segunda-feira, 3 de setembro de 2018

parideira








aquela mulher criou carne dentro do seu corpo por seis vezes e por seis vezes deu corpo a seis almas. aquele corpo parideiro, jaz naquela igreja, à vista dos que gerou, todos vestidos de negro e com os rostos banhados em lágrimas, e dos curiosos, vestidos de verão e chinelos de dedo, exibindo peles bronzeadas e a descontracção das férias. todos, excepto eu, que sou uma ignorante nestes rituais, aproximam-se do caixão e aspergem água benta nas pernas imóveis da morta. 
eu, que nem sei porque ali estou, que fujo de funerais como o diabo foge da cruz, sinto que a mulher, de quem dizem que apenas foi mãe de seis filhos, deve ser reconhecida e honrada como matriarca, que apesar de não ter sido capaz de o manifestar em vida, ela foi a transmissora da sabedoria dos seus ancestrais às criaturas a quem deu vida, através dos genes.
enquanto percorro a auto-estrada de regresso, percebo a transformação que seria se percebêssemos e respeitássemos a grandiosidade de um ser, para além daquilo que vemos, para além do que possa ter capacidade para demonstrar. 













quinta-feira, 30 de agosto de 2018

presente






sabe, querida, quando entrei na ourivesaria para lhe comprar o relógio, perguntaram-me se queria clássico ou desportivo. e eu fiquei assim a pensar - como é possível? ela é livre... - e fiquei sem saber como lhes explicar isso. então olhei para todos e escolhi este. espero que goste. é que eu tenho esta obsessão de que traga algo que a faça lembrar-se sempre de mim.








ele






quando eu não caibo em mim corro para o homem-terra. beijo-o na testa, sento-me no chão, e deixo que ele mergulhe o seu olhar em mim. então, lentamente, a minha alma regressa ao meu corpo.
mas se ele não está, é com os pés mergulhados no mar, pisando a terra, no tronco de uma árvore ou na delicadeza de uma flor que me encontro, mas tão longe de quem me vê.








terça-feira, 28 de agosto de 2018

amor







é feliz?
perguntou o homem, ficando à espera de uma resposta que tardava em chegar
é feliz?
insistiu
são momentos, sabe?
respondeu-lhe recorrendo àquele eterno lugar comum e sabendo que aquele homem inquieto nunca ficaria satisfeito com aquela resposta
não é feliz?
regressou ele
sou feliz quando sou verdadeira. 
...
quando o conheci,
conta-me ela
desejei intensamente ter força para ser eu, verdadeira, inteira. com o lado de dentro de fora, e mostrá-lo, porque é preciso parecê-lo, também, entende? e não é fácil. e existem fortes probabilidades de ele recusar o que vai perceber.
eu que a ouço, fico a pensar que aquele desejo é a maior prova de amor, dela, por ela mesma.










domingo, 26 de agosto de 2018

chão









eu não sei como alguém como eu, tão bronco, consigo fazer estas coisas...
diz o homem-terra, todo dobrado sobre si mesmo
num gesto de carinho incontido, passo a mão ao longo do seu braço 
tu estás tão diferente, tão melhor. mudaste tanto nestes quatro anos... tens noção disso?
o homem, sentado no chão, apoiado na baqueta do tambor, como se de uma bengala se tratasse
sabes o que é? é que ao contrário do que pensam, eu não estou aqui para ensinar. eu estou aqui para aprender. aprendemos juntos, crescemos juntos. por isso nos sentamos todos no chão. estamos todos ao mesmo nível, caminhamos juntos










sexta-feira, 24 de agosto de 2018

fuga






sabe querida, eu queria estar do lado da sua vertigem. do lado de dentro da vertigem que diz que sente. e quando viesse a noite, ficar assim ao seu lado e não querer que os olhos se fechem.
e a mulher calada, foge, foge, foge, sufocada.








terça-feira, 21 de agosto de 2018

sem espanto






eu não sei bem como foi, apenas sei que foi assim de repente que percebi que ele me faltava no momento da partilha de mim. era ele quem me aceitava do avesso sem espanto. apenas ele. todo o meu absurdo, todo o meu lado mudo, toda a minha parolice, toda a minha nudez, toda a minha terra, toda eu em comunhão com os elementos, feiticeira, mãe, mulher, desejo, sangue, ignorância toda eu, indignação, raiva, medo, coragem, solidão, leviandade, carne e espírito. apenas ele, sem espanto. 
é nisso que ele me falta. e quando me falta, também eu me falto.









sexta-feira, 17 de agosto de 2018

memória









estás presa numa memória...
ouço a mulher dizer à outra que fala de um sentimento de solidão que não sabe explicar.
eu sei. mas não é desta encarnação.
responde-lhe.
senti-o quando estive na Batalha.
murmura, falando mais para se ouvir do que para a outra ouvir. como se falando naquele sentir, conseguisse recuperar uns segundos daquele viver
é um sentimento de perda. perdeste alguém que era militar.
eu sei.
continua. 
[há tanto tempo que sei. há tanto tempo que espero.]
parece que a ouço por dentro. como se aquele falar a ajudasse a dizer adeus. finalmente.









terça-feira, 14 de agosto de 2018

ela





sabe...
começa ela. e eu sei que aquele
sabe...
é a forma de ela articular as palavras para o que quer dizer, e sorrio.
sabe...é aprender a confiança, aquilo a que alguns chamam fé. é isso que ando a aprender. confiar que tudo o que vem, vem por bem. mesmo que eu não o entenda.
aceitar que eu possa ser aprendiz, mas também lição. e é tão mais doloroso ser lição... sabe, pudesse eu sentir sempre a alegria daquele que aprende...