percebêssemos e respeitássemos a grandiosidade de um ser, para além daquilo que vemos, para além do que possa ter capacidade para demonstrar. 













quinta-feira, 30 de agosto de 2018

presente






sabe, querida, quando entrei na ourivesaria para lhe comprar o relógio, perguntaram-me se queria clássico ou desportivo. e eu fiquei assim a pensar - como é possível? ela é livre... - e fiquei sem saber como lhes explicar isso. então olhei para todos e escolhi este. espero que goste. é que eu tenho esta obsessão de que traga algo que a faça lembrar-se sempre de mim.








ele






quando eu não caibo em mim corro para o homem-terra. beijo-o na testa, sento-me no chão, e deixo que ele mergulhe o seu olhar em mim. então, lentamente, a minha alma regressa ao meu corpo.
mas se ele não está, é com os pés mergulhados no mar, pisando a terra, no tronco de uma árvore ou na delicadeza de uma flor que me encontro, mas tão longe de quem me vê.








terça-feira, 28 de agosto de 2018

amor







é feliz?
perguntou o homem, ficando à espera de uma resposta que tardava em chegar
é feliz?
insistiu
são momentos, sabe?
respondeu-lhe recorrendo àquele eterno lugar comum e sabendo que aquele homem inquieto nunca ficaria satisfeito com aquela resposta
não é feliz?
regressou ele
sou feliz quando sou verdadeira. 
...
quando o conheci,
conta-me ela
desejei intensamente ter força para ser eu, verdadeira, inteira. com o lado de dentro de fora, e mostrá-lo, porque é preciso parecê-lo, também, entende? e não é fácil. e existem fortes probabilidades de ele recusar o que vai perceber.
eu que a ouço, fico a pensar que aquele desejo é a maior prova de amor, dela, por ela mesma.










domingo, 26 de agosto de 2018

chão









eu não sei como alguém como eu, tão bronco, consigo fazer estas coisas...
diz o homem-terra, todo dobrado sobre si mesmo
num gesto de carinho incontido, passo a mão ao longo do seu braço 
tu estás tão diferente, tão melhor. mudaste tanto nestes quatro anos... tens noção disso?
o homem, sentado no chão, apoiado na baqueta do tambor, como se de uma bengala se tratasse
sabes o que é? é que ao contrário do que pensam, eu não estou aqui para ensinar. eu estou aqui para aprender. aprendemos juntos, crescemos juntos. por isso nos sentamos todos no chão. estamos todos ao mesmo nível, caminhamos juntos










sexta-feira, 24 de agosto de 2018

fuga






sabe querida, eu queria estar do lado da sua vertigem. do lado de dentro da vertigem que diz que sente. e quando viesse a noite, ficar assim ao seu lado e não querer que os olhos se fechem.
e a mulher calada, foge, foge, foge, sufocada.